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Noutras circunstâncias talvez abrisse a habitual agenda com a imagem do cérebro azul fluorescente, mas gosto de fazer quando consigo elencar vários pensamentos ocorridos nos dias de trabalho tão cheios que não permitem uma aberta para registar as ideias. Não é o caso hoje, já estou cansada. Não tanto quanto ontem ao cair redonda na cama por volta das onze para uma noite belissimamente dormida até às quase oito horas de hoje.
Dou por mim a regozijar com conquistas como resolver e cumprir. Tudo quanto seja passível de ser resolvido e cumprido sabe a pequeno troféu. O corpo está exaurido, mas consegui depois de chegar da ida a Almada, organizar a casa, desfazer a mala, tratar das roupas da semana e escrever o diário. Vitória. Extenuada caí na cama e dormi mais de oito horas, acordei com genica e bem-disposta. Dupla vitória. O ar de hoje estava rarefeito e a brisa leve e fresca, a agradar ao corpo. Tripla vitória.
Nos momentos em que as tarefas me permitiram abri a edição do jornal que mais tenho lido e tive a orelha direita ocupada com um podcast sobre a crise nos media e à noite li e vi as notícias superficialmente. Antes de desligar a televisão ouvi um comentário aos últimos desenvolvimentos do conflito entre a Administração Trump e o Irão, a gestão do estreito de Ormuz, e a crise no Grupo Volkswagen e a pressão oriental sobre o sector europeu da indústria automóvel. Tentei abstrair do ping-pong irresponsável em matéria de política nacional, em especial do caso da correcção dos exames nacionais. Registo apenas o apaziguamento em vários órgãos de comunicação social do tom permanentemente acusatório das incompetências dos anteriores governos de esquerda. De repente os sábios escrutinadores de outrora — tão atreitos a condenações sumárias — estão muito compreensivos. Nestas matérias não encontro vitórias. Continuo atenta aos jornais, como sempre estive, em menor ou maior grau. Nos próximos dias se as condições atmosféricas o permitirem, gostaria de escrever sobre os media.
Almocei com a minha mãe perto do local de trabalho e fomos à Bertrand com a ideia de eu comprar um livro de presente de aniversário atrasado da minha cunhada C., que regressou hoje ao trabalho após dois anos de ausência, para tratamento de um cancro. Para não correr riscos de não acertar, liguei à minha sobrinha a pedir que me enviasse a lista de desejos da Wook feita pela mãe. Anda a ler policiais, e escolhi um do autor islandês Ragnar Jónasson. Ao entregar não tive dúvidas pelo sorriso luminoso que gostou e assim dá um gosto danado oferecer um livro. Já a minha mãe rabujou imenso por eu insistir em dar-lhe um livro de quebra-cabeças que percebi que ia comprar. Ralhou-me como ralha sempre que tento dar um presente, mas à noite já tinha feito três quebra-cabeças.
Para mim esmerei-me em escolher literatura com poucas páginas. Trouxe a fábula O Organista, de Lídia Jorge. Depois de preparar a salada de lulas e de nos sentarmos à mesa às oito e meia, li-a ao Nuno ao jantar. Baixei o som da televisão, combinámos que veríamos um noticiário às nove, e li num punhado de minutos a bem concebida fábula da criação do universo. Já não é a primeira vez que noto em Lídia Jorge o cunho de professora no sentido mais nobre da profissão: de simples testemunho de conhecimento. Em nada a diminui, antes pelo contrário. Só nestes dois últimos parágrafos já tenho mais três vitórias.
Já cá cantam seis vitórias inventariadas num só dia. E teria mais se tivesse tempo e pudesse continuar a escrever. Mas avizinha-se um dia muito trabalhoso e não tarda nada preciso dormir.
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Até amanhã. Durmam bem.
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.