Serão descontraído

- castanhas, Miguel Torga, castros e tratados de paz -

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Descanso. Durmo eternidades e descanso. Acordo perto da hora de jantar e cozo quinze castanhas em água com sal e pau de canela. Sirvo-as para comermos acompanhadas de meio copo de vinho tinto para o Nuno e um dedo para mim. Oito castanhas para o Nuno, sete para mim. Afinal ele é maior. Só por isso, senão seriam sete e meia para cada um. Cortadas milimetricamente. Comento que regredimos em termos de civilização com a introdução da batata; cada vez gosto mais de castanhas.

Claro que não temos fome para o jantar que se seguiria nesta cronologia destrambelhada de dias de excepcional preguiça, longe da azáfama das rotinas dos dias de trabalho. Uma hora depois pergunto: faço tostas mistas com chá? Sinto-o torcer o nariz.

Praga. Não quero fazer nada de mais complicado. Sento-me à mesa do computador nas leituras do Medium e lembro-me das ofertas da minha sogra. Proponho: vou comer a tosta mista e beber chá, queres que corte pedacinhos de paio e queijo de ovelha para ti? Quero, ouço. Assunto arrumado.

Ceámos à moda antiga ou jantámos à moderna. Não sei. Na mesa ao falar com o gato perturbo a audição sagrada do Nuno Rogeiro. O lorde rabuja. Mando-o à fava e venho para o computador. Leio pela segunda vez um artigo a versar dez livros sobre a busca de vida interior ou de um sentido espiritual no contexto actual do materialismo oco. Gosto mais da longa introdução do que da apresentação dos livros que me parece enviesada.

A porta do meu escritório está fechada e o Nuno também encostou a dele. Sinal de amuo. Pego na Antologia Poética de Miguel Torga, quase respeitando a progressão da vida. Leio mais do que uma vez o poema da página do marcador. À primeira sinto-me uma ignorante, à segunda recorro à antiga instrução católica para perceber as alusões cristãs dos versos. Consigo compreender e fico mais tranquila. Penso: é uma questão de esforço de memória. Numa traição salto as páginas e vou até ao ano de 1960 para uma associação da solidão à liberdade com a Serra da Estrela em pano de fundo. Sinto-me em casa.

E estou. Deitada no sofá a ler com má luz a imitar os antigos candeeiros a petróleo. Nesta mornice lembro-me do Vôo pela História da Arte e penso em começar a procurar as imagens para juntar ao artigo que vou publicar daqui a 12 dias. Fico preguiçosa e outra ideia assalta-me: os castros são da Idade do Ferro, porque não incluí-los? E sento-me à mesa, a trabalhar por gosto.

Termino rápido. No fim vou à cozinha beber sumo e vejo que o Nuno já lavou a loiça. Em paz comigo por terminar o texto para o terceiro artigo da saga da História da Arte, sinto que é tempo de pazes. Vou até ao nosso quarto e digo em tom de gracejo uma qualquer palermice bruta. O Nuno, que assiste às esmiuçadas eleições intercalares norte-americanas, anuncia que fez a barba. Está com a pele macia. Revezamos a iniciativa de acabar com os esfriamentos. Mas há contabilidade. Quando volto ao meu escritório berro que já fui lá duas vezes e que ele ainda não veio cá dar-me um beijinho.

Ele vem, ri-se, arrepia-me na nuca. E cumpre-se o mundo. Voltou a ser redondo, sem arestas, enquanto o Ritz fareja a xícara de chá pousada na mesa do computador.

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