Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.
*
Trumpzinhos à europeia
Ao longo dos últimos anos tenho insistido muito na tecla da emergência da lei da selva na vida comunitária actual. Se tivesse tempo hoje voltaria à carga para me insurgir contra a desfaçatez do Governo português, dos partidos que o formam e das formas dissimuladas e ardilosas (sem assumir a reforma planeada) de corromper os direitos adquiridos e o Estado de Direito. Quando há mais de dez anos comecei a escrever O Livro dos Três Princípios, ciente de que havia um segmento da sociedade que não dizia o que pensava em voz alta, considerava que a Direita precisava de voz. A voz abafada nas últimas décadas está a fazer-se ouvir da pior forma, direi sem pejo: de forma imunda. O cúmulo dá-se quando em algumas matérias o CHEGA tem mais bom senso do que o PSD, CDS e IL juntos. Cruzes credo, ela está a defender a extrema-direita. Não, não estou. Estou apenas a dizer que PSD, CDS no Governo, e também IL juntos em algumas matérias são mais perigosos e sujos do que o CHEGA.
O modo como se está a discutir a questão da Segurança Social e a política externa denuncia a natureza podre deste Governo. É curioso ver esta gente a defender a igualdade. Só rindo. Havia o Robin dos Bosques, que roubava aos ricos para dar aos pobres, e há a Direita portuguesa a seguir a tendência internacional — com a agravante de na maior parte dos países europeus a discrepância de rendimento ser muito mais ténue do que em Portugal — de roubar aos pobres para dar aos ricos, com o pretexto da igualdade.
Isto no momento da evolução histórica em que falar em ricos e pobres é crime de lesa majestade nos meios intelectuais. Demagogia básica e barata que envergonha. É linguagem primária do passado. Da época da luta de classes. Não é chic nem inteligente no mundo resplandecente do sucesso e da ostentação imobiliária, hoteleira, financeira que serve de mel à ambição desmedida e faz nascer no país uma mentalidade de deslumbrados.
Os intelectuais e a franja da população bem instalada no activo ou já reformada dos empreendimentos e do emprego público ou privado favorecido, que se estão a borrifar na Justiça e na redistribuição equitativa do rendimento e bem-estar económico e social, cavaram a sepultura da Esquerda portuguesa alegando puritanismo, totalitarismo e falta de elegância. Para quê? Anedótico. Para entregar o reino e o poder a novos-ricos boçais sem um pingo de sensibilidade, sem um pingo de noção da importância do equilíbrio social e da aceitação das clivagens ideológicas para a sobrevivência de civilização da nação.
Compreendo melhor agora o ódio pessoal de alguns blogueres, jornalistas e comentadores das televisões e da comunicação social em geral a Rui Rio e a forma como foi combatido nas redes sociais e media no tempo em que esteve à frente do PSD. De facto quem desejava e apoia esta Direita abusadora, agressora dos direitos mais elementares, que mimetiza as políticas da actual Administração norte-americana, não pode apoiar a Social Democracia. Quem faz críticas a Trump apenas para se entrosar na tendência limitando-se a questionar os tiques do homem como se fosse uma questão de gosto ou etiqueta, não se distancia da sua mundividência. Portugal está pejado de mesquinhos Trumps. Trumpzinhos à nossa medida pequenina, avara, gananciosa e invejosa. Agressores escondidos à moda da hipocrisia nacional. Tudo civilizadíssimos bons pais de família, que detestam o cabelo ou a gravata de Trump. Verdadeiros democratas de pacotilha.
Enfim, afinal tive tempo para o desopilar. E dizer parte do que me passa pela cabeça. Em boa hora me demarquei desta Direita que envergonha o PSD de outrora — partido em que mais votei.
Como nota deixo só a indicação de que não desconheço que as reformas em causa nascem das políticas da actual Comissão da União Europeia. O título deste post bem podia ser Trumpzinhos à europeia.
*
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.