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Leitura no Medium
É curioso como descobri ao longo dos últimos dois anos ao escrever estes diários de fim-de-semana a inclinação para leituras sobre fotografia. Entre os múltiplos interesses que espevitam a minha mioleira não era um de que tivesse consciência. Desde criança tirei fotografias para registar o quotidiano e nunca valorizei a técnica. Sempre me considerei sem qualquer remorso má fotógrafa. É surpreendente como ao abrir o tópico Art dou por mim a ler com tanto interesse artigos sobre fotografia como acerca de pintura. Já sabem que podem ler o post que a seguir vou resumir no separador Activity.
O artigo escolhido versa sobre os conceitos do momento decisivo e da distância intermédia do célebre fotógrafo Cartier-Bresson. O momento decisivo é o instante da combinação de vários elementos visuais para contar uma história e a distância intermédia é o espaço entre três e trinta metros que permite mostrar pessoas, relações e contexto social. Um mundo que o autor diz ter desaparecido com o advento da vida social moderna, pouco espontânea, sem crianças livres na rua, sem comércio ambulante e com as pessoas encafuadas em casa e centros comerciais, nos carros e transportes. Um tempo de regulamentações legais e inibições da captação de imagem. Gente sem interacção presencial, debruçada no ecrã.
O autor dá como exemplo de fotografia Exposição de uma informadora da Gestapo, Dessau, Alemanha, 1945. Uma imagem não encenada de Cartier-Bresson do momento em que uma informadora da Gestapo é exposta e humilhada em público, pouco antes da ocupação aliada.
Acrescenta ainda que o momento decisivo foi substituído pelo acontecimento, lembrando que apesar de ainda existirem acontecimentos com potencial narrativo na política, nas manifestações, nos concertos, nos rituais religiosos, tudo é organizado, previsto e encenado. Longe da interacção social espontânea e imprevista captada no instante exacto.
O autor refere também a fotografia actual da natureza e do desporto com grande virtuosismo técnico resultante do aprimoramento das câmaras. A teleobjectiva e a grande angular permitem captar com impressionante brilho e nitidez a ave que apanha o peixe e as grandes paisagens da Patagónia. Imagens apelativas com grande impacto e de compreensão fácil que fazem parar o deslizar do polegar no ecrã, ao contrário das fotografias que contam histórias sociais complexas do fotojornalismo clássico.
O comezinho e o ordinário
A propósito dos temas da pintura dei por mim a pensar na minha queda para artistas flamengos e holandeses, como Bruegel (1525?-1569) e Vermeer (1632-1675), e na forma como retrataram cenas da vida quotidiana urbana e os interiores domésticos, afastando-se das encomendas das cortes e da igreja, criando uma cultura visual nova, assente na vida burguesa e comum. Já tinha essa percepção, apurada pelas leituras ao longo destes dois anos de Medium de artigos sobre pintura nórdica — que presumo tenha ido beber à tradição flamenga e holandesa -, e acurada agora pela leitura de Gombrich.
Como misturo tudo, encontro um ponto de contacto no gosto pelo comezinho e parto para a distinção entre vida comum, perto da realidade das pessoas, familiar, profissional ou social, e a vulgaridade. É muito usual confundir vida corrente com ordinário. A arte tem o condão de distinguir uma da outra e como ouvi certa vez: a arte não é acessível a todos. Não está al alcance da compreensão de quem a simula, nem de quem se deslumbra com aparência. E o que vale para a pintura, vale para a escrita.
Perdoem-me a crueza, mas são sintomas de vulgaridade: provocar choque de forma gratuita, insinuar (falsa) elegância ou (falsa) densidade da vida amorosa, alimentar intriga e bisbilhotice, forçar a exibição de vernáculo sem senti-lo ao expor opinião política para dar ar de rebelde, forjar “literariedade”, isto é, escrever com imitação de tiques literários para tentar dramatizar e seduzir tontos, ostentar livros que não se lêem ou compreendem.
São manifestações do comezinho e podem ser arte: o retrato autêntico do dia-a-dia do artesão ou da leiteira, os interiores de uma casa, as conversas íntimas ou uma discussão do casal, a birra da criança, a cesta de fruta ou dois pratos de paparoca na mesa de jantar sem grande encenação, os rostos apreensivos ou entusiasmados de passageiros num transporte público ou transeuntes na rua a ler uma mensagem instantânea no ecrã do telemóvel.
O trivial pode ou não ser arte. Depende do olhar. Fazer do banal, da vida pessoal e quotidiana matéria pretensiosa ou de mau gosto por estar na moda e atrair audiência através das trocas de favor e das referências mútuas não é certamente a via da arte — esta costuma ter um percurso mais difícil e sólido.
Dia-a-dia
Por falar em trivial, na manhã de ontem, Sábado, telefonei aos meus três irmãos para tentar reuni-los cá em casa. Depois dos ajustes das disponibilidades ficou combinado um lanche simples para daqui a 15 dias. Falei também aos pais e sobrinhos. A ideia é finalmente mostrar a obra da sala. Afinal já foi feita em Dezembro do ano passado. Ao contrário dos primeiros anos neste apartamento não tenho convidado os meus irmãos para o aniversário em casa e já não vêm cá há algum tempo. Vai ser bom juntarmo-nos.
À tarde veio o meu pai tomar café e à noite fui à farmácia tomar o injectável de neurobion e aprovisionar-me de medicação para a próxima temporada. Foi simpática a conversa com a farmacêutica. Ao pôr os medicamentos no meu saco de Bertrand acabou por falar de livros e do desgosto que tem por os filhos não gostarem de ler. Falámos da badalada falta de capacidade de concentração para ler ou ver cinema. Revelou-me que já não vai ao cinema por não conseguir estar duas horas presa à cadeira e contou que está a ver a primeira temporada do Senhor dos Anéis. Tal como eu, não viu a série, mas manteve a curiosidade. Disse que ao sexto episódio começou a ficar agarrada.
Na quinta-feira houve duas visitas cá a casa com o agente imobiliário. No segundo caso vieram vários elementos da família e prolongaram a conversa por uma hora, com o Nuno a tocar piano. À noite disse-me que quer comissão de venda. A ver vamos se surge proposta.
Em matéria de troca de casa estou apreensiva com um problema da nova. Pedi a planta e estranhei que uma parte estivesse designada como arrumos. Como queria averiguar se está afecto a habitação, pedi a Caderneta Predial. Confirmei que sim, mas surgiu outra questão. A área do jardim existe no prédio, mas não está afecta à fracção. Dizem-me tratar-se de um erro das Finanças, porque na Caderneta anterior às obras a área constava e não está registada no outro andar (nem tem acesso). O meu medo é que me esteja a escapar qualquer coisa e, por outro lado, que a correcção da situação envolva o aumento do valor patrimonial que já foi actualizado este ano e é mais do dobro do nosso actual apartamento. Isto é, mesmo que se resolva, temo o aumento do imposto municipal.
Ontem o Nuno falou com a mãe e com a amiga F., hoje ligou-lhe o primo P. Depois de publicar este diário talvez ligue aos amigos T. e R. Se sobrar tempo depois de dormir uma horinha, darei mais uma vista de olhos pela História da Arte de Gombrich.
A fotografia é do tabuleiro de fruta da nossa cozinha que ao longo dos últimos anos fotografei vezes sem conta para publicar no blog Comezinhas e aqui no Medium. Creio que no blog Comezinhas na SapoBlogs as reacções à natureza morta foram maioritariamente de tédio pelo testemunho sensaborão ou num caso particular de veneno reles de quem escondia, atrás de cada um dos falsos elogios, desdém e cobiça.
Obrigada por terem lido. Bom Domingo.
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.