Diário 8 de Novembro de 2026

- do investimento alemão em Portugal ao refogado, passando pela felicidade -

*

Leituras de jornais

Não perdi muito tempo em leituras nos jornais. Li as parangonas do Público e detive-me num artigo acerca do investimento alemão em Portugal. Estará Portugal a tornar-se num centro de actividade industrial, tecnológica e de serviços para as empresas alemãs? Deixamos de ser apenas um destino turístico ou um país com custos de produção competitivos?

Lendo que as 750 empresas de capital alemão geram 85 mil postos de trabalho directos no nosso país, fui pesquisar quantos as empresas alemãs criaram na Roménia: 250 mil postos de trabalho. Não me perguntem a razão por ter escolhido a Roménia; decorre de uma curiosidade suscitada numa conversa profissional no mês passado.

De qualquer modo, fiquei a saber no jornal Público que além das instaladas Volkswagen Autoeuropa, Bosch, BMW, Mercedes-Benz e Siemens, o investimento alemão aumenta em terras lusas. Acrescem a aquisição de 44,9% da TAP pela Lufthansa, com previsão de aquisição dos restantes 50,9% e o investimento numa fábrica de manutenção aeronáutica em Santa Maria da Feira, numa escola de pilotos em Tancos e projectos de serviços e inovação em Aveiro.

Entre projectos e inaugurações fiquei a saber que há diversos investimentos na actividade industrial: produção de equipamentos, metalomecânica, mecatrónica e tecnologias associadas à energia, em Vila Nova de Gaia, Albergaria-a-Velha e Figueira da Foz.

O investimento alemão abrange a indústria automóvel, a aeronáutica, a metalomecânica, as tecnologias, a engenharia e os serviços. A tendência é de diversificação para actividades de maior valor.

Pensamentos

Esta semana não estou para reflexões. Daqui a quinze dias talvez volte a maçar quem me lê com alguma meditação sensaborona.

Dia-a-dia

Que posso contar? O final de tarde da quinta-feira passado no auditório do Museu do Futebol Clube do Porto. O motivo inicial estava bem afastado das lides desportivas, se bem que a conversa a que assisti acabou por recair no mundo da psicologia no desporto. O tema das Conversas ao fim da tarde — é esse o nome do projecto lançado por profissionais de saúde para a promoção da saúde mental e combate ao estigma associado — era a Felicidade.

Começou bem com uma sessão de yoga do riso. O auditório em peso fez figuras tristes — desinibimo-nos atrás de uma bola imaginária, com palmas, exercícios e risadas destemperadas -, o que é bom sinal. Tive de salvar o Nuno de ser puxado para um comboio de riso, não fosse ele tropeçar e cair nas voltas ao auditório. Mais uma vez não repararam que o Nuno é cego.

Seguiu-se uma conversa moderada por um jornalista, assessor de imprensa do FCP, sendo os convidados a psicóloga das camadas juvenis do clube e um escritor. Foi uma conversa simpática apesar de me parecer que passou uma tangente ao tema Felicidade sem o tocar verdadeiramente para lá dos clichés das competências sociais. A menos que consideremos que ser feliz é jogar à bola ou falar dos assuntos ligados à psicologia do desporto. Por mais exemplar possa ser a camaradagem no desporto, não deixa de ser um nicho. Claro que apreciei os bons exemplos de generosidade e de bom carácter. Mas era preciso alargá-los a vidas mais reais, menos populares.

Gostei muitíssimo do texto escrito em conjunto por doentes. Esse sim falava de Felicidade e da dificuldade em atingi-la. E valorizo muito o papel das médicas e enfermeiras que dão corpo e trabalho ao projecto. Foram duas horas bem passadas. O Nuno saiu de lá a dizer que ficou com boa impressão do meu clube e intimou-me para numa próxima ida a Lisboa irmos ao estádio de Alvalade para ficarmos empatados. Não lhe disse; ele já nem se lembra de que festejou um campeonato do FCP às voltas ao estádio do Dragão. E, megera, não tenciono desempatar.

No final jantámos no Barcarola e à saída do Alameda Shopping sucedeu algo caricato. Fomos para a praça de táxis, mas estava vazia e não se avistava nenhum a chegar. Como outras pessoas, chamei um Bolt. Reparei que estava um homem nervoso, também à espera, que encetou conversa já depois de eu ter accionado a aplicação. Falava com o timbre afectado lisboeta. Explicou que tinha saído de um hotel próximo sem telemóvel para vir fazer uma compra e que não sabia regressar. Perdera-se. Pensei: se fosse táxi, podia deixá-lo no Hotel, mas a Bolt tem o percurso fixado. Não o ajudei, como devia. Não me lembrei de cancelar a viagem e chamar outro. Sugeri que fosse pedir indicações ao segurança do centro comercial, o que ele fez. Depois expliquei ao Nuno que o homem estava vestido de saia e temi que assim vestido não tivesse grande ajuda.

O motorista da Bolt era originário de Quintanilha, aldeia transmontana fronteiriça. Por uma confusão minha com a música que ouvia — pareceu-me marroquina -, mostrou-nos à saída fotografias e vídeos de Saïdia, com a filha, mulher e pais. A filha, uma pequenita de seis anos, a dançar ao som de músicas berberes.

E como a descrição da saída de quinta-feira vai longa, fico-me por aqui. Acrescento apenas que a meio da próxima semana já devo regressar ao trabalho — não tenciono gozar os trinta dias de baixa médica com que fui contemplada — e hoje almoçamos um prato que faço muito ao fim-de-semana: grão-de-bico com massa e carne de porco. Deixo as fotografias da confecção, que provam um acidente: deixei queimar o refogado já com a carne.

*

Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

0