Diário 20 de Setembro de 2026

- do que li, sonhei e vivi -

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Leituras no Medium

Passam dois minutos das nove da noite quando me sento à mesa do computador para começar a escrever o diário de fim-de-semana. Hoje vou fazer um apanhado breve das leituras de sexta-feira. Um pouco diferente do habitual. Já sabem que os artigos a que me referir estão disponíveis no separador Activity.

Um autor apresenta-nos Károly Ferenczy, pintor húngaro nascido no século XIX, que através da arte nos ensinou a olhar o quotidiano, representando cenas banais, como mesas em jardins, árvores, pessoas a ler e, em especial, momentos fugazes de incidência da luz e os efeitos das sombras e formas.

Uma autora e pintora revela que desde criança aprecia os dias outonais (como a compreendo) e a forma como a chuva a inspira. Explica que a luz difusa dos dias cinzentos faz a vez de tela para realçar as cores. A atmosfera e as superfícies adquirem tonalidades diferentes, desde as paredes violeta-acinzentas às poças de água carvão. Além do mais, tudo é mais fluido gerando a ideia de movimento pela mistura esvaída das cores. Fiquei a imaginar o fluido de uma poça de água que reflicta o verde das árvores, o ocre vermelho da fachada de uma casa e o violeta-acinzentado do céu.

Um autor alerta para os perigos das ilusões da própria mente de quem escreve. O ponto é que interessa escrever a acção, as cenas. Só no acto a escrita avança. Fala-nos da ilusão do progresso quando se está apenas a planear e a estudar as personagens ou lugares onde decorre a cena. A ilusão de constatar que a mesma ideia já foi usada. A ilusão de que o leitor sabe o que está na cabeça do autor. A ilusão de competência e de autocensura por vontade de agradar ao público. A tese é a de que só escrevendo a acção progride e a própria originalidade surge. E que escrever bem é ser claro e arriscar.

Por fim, encontrei um post cujo inglês estranhei. O autor conta como está contente com a compra de uma objectiva Fuji Sigma. Li porque me pareceu referir os básicos técnicos da fotografia e já sabem a minha tendência para a simplicidade na aprendizagem. Fiquei a saber que o autor escreve a partir da Alemanha e, não se expressando em inglês, traduz os textos online antes de os publicar no Medium. Honestamente, revela-o e isto é assinalável.

Li também com gosto especial um poema de um autor japonês que aprecio. Tenho muito pudor em comentar versos e poesia, especialmente quando belos e delicados. Creio que os devo deixar intocados, como tudo quanto deve ser valorizado.

Sonho

Ontem contei o sonho de Sábado, hoje conto o sonho desta madrugada. Se o de ontem parecia uma parábola, o de hoje é um comando divino directo. Nem lhe chamo sinal, porque assarapantou-me de tal modo que era mesmo uma espécie de ordem, de abanão.

Bem sei que sou atreita aos esoterismos e por isso estarei mais susceptível ou, na duvidosa linguagem das bruxas, estou num estágio espiritual mais desenvolvido. Num tom mais escorreito, tenho fases de tendência para o paranormal. O certo é que estava a dormir e vi em sonhos um relógio digital que indicava a meia-noite e vinte e sofri um abalo forte de noção de tempo, de finitude.

Só em criança, numa noite por volta dos sete ou oito anos, senti coisa semelhante e na altura com a ideia de morte ou fim do universo. Lembro-me de sentir o vácuo, a ausência de ser ou existência e de ter ficado perplexa — é evidente que hoje consigo explicar o que na altura era incapaz de verbalizar assim. Na altura, como já contei aqui, fui perguntar à minha mãe se o mundo acabava; respondeu-me: sim, para cada um, quando morre.

Desta vez a percepção foi diferente. Era como se um comando urgente me alertasse para a existência do tempo e da minha própria finitude. Se querem saber a verdade, é coisa que não me apoquenta, como se tivesse um amparo de eternidade. Nunca percebi as pessoas que acham tudo perda de tempo, inclusive dormir, por terem ânsia de aproveitar todos os instantes. Sempre considerei isso viver sufocado sem qualquer sentido.

Todavia, o sonho foi brusco, como uma sacudidela bruta a indicar-me que já tinha começado a contar o meu tempo e já tinham passado vinte minutos sem que me apercebesse. Do género: a partir de agora é a contar. Estremeci, acordei com a voz do Nuno a dizer-me: Isabel, está tudo bem, eu estou aqui. O que dizemos sempre um ao outro quando temos sonhos perturbadores. Olhei para o relógio e era meia-noite e vinte.

Dia-a-dia

A semana passada foi particularmente exigente e só com a soneca de duas horas e meia de sexta-feira à noite repus a serenidade. Como é hábito não esmiúço as razões concretas de apuros e problemas concretos. Conto o dizível.

De madrugada escrevi o post anterior e tratei dos meus projectos caseiros. Fiz a lista de compras para mudar o segundo quarto. Na quinta-feira a Remar já veio buscar a cama e a escrivaninha. O quarto está pronto para a mudança.

Hoje acordei constipada e de manhã fomos ao IKEA. Comprámos duas estantes, um pequeno sofá-cama, duas almofadas e um candeeiro de mesa amarelo mostarda a imitar os candeeiros a petróleo. Serão entregues e montados nos últimos dias do mês.

Ontem fiz uma valente vergonha. Num dia qualquer da semana passada o Nuno ligou-me a dizer que tinha falado com a F. e que tinha ficado alinhavado um encontro. Nas correrias da hora de almoço liguei à F. e ficou combinado ela e o filho K. virem cá a casa tomar café às quatro e meia de ontem. Combinei e nunca mais me lembrei. Varreu-se completamente.

Estávamos a dormir quando fomos acordados pelas chamadas da F. e do K. Uma vergonha. Lá tomámos café com salame de chocolate e umas miniaturas trazidas pela F. Conversámos bastante e o K. convidou-nos para jantar numa hamburgueria de Matosinhos — uma rede dedicada à F1 e ao Ayrton Sena. A decorar a parede estava um kart John Player Special. Brincámos com o K., um amor de rapaz de 33 anos, que tem opiniões políticas e gostos desportivos em tudo diferentes dos meus.

No último mês e meio esqueci-me duas vezes de consultas no dentista. Estou bonita, estou. É a demência precoce.

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Obrigada por terem lido. Boa semana.

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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