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Pouco falta para a meia-noite, estamos no bungalow no Parque de Angeiras e acabei de ler ao Nuno dois curtos e lapidares contos de Oscar Wilde. Ao terminar comentei: por que razão a ficção está tão longe da realidade? Sinto-me os populares — como chama a televisão às pessoas comuns -, a contarem: e ele disse, e eu disse.
O segundo conto lido premeia a generosidade, o primeiro é a demonstração com bisturi da necessidade de uma mulher fingir a aura de mistério e charme para seduzir. Dois engodos; nem é usual recompensar a generosidade, nem a falsificação da densidade costuma ser detectada. É, aliás, muito apreciada, ao contrário do amor e do altruísmo genuíno — e nem sempre é desprovido de sentido misturar alhos com bugalhos.
Agora, das letras ao terreno.
Ao contrário da personagem literária, sabem que conto a minha vida tintim por tintim. A vida sem graça, nem fascínio. Um bocejo.
Quase tudo parecia correr mal. Havia determinado ir a Gaia comprar sandálias e sapatos. Lá fomos, mas sem explicação fiquei uma hora sem rede no telemóvel. Não pude chamar a Bolt. Liguei para a linha de apoio ao cliente da operadora de comunicações para ser desconsiderada por um qualquer assistente de inteligência artificial.
Fomos de táxi e não pagámos muito mais, o que apreciei. A sapataria de que sou cliente estava muito desfalcada — azar, são os últimos dias de saldos. Não consegui o meu número para nenhuma das escolhas. Acabei por encontrar no centro comercial calçado desportivo barato e decidi que voltarei à sapataria habitual em Setembro.
Na Cortefiel aproveitámos os saldos e comprámos um pólo verde petróleo escuro para o Nuno e duas blusas iguais para mim, uma preta, outra azul breu.
Entrámos também na agência de viagens Abreu. E definimos os nossos desejos para o próximo passeio, adiando a decisão final para meados de Setembro. Como, por estes dias, sinto empolgamento pela vida, entusiasmei-me com a ideia da noite num acampamento na região de Zagora. Uma tentação para quem gosta de noites de céu estrelado. O senão é a escala no aeroporto de Lisboa. Omito o nome do destino, para não gastar mais o nome ao país eleito para a próxima viagem.
À tarde viemos para o parque. Em dia de chuva como tem sido habitual. Desta vez fomos ainda melhor tratados. Além de nos trazerem a mala ao bungalow, tive a surpresa da cama estar feita. Um mimo que me deixa agradecida. É um parque de campismo que apetece não só pelo arvoredo, como pela delicadeza dos funcionários.
Ao telefone falei apenas com a minha mãe, que me contou a ida a Vila do Conde, com a prima N. e a cunhada B., a convite dos meus primos, sempre primorosos — o que faz todo o sentido etimologicamente. E contou-me uma história que fez chorar o Nuno e a mim.
No percurso de carro, a minha tia B. disse que a neta M. foi em grupo a Fátima e que de regresso pediram às crianças que fizessem um desenho para descrever as sensações da visita ao Santuário.
A pequenina, que tem oito anos e viu o Nuno apenas uma vez, quando há quase dois anos fomos convidados pelo meu primo e amigo M. para o quinquagésimo aniversário, disse que o desenho era para pedir que o Nuno voltasse a ver.
Chorei e direi uma palavra à minha prima I. para que dê um beijinho enorme à filha M. — uma pequenina introvertida e, pelo visto, um coração de ouro.
Antes de dormir saboreio o sossego de porta aberta. Ao som do rugido do mar, amparada pelas sombras esguias dos pinheiros que tocam o véu nublado nocturno.
A fotografia é da taça com as peças de fruta aqui no parque. Trago sempre mantimentos para os dias que cá passamos: fruta, café, queijo, fiambre, bolachas, frutos secos, sopa de pacote e enlatados. O pão e as bebidas compro aqui. Daí que traga uma mochila, além da pequena mala com as poucas peças de roupa e o computador.
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.