Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.
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Ao longo dos anos fui revelando no blog Comezinhas sonhos que fui tendo. Não efabulei. Não inventei momentos oníricos para embelezar, ofender ou passar mensagens sem que a descrição fosse fiel ao sonho da noite anterior ou do passado longínquo. As investidas de bandidos na nossa casa, o avião a aterrar no terreiro de Valinhas e outras imagens recorrentes e sempre significativas de Valinhas como a da cesta dos ovos no estendal, as camaratas de guerra, as aparições de gente do passado, e até a prostituta com pus na perna de há dois meses e meio apareceram-me de facto em sonhos quando relatei.
Creio ter contado há uns anos no blog que não sinto grande necessidade de fantasiar. A vida dá-me motivos q.b. de drama e tragédia. Não acho especial graça nem a um nem a outra. Nem gosto de os explorar, de tirar proveito da excitação que comportam. Talvez por isso dê relevo à vida monocórdica e sensaborona. Prefiro a verdade do comezinho aos golpes do extraordinário. E estou cada vez mais convencida de que nos devemos proteger do mal provocado pelos sedutores, pelos heróis e heroínas, isto é, pelos efeitos colaterais da sensualidade e da santidade — das grandes façanhas alheias.
Aliás, como também já revelei, estou persuadida de que, se cada um explorar a sua própria personalidade, se cada um se dedicar ao autoconhecimento com verdade, tem matéria bastante para escrever vários romances. Se quiser dedicar-se ao género distópico ou das perversidades humanas tão em voga no último século, basta, sem mentiras, estudar-se a si mesmo, à sua vida e aos que o cercam.
Todavia, não tenho vocação para adoçar, romantizar ou apimentar as perversidades humanas, menos ainda para aproveitar a sua explicação psicológica como desculpa ou normalização das aberrações da humanidade, das ofensas e das injustiças. Por muito fora de moda e com má-fama esteja a bondade, acredito que a devemos procurar.
Bem sei que isso dá azo a julgamentos sumários de hipocrisia, de pobreza de inteligência e falta de sofisticação, mas cada um é para o que nasce e não nasci para canalha. Desculpem os ilustres por esta traição à cultura em voga, mas não à tradição literária. Não sei se algum dia esse destino ardiloso me estará fadado, mas até hoje não fui incumbida de destruir vidas alheias nem de ofender gratuitamente.
Talvez só assim encontrasse respaldo entre os iluminados, que se preocupam mais em intrigar sorrateiramente e com o uso de pleonasmos, diminutivos ou pontos de exclamação do que com a questão da existência — que começou por traduzir a ideia de manifestação. Ou talvez tivesse o mesmo bom acolhimento se, aparentemente sem causar prejuízo alheio, numa atitude de bondade postiça, me dedicasse à autopromoção e à total inanidade.
E, posto isto, conto o sonho de hoje, que obviamente já procurei interpretar. A figura central era uma velha, muito velha senhora. Baixinha, franzina e frágil. Eu estava a acompanhá-la com um sentimento ambíguo por me sentir interesseira. Ajudava-a e lembrava-a, como as crianças pequenas, que de tarde teria de ir para o lar dormir. Ela, franzina, deu-me a mão e fomos em direcção a uma esplanada de café, onde a aguardava a pessoa que mais me ofendeu e prejudicou nos últimos anos. Essa pessoa estava contente e vaidosa por receber a velhinha e não parecia ter intenção de fazer-lhe mal, mas estava desconfiada quanto à minha presença. A mim só competia levar a velha senhora até à esplanada e seguir a vida.
Com sonhos destes, quem precisa de inventar? Com vidas destas, quem precisa de ofender consciente e gratuitamente? Há um mundo nobre sem heróis nem façanhas. Um mundo para lá da fantasia mesquinha. Compreendem-me?
Com quem falo? Convosco, que me hão-de ler ao longo dos tempos, e comigo mesma por estar a aprender enquanto escrevo estes postais ilustrados.
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.