Um relambório enorme – não leiam, é uma canseira inútil e entediante

Os entusiasmos


Seja qualidade ou defeito, funciono por entusiasmos. Como tudo na vida, a característica tem nuances positivas e negativas. Lembro-me de na faculdade uma colega me acusar em tom de brincadeira de não querer saber dos amigos. De facto não mantive os amigos da faculdade (apesar de ter óptima e benigna memória de vários), apenas os feitos quando mais nova e os conhecidos mais tarde. Poucos. A verdade é que apesar de ter integrado alguns grupos na infância, adolescência e juventude, sempre fui um pouco despegada.


Em criança dava voltas à casa sozinha a pensar e para fazer tempo, no ciclo preparatório apesar do grupo de amigas, preferia muitas vezes, quando tinha de esperar pela hora de regresso, dar voltas ao campo de futebol ou nas ruas exteriores ao próprio conjunto de edifícios da escola, a pensar na vida. Gostava de ir só para o liceu a pé e já a trabalhar o tempo passado sozinha sempre me agradou. Apesar de ter amigos e amigas próximas, com quem me entendia muito bem. Ao contrário do que se possa pensar, quero saber dos amigos, importam-me e dou toda a atenção. Simplesmente preciso de tempo para mim. E gosto de sossego, muito barulho incomoda-me, muitas vozes juntas em tom alto baralham-me. Desde criança. Pontualmente esqueci esta minha característica e convivi em ambientes confusos, mas não é o meu habitat natural.


Como todos conheci muita gente na vida, ao contrário de alguns, não me mantive próxima de muitos. Ontem, na conversa com o Nuno (de que falarei adiante), dizia-lhe que admirava os meus amigos. É outra característica. Creio que os mantive por os admirar. Por exemplo, admiro a coragem da T. e a desenvoltura do C. Amigos próximos que escolhi para testemunhas de casamento. Admiro as suas inteligências e humor. Sou atraída por pessoas que me estimulem. O conservadorismo, as tricas e intrigas dominantes, os clichés e os temas standard das conversas entediam-me. E quando sinto tédio afasto-me. Pode parecer cruel, já que nem toda a gente pode ser estimulante, mas acredito que cada um é livre e não tem de obedecer às regras de socialização cliché. Claro que pago caro esta característica. Nunca serei uma pessoa especialmente amada ou popular. E em muitos casos sou desprezada. Ora, todos queremos ser gostados. Ossos do ofício, não se pode estar atenta ao mundo e descrevê-lo e esperar que ele nos entenda. Podia dizer isto de uma forma mais pseudo-literária, daquelas balelas que se lêem nas revistas da especialidade? Podia, e morreria de tédio e de vergonha de mim, por ser presumida.


Em meu desabono registo assim a qualidade de me entusiasmar e perder o interesse se não conseguir (continuar a) vislumbrar razões de admiração. No fundo, é o mesmo que se passa nas relações afectivas. Todos nós acabamos por perder um pouco o elã. Alguns aprendemos a encontrar no amor maduro encantos que a excitação não compreende, outros não. Por acaso, nas relações afectivas fui muito mais leal e cautelosa, apesar das mulheres que se mantém solteiras até tarde sempre terem a fama de qualquer coisa: lésbicas (não estou insultar, estou a constatar), promíscuas, doentes mentais intratáveis. Só não estão autorizadas a gostar de estar consigo próprias e a relacionarem-se com um punhado de homens sem se atirarem num casamento precoce. Isto ainda é Portugal dominante aos dias de hoje. Seja nos meios mais pequenos, seja nas luzes da capital.


Apesar da independência e do gosto pelo sossego, nunca fiz disso teatro de sedução (ao contrário do que alguns pensam, não sei representar, nunca fui capaz) com apelo à aparência cinematográfica de mulher misteriosa e cativante. Não tenho um pingo de vaidade na minha solidão. Os momentos que a senti (poucos) doeram o suficiente para perceber que não é coisa que valha a pena cultivar. Gosto das pessoas e gosto de ser leal. Não sinto o apelo pseudo-literário da solidão. Nem aprecio o lugar-comum. Sinto, antes, incompreensão. E isso prende-se com o facto de ser fora do baralho, muito crítica e transparente.


Vem tudo isto a propósito do entusiasmo no último ano e meio: as leituras no Medium. Foi um regresso ao fim de muitos anos ao mundo mais alargado. Não tinha o hábito de ler em inglês, salvo jornais internacionais e poucos livros ou “matérias” digitais. Há ano e meio leio “histórias” do Medium e estou fã. Vou contar o que me entusiasma na última temporada. Quem me lê há mais tempo (desde o blog Comezinhas) já sabe que não faço referências com nomes e essa tralha formal, até por achar que isso se faz mais para auto-promoção do que por respeito a quem lemos. Não me quero colar a ninguém para chamar a atenção para mim, limito-me a dizer que conteúdos leio, o que gosto e admiro. Nem sequer vou consultar os textos novamente para ser rigorosa nas menções.


Na semana passada li alguns posts de um bangladeshiano. Um interessantíssimo sobre Leonardo Da Vinci e as autópsias que fez às vias coronárias. É impressionante apercebermo-nos de como há cinco séculos um homem genial demonstrava ter a atenção desperta para a anatomia e ao mesmo tempo perceber o quão fundamental são os princípios matemáticos e a geometria no funcionamento da vida (matéria caríssima aos árabes, como me ensinaram em criança). Outro post em que registava o silêncio dos países árabes e muçulmanos face à mortandade e tragédia de Gaza, em contraste com as vigílias nos países ocidentais. E uma terceira entrada sobre o encontro em 1930 entre dois prémios Nobel, Einstein e o filósofo e poeta indiano Tagore. Uma lição de sobriedade, de respeito pela opinião diferente. O físico acreditava que a verdade existe por si, na matemática e na física, o poeta propunha que a verdade depende da observação, de quem observe.


Leio um autor japonês quase desde a minha entrada para a plataforma. O que mais me atrai é sentir afinidade com a poesia citadina, ansiosa, delicada, subtil e pensada a incidir nas relações humanas. Há um mês li alguém que escreveu sobre a sua infância na China rural, contando entre outras coisas a forma como nos primeiros dias de aulas na escola primária os alunos levavam sacholas para limpar a erva crescida nas férias que cobria o terreno da escola  (lembrei-me de imediato de como os meus colegas e eu limpávamos a sala de aula, com vassoura, panos do pó, água esponjas e Vim. Há uns meses li várias histórias de um jovem nigeriano que se debruça nas relações humanas e em dicas de escrita na plataforma. Há dois meses, creio, li uma indiana a descrever a vida quotidiana em diferentes países no mundo, narrando os contrastes do dia-a-dia (refeições, supermercados, levar filhos à escola etc.). Leio regularmente um indiano que de modo esquemático revela, entre outros assuntos, pensamento estruturado sobre a vida, diferentes mundividências em pontos geográficos distintos e a política internacional.


Tenho poucos subscritores. É perfeitamente natural. Já tinha poucos no blog Comezinhas e acresce que no Medium, onde quase tudo está em inglês, escrevo em português. Desde início subscrevo poucos autores, mas subscrevo quase todos os que tomaram a iniciativa (as excepções são gente que só fala em dinheiro, gente que espeta o rabo e as mamas para a fotografia, e gente que anuncia estar ali para ensinar os outros). No Medium quase todos têm centenas ou milhares de seguidores. Escuso-me a explicar como se consegue tal proeza. Por isso, raramente tomo a iniciativa, mas por educação devolvo quase sempre a subscrição. Com alguns dos autores que leio tomei contacto através da lista de seguidores dos demais. Foi o caso de uma interessante história sobre o design da cadeira vienense do século XIX, popular nos cafés, com pormenores sobre o processo de fabrico (a introdução do vapor permitiu moldar a madeira para a fabricar em forma tubular). Fiquei a ver de outra forma, 38 anos depois, as cadeiras do café da minha adolescência quando estudava Arte e Design. Ele há coincidências. O que quero dizer com isto? Aprendi e, mais uma vez, fico com a sensação de que o mundo faz sentido como um todo (transcendência).


Leio ainda desde início várias autoras norte-americanas, orientais e de nacionalidades desconhecidas, que tomaram a iniciativa de me subscrever. E tem sido uma bênção. A maioria escreve sobre desenvolvimento pessoal e relações. Leio talvez uma dúzia de artigos desses por semana. Além de ficar a saber as técnicas para ser mais positiva e melhor pessoa, fico a saber as causas dos divórcios, os motivos e consequências das traições, as melhores formas de lidar com a sogra e parentes, especificidades das crises da meia-idade etc. Regresso à meninice quando lia as revistas femininas que me caíam debaixo dos olhos. Um mundo que tinha ficado lá atrás e me parece distante. O melhor de tudo, é que leio em inglês e aprendo vocabulário que nos jornais internacionais não aprendi. Leio também, por enquanto raramente, um autor que dá dicas sobre construir ficção; no último post que escreveu, aconselhava o foco numa só imagem: a mão que treme, a cadeira vazia. Menos é mais.


Leio ainda histórias sobre pintura, política, história e filosofia. De autores que me começaram a seguir ou que tomei a iniciativa de subscrever.


A longa conversa de Carnaval com o Nuno ao som de música melosa


Ontem o Nuno e eu carpimos o dia inteiro. Pusemo-nos a falar e não parámos o dia todo. Carpimos o passado. O Nuno falou imenso e eu também. Não deve ser mau sinal, ao fim de 26 anos de nos termos conhecido, ainda ter o que contar um ao outro. Fizemos as nossas necessárias catarses. Às vezes, é preciso. Sim, somos um dos casais que em certas ocasiões fica em silêncio no restaurante. Isso não quer dizer que não haja “comunicação”. Às vezes, é o momento em si. E sim, preciso de tempo para mim. E o Nuno aponta-me isso, de tudo parar quando escrevo (ou matuto). De não querer interrupções nem barulho. Ele também precisa, e também me interrompe. A verdade é que ele tolera mais as interrupções do que eu. Tem muito melhor feitio. Tudo isto não é mau sinal. Significa que temos interesses. Cada um tem o seu mundo e precisa de tempo para si.


Ouvimos música melosa enquanto conversávamos. Discutindo sempre os decibéis. Ele gosta de ouvir alto, eu baixo. Não gosto de música alta e muito menos de chatear os vizinhos. A doçura das músicas fez-me lembrar o facto de ter perdido muitas vergonhinhas e preconceitos com o Nuno. Uma delas, a de assumir que gosto de música melosa. Também me parece perfeitamente normal perder a vergonha com o marido. É a pessoa certa. Falámos de pessoas que não conseguem ou sabem dizer amo-te e expressar sentimentos. E dos conquistadores baratos que o dizem ao desbarato. Alegramo-nos de connosco ter sido tudo muito fluído e de fácil entendimento desde início apesar das grandes contrariedades de vida. Falámos de encontros e desencontros amorosos, de vidas, da nossa vida.


Ouvimos quase tudo, ontem mais rock meloso. Mas o Nuno gosta de música new age, sinfónica e orquestral, eu jazz. O Nuno não vai muito à bola com soul; às vezes, dá-me para passar dias a ouvir Marvin Gaye. Outros, a ouvir populares francesas ou italianas. Outros, compilações de Tchaikovsky. Mas sobretudo jazz, blues e country, que o Nuno também gosta.


E agora a contradição. Contei-lhe que tinha lido um artigo num jornal sobre o escritor norueguês a que fiz referências há cinco anos e que agora está num registo muito diferente. Nessa altura estava numa de explorar a sua vida quotidiana, como alguns autores pelo mundo fora. Ponderei mais uma vez se estará na altura de eu sair do registo do umbigo.


Falámos de defeitos um do outro. O Nuno disse que eu me dispersava. É verdade, quase tudo me interessa. Jamais conseguiria ser especialista em alguma coisa.


As interacções espontâneas na rua e o contraste com o mundo digital


Nos últimos dias sinto as pessoas muito simpáticas na rua. Chegam à paragem e começam com sorrisos a conversar e a contar-me a vida toda. Põem-se a jeito. Qualquer dia começo a contar tintim por tintim a vida das pessoas que encontro ao longo do dia. Hoje ao sair de casa, dobrei a esquina e ouvi um alegre bom dia. Pensei que não era para mim e continuei. Uns passos adiante hesitei e olhei para trás, vinha atrás um homem que me sorriu, deu meia volta e retrocedeu. Creio que me confundiu com outra pessoa. Mas manteve um sorriso bem-disposto.


Isto contrasta com as amofinações da Internet. Não noto esta abertura e singeleza. Nalguns espaços está tudo com muito mofo, agarrado aos círculos fechados e com pouca vontade de abrir-se ao mundo. Ou então fazem-no de forma muito calculada, como se estivessem a jogar xadrez. Uma canseira. Além de mais há nebulosas que parecem não se desfazer. Jogos de esconde, esconde. De cochichos. De estratégia. E más interpretações. Minhas também, com certeza.


Talvez por isso me sinta melhor no Medium; não conheço ninguém. E gosto de conhecer, lendo o que escrevem, aprendendo, descobrindo mundos diferentes. Não fazendo referências, facções, caixinhas, grupinhos. Por agora arejo no Medium. Já recebi convite para meetings e vi propostas gerais de eventos para conhecer pessoas do meio: outros autores e editores. Não adiro. Não quer dizer que algum dia não me dê para aí, mas por enquanto gosto de me manter despegada, a ler e conhecer por gosto genuíno. Para fazer social ligo aos meus amigos que se contam pelos dedos de uma mão, e talvez um ou outro dedo da outra mão. O que não quer dizer que pontualmente não conheça alguém de novo. Mas com muita parcimónia e não para me promover. Preciso de paz. Até porque mesmo sendo prudente, já tive a minha quota de desgostos com gente que se aproxima cheia de boas palavras e se revela desleal e um fiasco em termos de carácter.


O almoço perto do local de trabalho


Hoje almocei mais uma vez perto do local de trabalho. Nas quatro mesas mais pequenas uma das funcionárias do café, expedita, ensinava o colega a usar o terminal automático de pagamento, um par de colegas de trabalho conversava: ele contava os diálogos com a ex-mulher, ela ouvia-o. O homem virado de frente para mim e de costas para a porta lia um livro. Leu também uma pauta de música, o que acho sempre um prodígio de inteligência (e pensar que ao olhar para a pauta, a clave de sol e as colcheias o cérebro começa a dançar). Não consegui saber o título do livro e autor apesar de dar por mim inclinada a tentar. Se conseguisse seria bem provável que ao chegar à empresa fosse ver na Wook de que se tratava. Sim, sou daquelas que quando vê um papel escrito no chão da rua, o vira com os pés para tentar ler. Mas não leio muitos livros e leio devagar. Cansa-me. É muito aborrecido, sofro tanto. Uma maçada.


O sonho 


Os meus sonhos são, como já contei diversas vezes, muito povoados. Família, amigos, conhecidos e desconhecidos. Telas de Bruegel ou, mais recente, Onde está o Wally. Já pensei que se o futuro me destinar a solidão, ainda tenho o refúgio dos sonhos. Na semana passada sonhei com a T. Liguei e estava tudo bem com ela. Por vezes, ligo-lhe e ela diz: é impressionante, estava a pensar em ti. Ontem sonhei com o C. e a mãe dele. Mandei uma mensagem e ainda não obtive resposta. Não sei em que parte do mundo está. Aguardo tranquila. A última mensagem que recebi dele é do fim de ano.


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O que escrevo está a ser publicado aqui: Isabel Paulos – Medium.

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