Desopilar

- a normalização do reles -

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Esta estadia no parque e o regresso tiveram alguns momentos bastante desagradáveis. Ontem o almoço no restaurante dentro do recinto, cuja exploração trocou de mãos este ano, foi inclassificável.

Na mesa ao nosso lado, jantavam um homem e uma mulher, ambos de feições muito rústicas. Reparei à chegada que já estavam avançados na refeição e tinham cada um o seu jarro de vinho. Percebi no final que não eram relativos nem amigos. Ele teria setenta e muitos, ela sessentas. A parte da conversa que ouvi foi toda relativa à relação dele com uma prostituta, com o vernáculo explicativo associado, a descrição do negócio dela, explorado pelo próprio pai. Ele dizia gostar dela e até percebia que se tivesse afastado por querer liberdade. Nem sempre estive atenta, o Nuno começou a falar inglês comigo e tentámos dispersar. Já fora do restaurante o Nuno contou-me que o homem também descreveu abordagens para assaltos a carros.

É a normalização do grau zero do rasca e da imundice descarada, falada em voz audível na mesa ao lado.

Dir-me-ão: não vás a restaurantes pelintras e livras-te disso. Respondo: o parque de campismo em causa é um lugar aprazível com gente normalíssima, sobretudo famílias, e os funcionários são delicados. O restaurante e a piscina são abertos ao público. Qualquer pessoa pode entrar. E quanto à imundice só muda a divisão em que jogam os peões. Ali, na mesa ao lado, estavam representadas as distritais do campeonato da pocilga humana.

O lenocínio, os furtos, os roubos e os crimes de diversa ordem são transversais na sociedade, não são privativos das distritais. A primeira divisão joga-se, por exemplo, nos corredores do poder e da comunicação social. Os restaurantes são outros, mais elegantes, os parques de campismo convertem-se em hotéis, o vernáculo converte-se em linguagem presumida e a pose substitui a exposição descarada, mas a desfaçatez é a mesma.

É a normalização do grau zero da presunção e da imundice subliminar, sussurrada em surdina nas plataformas digitais.

Para acrescentar a minha boa-disposição com a raça humana, hoje viemos de Bolt com uma miserável condutora brasileira que se negou a aceder ao pedido do Nuno para sair do carro e abrir a mala. Além de não ter a mais pequena noção do que é conduzir: fez os dezoito quilómetros com o pé sistematicamente no travão e de cada vez que olhava o GPS quase parava o carro. É a gente desta que se dá carta de condução e autoriza a operar como motorista. Depois admiram-se do número de acidentes na estrada. Pela primeira vez em vários anos de utilização das plataformas de serviço de transporte, e inúmeros motoristas imigrantes com quem quase sempre conversámos amenamente, fizemos reclamação.

Há uma diferença abissal entre o banal, a conversa sobre a vida comezinha, com as preocupações, o quotidiano e a vida doméstica de cada um, e o reles. Há uma diferença abismal entre o relato com naturalidade do que é íntimo e falar e normalizar o sórdido. O primeiro é salutar e recomendável exactamente para se perceber a diferença — é pedagogia. O que me repugna é a ascensão e a normalização do rasca. A impunidade geral. Bem sei que foram muitos séculos de privilégios e prepotência de poucos sobre muitos — conheci, aliás, quem dizia: temos muito a pagar -, mas a inversão total da pirâmide fez com que o peso da base caísse inteira no topo, agora virado de cabeça para baixo. É por essa razão que muitos acham que o mundo destrambelhou e não tem conserto. Trump é só a confirmação de que o máximo do reles pode ascender ao cargo mais destacado e o poder está entregue aos bichos.

Viremos a página.

Valeram-nos as nossas eternas prosas e cumplicidades e os agradáveis passeios dentro do parque, as conversas simpáticas com algumas pessoas que já nos vão conhecendo e um encontro casual com uma produtora e vendedora de fruta de Santa Maria da Feira. Depois de experimentarmos, trouxemos uma caixa de mirtilos bastante doces e uma caixa de mini kiwis, que não conhecia. Comem-se com casca, são bastante doces e a produtora fez muita publicidade às qualidades nutritivas do fruto. Amanhã vou pô-los na mesa do lanche com os meus pais e irmãos.

Acrescento só que o Ritz hoje parece a minha sombra. Sempre que saímos uns dias ele fica mais terno e precisado de mimo.

Pronto, já disse o que me vai na alma. Já desopilei. A ver se amanhã à noite tenho tempo para retomar os diários de fim-de-semana. Não prometo.

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As fotografias são do bungalow em que ficámos instalados e do pequeno-almoço de sexta-feira.

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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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