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Se há coisa que considero de gozo são as receitas culinárias produzidas nas redes sociais. Do género: fácil, faça em dez minutos. Seguidas de uma descrição complicadíssima de dezassete ingredientes e dezanove passos de confecção e, claro, não podia deixar de ser, um punhado generoso de adjectivos a autoelogiar a obra-prima.
Por isso me agradou tanto o singelo salame de chocolate da Maria Ribeiro. De facto, fácil de fazer. Feito por quem é notório saber o que se propõe fazer, desde cozinhar a escrever. Assim como delirei com a arte da receita das raivas da Esquisita — ainda hei-de procurar o post para a imitar. De modo declarado; gosto pouco do hábito de surripiar para fazer figura à custa dos demais.
Prefiro o bom e a consideração verdadeira pelo valor às artimanhas próprias das trocas de favor para cativar clientela e impingir o rasca presumido: à bandeja cheia de elogios oportunistas pedinchões de elogio e promoção.
Ontem à noite estava no sofá a congeminar com os meus botões que tinha de abrandar no sufoco das obrigações autoimpostas e relaxar. Além de mais pensei que queria comer um doce e não tinha nada em casa. Resolvi imitar a Maria e fazer o salame de chocolate cujos três ingredientes já tinha comprado há duas semanas: tablete de chocolate Pantagruel, natas e bolachas maria. E fiz o dito malfeitão, rugoso, defeituoso. E fico-me por aqui na adjectivação. Como não consigo comer doces de manhã ainda não experimentei. Vou cortar duas fatias à hora do nosso jantar. Mas prometo: quando provar não vou dizer que sou a melhor doceira da minha rua e arredores, que amo cozinhar ou que o faço tudo com muito amor. Ao próximo, claro está, que eu cá sou o pináculo do altruísmo. O mundo está cheio de românticas e virtuosos. Nesta casa, pelo contrário, as obras-primas saem à dona, são toscas e não têm pretensões a seduzir deslumbrados, todavia sabem reconhecer o trabalho honesto e o valor onde ele existe.
Aqui fica a obra-prima.



Nota para os leitores do Medium. A Maria Ribeiro e a Esquisita são autoras que podem acompanhar na plataforma portuguesa Blix.