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Quem leu as Comezinhas ao longo destes anos sabe que tenho especial aversão por lições e conselhos não solicitados. Porquê? Por resultarem, na maioria das vezes, da necessidade de afirmação pessoal e da busca de protagonismo e não do gosto efectivo de partilha de conhecimento relevante. Além de que os vaidosos, em regra, são péssimos observadores e costumam emitir juízos precipitados e preconceituosos.
Outra curiosidade patética é a forma como, para esconder fragilidades próprias, se diz gostar de observar os comportamentos circundantes e aconselhar em consonância com os resultados da avaliação.
Mas hoje é mesmo de lições e conselhos que trata o post. Com uma particularidade. Não sugiro que os sigam, conto apenas os muitos que dei a mim mesma ao longo da vida. E os que não dei em devido tempo e deveria ter dado. O tu é dirigido a mim mesma. Não tuteio à toa.
Se foste considerada desajeitada pelos próximos desde sempre, aprende a lidar com a diferença. Vais ter um percurso solitário pela frente. Sê feliz contigo própria.
Se aos dez anos uma colega com ascendente sobre outras fizer bullying contigo por inveja — porque és respeitada pelos professores e gostada pelos colegas -, afasta-te das ofensas verbais e da má-língua. Olha à tua volta, vê onde estão as amigas e os amigos que valem a pena. E brinca, conversa e sê amiga de quem vale a pena. Desenvencilha-te do irrelevante e apaixona-te por rapazes que te façam rir e te façam sentir bem e gostada.
Quando surgir o primeiro namorico não te enchas de minhoquices, não tenhas medo e não fujas inventando pretextos que penalizem o rapaz que só é culpado de te ter achado graça.
Na adolescência procura viver a vida cercada de amigas e amigos genuínos, daqueles a quem podes expor as tuas vergonhas e fraquezas. Conversar sobre o que te interessa, sem querer saber da vida alheia e maledicência. Daqueles a quem possas contar as tuas paixões por pessoas, ideias e coisas. Daqueles a quem possas ouvir os desabafos das suas paixões e a quem possas confortar e alegrar.
Ao longo da vida e, sobretudo, já madura, vais perceber que vale a pena ser franca e confiar. Terás desilusões com gente falsa e desonesta que te engana, mas serão a excepção, não a regra. Marcam muito porque a maldade faz sempre mais barulho e tem mais audiência. Todavia, deves afastar-te de quem não te aprecia e de quem não te respeita.
Haverá sobretudo gente para quem és indiferente e isso é o mais normal. Porém, se tens ideias próprias e és veemente nas tuas opiniões, haverá gente que te considerará esquisita e temível. Pensa: pior para eles. Sabes que não és má pessoa e que procuras ser justa. Deverias era tentar não ser tão intransigente.
Se um amigo promíscuo se aproximar demasiado, deixa claro que não aprecias traições e que não te passa pela cabeça envolveres-te com mulherengos sem critério.
Se um colega e amigo — que não fazia o teu género por ser ambicioso, egoísta, além de fisicamente desinteressante -, se insinuar e com cálculo sondar os teus projectos para averiguar se és uma boa aposta, assusta-o. Diz-lhe que tencionas ter cinco filhos. Ele tem tudo medido e calculado, será suficiente para afastá-lo. Ri em casa da anedota de descarte e passa adiante. À primeira oportunidade apresenta-lhe uma rapariga determinada e pragmática e verás que acabam por casar.
Porém, não faças a burricada de ignorar os sentimentos de rapazes de boa-índole e reservados. Mais tarde vais saber por outras pessoas, no liceu e na faculdade, que foste a paixão de dois rapazes inteligentes, bonitos, gentis e tímidos. Não sejas tapada de todo e não deixes de perceber esses sentimentos por ti. Seria muito melhor do que perderes tempo a devaneares com homens que nada sentem por ti.
Se tens curvas ou tendes para o gordinha, não percas um segundo a dar corda a homens que apreciam magras; se fores magra, deverás descartar homens que apreciam gordas. Vais aprender que há gostos para todos os feitios e isso nada diz acerca do que mais importa. A boa ou má-índole. O importante é que estejas bem contigo e sejas admirada por quem escolhes.
O mesmo vale para homens que têm o fetiche dos sapatos de salto alto, botas de cano alto, pestanas postiças e maquilhagem, fatiotas caras, jóias, linguagem pretensiosa de exibição de ciência e sabedoria, gosto por carros desportivos ou faustosos, ostentação fútil de viagens ou quaisquer sinais exteriores de riqueza e ilustração. Se não fazem o teu género, não percas um segundo a dar bola a homens que acham que isso é ser feminina e que isso é ser uma mulher interessante.
Aproveita a vida. Apaixona-te por homens bonitos e de bom coração. Com amor à vida. Aprofunda a relação com homens alegres que valorizem os laços afectivos, tenham opiniões e interesses próprios e sonhem com uma realidade mais justa. Cada homem que conheces é um mundo em que entras e isso dá-te uma responsabilidade acrescida de respeito por quem confia em ti.
Quando chegares à maturidade será ridículo falares deles como conquistas levianas. Não queiras comportar-te como um daqueles coleccionadores de supostos troféus com necessidade de afirmação. Se não viveres de forma superficial e fútil, perceberás o valor da reserva e o respeito que deves às pessoas do teu passado. Passas a conhecer os seus medos, anseios e sonhos. As suas fraquezas e forças e vais perceber que te deram tantas alegrias quantas tristezas.
Ou porque esperava de ti o que não podias ou querias dar. Ou porque eras tu que esperavas dele o que não queria ou podia dar. Nisto do amor não há justiça, há acaso. Constatarás que num caso não amavas quem te viu como futura mulher. Verás que noutro caso te apaixonaste por quem sofria ainda por um amor passado e obviamente não te amava.
Verás que pelo meio te apaixonaste pelo homem que será o mais próximo do amor verdadeiro, dado o carinho imenso que sentiste para lá da empolgação e permaneceu após separação — foi nestes termos que um ano depois o confessaste a alguém. Verás que foi diferente das outras separações por haver quebra de um laço com alguém que gostava genuinamente de ti e de quem tu gostavas ao ponto de te preocupares. Sensação nova e única, esta de cuidar e, como verificaste depois, ser cuidada, já que pela primeira vez sentiste a preocupação de um homem contigo, mesmo à distância e separados.
Conhecerás ainda outras duas pessoas e o significado das relações vazias, sem amor nem sequer paixão de parte a parte. Apenas preenchimento do vazio. Num caso ainda com a benesse da boa-disposição e amizade, noutra nem isso, apenas leviandade e pseudo-intelectualidade.
Se tiveres sorte, conhecerás homens que valorizam como tu o conhecimento e as ideias, e não a busca da imagem e dos adereços. São uma minoria. Não os confundas com a aparência de inteligência e sofisticação. Valoriza a discrição e a humildade. Não acredites em constantes auto-elogios directos ou subentendidos. E despreza gente arrogante. Deixa-te fascinar pela verdadeira inteligência — a associada não só à eterna curiosidade como à delicadeza. Ao amor pela vida.
Como a vida dá muitas voltas, apesar das tragédias que perceberás serem superáveis, o universo poderá presentear-te com um reencontro com o tal homem por quem havias sentido maior amor e entendimento. E ele vai trazer-te de novo um mundo de atenção, alegria e carinho. Vais dar por ti novamente apaixonada. E depois das dificuldades iniciais de um amor entre pessoas que já ganharam hábitos de solitários, constatarás surpresas boas e más.
Do lado negativo, vais perceber que a paixão se desvanece e te dispersas com leviandades e cais no teu antigo padrão de perder tempo a devanear com quem não interessa. Do lado positivo, vais perceber que tiveste a sorte imensa de teres ao lado um homem inteligente e seguro de si, que sabe lidar e desvalorizar a tua instabilidade emocional.
Vais perceber que a relação robustece à medida que cresce a tua admiração pelo homem que não deixou de ser leal por ter também tido os seus devaneios, e que o universo te educa de forma sofrida a aprenderes a ser leal. Estás na fase de aconselhares a ti mesma saborear uma relação de genuína ternura entre duas pessoas que sempre confiaram uma na outra e que riem juntas desde que se conheceram. E sabes que mereces essa felicidade.
Como na meninice e na juventude, na maturidade vais voltar a compreender que nem tudo são flores e que te deves afastar de gente que não presta. Se constatares que há quem valorize e premeie a vulgaridade, a falsidade e a desonestidade, não esperes que essas pessoas mudem de opinião, passem a ser verdadeiras e ajam com dignidade. Não o farão, por falta de carácter, ou por falta de inteligência. Vais ver que descerão cada vez mais baixo. Deixa-os seguir o caminho na companhia de quem aplaudem. Afasta-te. És tu que estás a mais, e é possível que assim seja pelos melhores motivos, isto é, por possuíres verdadeiro valor — o que gera desdém e cobiça. Tu mereces melhor. E tens o melhor.
Goza bem o resto do Sábado, agora que acabaste de escrever este post, depois de uma manhã de malandrice e risota solta a dois e do Nuno e tu terem cortado o cabelo. Agora que estão cada um no seu cantinho da casa a tratar dos próprios interesses. A vida não é perfeita, mas não tem preço acabar de ouvir o suspiro do Ritz no parapeito da janela e sentir esta paz.
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.