Das artes da persuasão e da insinuação

- a fora de moda procura da verdade -

Imagem gerada pelo Copilot a meu pedido.

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É muita a pouca vontade de escrever. Hoje obrigo-me a fazê-lo, por saber que no fim saboreio a sensação de dever cumprido.

A democratização do ensino, a enxurrada de informação nos meios de comunicação social tradicionais e digitais e o insuflar da auto-estima criaram um viveiro de especialistas e replicadores sabichões. Vinte e cinco séculos depois, vivemos o recrudescimento dos sofistas, e da necessidade de retórica, da arte do convencimento pela argumentação. Tudo é admissível desde que esmiuçado e explicado por sucessão de fenómenos isolados, explicados com manipulação e intenção de distorcer a realidade para convencer as pessoas comuns de uma determinada opinião. Seja por mera vontade de protagonismo, seja por os agentes argumentativos estarem capturados por alguma rede de interesses e de troca de favores.

Pergunto-me se ainda será na minha vida que assistiremos à reacção natural, com a busca da reflexão crítica e do restabelecimento das verdades universais, hoje negadas em absoluto pelo relativismo que interessa à manipulação das ideias e da consciência colectiva. Estes movimentos parecem cíclicos e será natural o regresso à busca de definições universais, ao reconhecimento da ignorância e à ética socrática.

É petulância minha, mas viver num tempo em que a maioria considera legítimo debitar opiniões, façam ou não sentido, pugnar pela procura da verdade parece coisa de chata presunçosa e moralista. A solidão no sentido de incompreensão é grande. É preciso digerir um gole de cicuta por dia. Obrigada pelo exemplo, mestre. Desculpe esta batota de ir morrendo todos os dias um pouco.

Mas nem só da veia argumentativa se faz a moda do tempo. Os mais evoluídos e os seus seguidores e replicadores advogam a tese da superioridade da sugestão em vez da manifestação. Diz-se, por exemplo, que a literatura não foi feita para dar respostas, mas para deixar perguntas no ar. É de facto mais sedutora e apimentada a insinuação do que a afirmação. Compreendo a ideia da universalidade das ideias, o que não deve é confundir-se o carácter universal da escrita com a justificação da ofensa cobarde e premeditada. A ambiguidade é muito apelativa como recurso artístico e rende pedigree e vendas, todavia pode não passar de uma forma de ludibriar e gerar falsa ideia de talento.

Passando para o mundano, este artifício é muito usado por gente desonesta e pouco inteligente, apesar de esperta. Atirar para o ar uma laracha que dê o ar de conhecimento, hoje de fácil acesso, é muito comum desde as reuniões sociais ou profissionais às intervenções nas redes digitais. Associar a insinuação ao humor fácil é a forma usual de forjar perfis supostamente interessantes, mas que vistos com um pouco mais de atenção se revelam absolutos logros.

Com o tempo, pela convivência ou a observação desta forma de actuação frívola, percebemos a falta de inteligência e profundidade de gente muito cheia de si e das suas razões e talentos. A superficialidade é atraente, socialmente privilegiada. Vende, tem audiência e votos.

Os tão cativantes e bem-aceites álibis do humor e da imperfeição humana geram uma sensação fraterna e justificam que se diga através da insinuação de conhecimento tudo e o seu contrário, destrua vidas alheias, distorça por completo a realidade e ainda se passeie no espaço público coroado com os louros da inteligência, do valor e do mérito.

Assim é o espaço público, especialmente o digital. E mais ainda nos falsos círculos educados e intelectuais. Lugares nos quais se privilegia a inversão dos valores seja pela explicação excessiva e distorcida, seja pela ausência da explicação verdadeira. Isto é, seja pela arte da persuasão, seja pela arte da insinuação.

É a vitória da aparência e da falsidade. A derrota da educação e do conhecimento.

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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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