Torrente de palavras







Nestas duas últimas semanas tenho estado na empresa a fazer tarefas de duas num momento já por si mais trabalhoso. Resultado: não sobra tempo para escrever de dia. E em casa outras questões têm-se levantado tirando-me a disponibilidade. Em todo o tempo enquanto trabalho ou disperso em casa, catadupas de pensamentos ocorrem; dariam para muitos posts com as habituais insignificâncias. São como um comboio que passa veloz. Não sei quantos apontamentos consegui reter para registar este fim-de-semana na entrada que agora começo e deixarei suspensa até conclusão. Deitei-me ontem às dez da noite, acordei hoje antes das cinco. Estivemos na converseta até ao momento em que decidi abrir o computador.


Prevejo que venha por aí uma comprida e aborrecidíssima mexerufada de pensamentos.


Até logo.








Dois posts da saga Agenda moralista


Como todos em muitas ocasiões martelo as acções, isto é, forço a escrita. Ao alinhar os 12 tópicos da série Agenda moralista tinha em mente situações determinadas que são redutoras. Agora, ao querer desenvolvê-los, vejo-me na obrigação de contornar o tema raiz em cada um.


Enfim, serei batoteira até morrer, com a particularidade de o assumir. No início da semana, sem tempo para escrever, imaginei o teor de um dos tópicos. Tentarei ser minimamente fiel ao que efabulei ainda com muitas pontas soltas a criar. Ainda não determinei em que item o encaixarei. Os temas centrais serão a sugestão enviesada e a claustrofobia. Virá como post autónomo. Por agora continuo a mexerufada.


Numa segunda história tentarei explorar muito brevemente os equívocos. O facto é que ainda não sei como fazê-lo, nem sequer se é aconselhável. O bom senso costuma recomendar que sejamos menos explicativos, deixando que as nossas acções e o tempo falem por si. Todavia, há vidas que passam em vão neste pressuposto, sem nunca serem entendidas. Por superficialidade dos julgamentos alheios.


Há muitos anos o meu pai disse-me a propósito de qualquer coisa sem importância que eu era preciosa. Não no sentido de valiosa, mas de minuciosa. De aclarar tudo muito. Retive aquilo. Nunca tomo um elogio como inteira verdade, nem uma crítica (negativa) como condenação perpéctua. Fico a ruminar no que dizem e disseco às vezes com profundidade, outras com ligeireza. O grau de densidade ou leviandade depende muito da minha capacidade de compreensão do interlocutor e das suas intenções. A comunicação é um universo de possibilidades para quem pensa além da superfície. Poderão pensar: desperdício de tempo. Cada um gasta-o como entende. Há quem prefira as sequências de intrigas dos romances históricos ou catadupas de séries televisivas ou lençóis de comentários de trica política, que a mim entediam de morte.


Tudo isto a propósito de ser explicativa (espero que nunca no sentido de dar sentenças, o que tomo como defeito grave) e do carácter benigno ou maligno da franqueza e transparência, tantas vezes elogiadas à superfície, mas no fundo tidas por ingenuidade ou falta de inteligência para a vida. Ou pior, temidas como falta de noção da realidade e do ridículo. O que gera isolamento e incompreensão.







Entre o remoer e o passar adiante


Peixe fora do cardume é um modo de estar. Salvo excepções foi a forma como me senti e estou genuinamente grata por a vida me ter assinalado como dispensável. A força do mundo interior começou a crescer precisamente nessa incompreensão, e foi-me fazendo contente comigo mesma. Alegre com a própria companhia, realizada com as conquistas que mais ninguém vê ou reconhece. Li algures e faz todo o sentido: a dor é uma óptima professora. Quando nos falta a compreensão, aprendemos a supri-la. Se tudo nos é dado de forma fácil e carpimos de modo leviano por mero efeito estilístico para fazer conversa balofa em grupo, sempre bem apoiados e acarinhados, estagnamos na frivolidade. Densidade, esforço, dor e solidão performativos não me comovem. Talvez por isso passe adiante com facilidade.


Nada disto obsta ao carácter benigno da compreensão. Porém, ela quer-se genuína, entregue sem trocas de favor interesseiras. Sem oportunismos e injustiças. O amor e a amizade não se querem fáceis e vulgares, antes autênticos, delicados e dedicados. Não o sendo, passam sem remorso nem saudade a passado. Como lições aprendidas.







As conversas no escritório


Os pais da E., ambos a aproximar-se dos noventa, têm andado doentes. O pai teve um acidente vascular cerebral, estando hospitalizado pelo que a E. não tem trabalhado. Há muitos anos a sua vida extra trabalho tem sido cuidar da saúde dos pais, com quem vive. O Z. e eu temos ligado e trocado mensagens com ela para ver se a desanuviamos. E fico a lembrar-me como há anos a minha relação com a E. era belicosa, com responsabilidades partilhadas, mas muito minha por impaciência e agressividade. A vida dá muitas voltas, às vezes para melhor.


Estou com mais trabalho. O que admito, às vezes, agrada-me. Regressar aos momentos de sufoco de tempo para terminar todas as tarefas. Coisa de sortuda que vai tendo no último par de anos uma vida profissional mais serena. Temo dizer isto. Sinto sempre que quando me gabo de sorte nalgum aspecto da vida, o Universo presenteia-me com um volte-face trazendo problemas exactamente nessa área.


Ontem o Z. estava contente com os resultados profissionais e por ter feito compras: um roupão e uma máquina aparadora da barba. Tem andado feliz e percebi ontem porquê. Reatou com uma antiga namorada, de quem gosta, como já me tinha apercebido há um ano ou dois. O amor está no ar e é sempre bonito de assistir. Bem merece paz depois de anos a trabalhar como um desalmado, já que até há uns meses teve um segundo emprego. Coisa muito portuguesa, isto de ter de arranjar dois trabalhos para poder viver.


Tudo muda. Durante anos reservei a minha vida privada dos colegas de trabalho. Nos últimos, vamos contando uns aos outros apontamentos soltos e vamo-nos conhecendo, o que é muito mais saudável.


É curioso como quando se trabalha vinte e tal anos num mesmo sítio os colegas passam a testemunhos, mesmo os que nos conhecem mal por não falarmos de nós próprios. Recordo como, há quase vinte e dois anos, tive um ataque de choro quando um amigo comum me ligou a dizer que o Nuno estava à morte em coma por ter tido um acidente de carro no dia anterior. A A. veio-me reconfortar e disse-lhe apenas que um amigo tinha tido um desastre de carro. Nunca mais toquei no assunto com ninguém na empresa. Nada sabiam de mim quanto ao Nuno ou à maior parte de assuntos da vida pessoal. Nunca souberam das relações afectivas ao longo dos anos em que trabalhámos juntos. As pessoas com quem passo oito horas por dia, cinco dias por semana há 23 anos com interrupção de dois. De resto, como não falava no seio familiar. Mudou muito nos últimos anos. Com maior abertura minha, a relação com os colegas ficou mais solta e agradável.







A vizinha, as infiltrações e a mudança de apartamento


Anteontem a vizinha ligou a dizer que tem água no tecto da marquise. Acha que devo ter um cano roto. Pus a hipótese de ser da fachada. Temos andado a trocar telefonemas e mensagens. Desta vez, antes de accionar o seguro, decidi que teria de chamar o responsável pela empresa administradora de condomínio e o meu canalizador. O primeiro para ver com o construtor os defeitos da obra da fachada, o segundo para averiguar se alguma coisa está mal com os canos de entrada da água e de esgoto da máquina de lavar a roupa.


Quando me ligou na quinta-feira, fiquei com a noite estragada, e para a compor nada melhor do que ver casas. Vi logo um apartamento à venda numa zona que gosto e idealizei com o Nuno possível troca de casa. Ele atura-me os devaneios, eu afasto a má-disposição. São formas de lidar com os problemas. Claro que como escolhi bem o apartamento, quando ontem liguei para a imobiliária, disseram-me que já estava com contrato promessa agendado, a aguardar avaliação e aprovação do crédito habitação. Sonhadora, devaneei: boa, o crédito habitação do potencial comprador não sai, ganhamos tempo, resolvemos a questão da água e volto a ligar daqui a umas semanas. Já com os pés na terra pensei: trata é de resolver os problemas da tua casa; a vida pesa a todos e há sempre chatices a enfrentar.


Ontem percebi que era melhor resolver as questões com a vizinha por chamada telefónica do que por mensagens. A escrita de uma e outra é mais ríspida e dá azo a más interpretações. Ao passo que o tom de voz cordato e a compreensão ajudam a que as coisas se resolvam pelo melhor. Assim espero. Ela tem-se mostrado impecável e creio que também tenho sido correcta.


No Verão de 2024, ao tempo da obra do exterior, os próprios trabalhadores avisaram-me que o problema das infiltrações voltaria a ocorrer se chovesse muito.


Bem sei que dias depois de muitos portugueses viverem um drama sério nas intempéries, com prejuízos avultados e mesmo perda de vida, tudo isto parece insignificante. Mas cada um testemunha o que vive e não a vida dos outros, a menos que queira chamar a atenção para si à custa do sofrimento alheio.










 


O almoço e jantar de sexta-feira, as conversas envolventes


Ontem sexta-feira almocei sozinha perto do escritório. Ao contrário do habitual, pedi um caldo verde, um rissol de carne e uma maçã assada. Fiquei cliente do menu, gasto menos dinheiro e sempre não faço as vezes de bulímica como vem sendo habitual. Lembrei-me dos primeiros anos de trabalho em bancos, quando almoçava em grupo. Por um lado era agradável a companhia, por outro, desanimador, já que a conversa entre colegas tendia a recair sobre problemas de trabalho e não havia o desejável corte. Mais tarde comecei a almoçar em casa, e só muito pontualmente com colegas ou amigos. Fazer a quebra do dia de trabalho foi uma questão de sanidade.


Antes de me deliciar com a maçã assada com pau de canela e regada com vinho do Porto tirei uma fotografia para enviar à minha mãe, que me tinha dito ter comido uma neste café no início da semana. O senhor A. veio perguntar para onde era a imagem. Expliquei e tentou logo convencer-me a levar outra maçã à mãezinha. Na mesa do lado um angolano comia uma sopa de legumes e um pão. Tinha nas unhas verniz translúcido e mexia com os polegares no telemóvel como há quase trinta anos eu invejava nas minhas primas mais novas. Continuo a dedilhar com um indicador ao contrário de gente moderníssima. Muito ágeis, alguns mais velhos. Mas o rapaz era novo, tinha uma cara simpática e fez uma chamada a um amigo.


Comia a sobremesa a lembrar-me das maçãs assadas do fogão a lenha da Glória em Valinhas, ouvia a conversa com cantado angolano, para cúmulo, entrecortada com a tagarelice da mesa da frente entre especialistas em questões políticas do ornamento do território. Estava ali representado o meu mundo, o que inspira a escrita: um angolano bonito preocupado com o comezinho, no caso a correspondência da caixa de correio, uma maçã assada familiar e o mundo da sapiência infusa, no caso acerca da falta de autonomia de gestão e financeira dos serviços públicos regionais (com razões atendíveis que o centralismo palerma nunca aprendeu a perceber).


À noite fui com o Nuno ao restaurante aqui da rua, que mudou há semanas de gerência. Era de uma família transmontana, agora de um casal espanhol. Chegámos muito cedo e pedimos cozido. Tentam manter alguns pratos da gerência anterior, mas qualquer semelhança é pura coincidência. Na mesa em frente o insólito. Desde que entrámos o som preponderante era o tom de voz grave e alto e gargalhadas da mulher sentada nessa mesa, acompanhada de um homem que pela conversa não seria próximo, ou não seria próximo há muito tempo.


Brinquei com o Nuno, dizendo que bem sabia que ele estava encantado com os caragos e merdas ditos de modo sonoro seguidos de gargalhadas. A meio do jantar refreei-me. Afinal estava a fazer julgamentos precipitados. Estava feliz, a senhora, e se estava bem consigo própria, eu nada tinha que estar a ser ressabiada, concluí.


Mais uma vez de modo precipitado. Mais para o final comecei a prestar atenção ao teor da conversa. E percebi que estava a descrever situações gravíssimas de ameaças e agressões de um sujeito, não percebi se marido, namorado, pai, irmão ou quejante a uma familiar ou conhecida sua. O que a fazia rir mais era a própria coragem: ela estava cheia de medo que ele a atirasse pelas escadas outra vez, mas eu disse-lhe para não ter medo. Pega nas tuas coisas para meter na mala do carro. Ele (outra pessoa, talvez o condutor do carro) ficou cheio de medo quando viu o machado, mas eu disse: não tenhas medo que ele não faz mal a ninguém. Ele (o agressor) bêbado de todo ia contra os vidros, contra tudo. Tudo isto contado com sucessivas e sonoras gargalhadas.


Se bem percebi tudo aquilo se resumia a uma forma primária e infantil de reagir à miséria e violência humana, de uma mulher que terá ajudado, com efectiva coragem e aparente inconsciência, outra a sair de uma situação horrível e que o contava a alguém que conhece mal.


Fomos informados pelo dono do restaurante que no dia 14 terão uma cantante para animar a noite de namorados. Pagámos a conta, trouxemos o resto para almoço de hoje. E viemos dormir.







Um sopro de normalidade


Como compreender a moral de um dia banal? Se começo a manhã a falar com um iraniano completamente desesperado, psíquica ou emocionalmente desestabilizado por razões afectivas (só no mundo por a mulher ter saído de casa, e sem família nem amigos) e financeiras (os Invernos são madrastos para quem vive do turismo), e se tropeço num advogado deslumbrado com consumo de bens de luxo, desfasado da realidade e possivelmente trapaceiro, ao encontrar alguém são, como uma senhora cumpridora, bem educada e simpática dou graças a Deus.


Neste caso, o papel positivo recaiu sobre a mulher, mas é aleatório. Há dias em que a insanidade vem do lado feminino e a temperança do masculino. Tudo quanto quero expressar: é fundamental mantermo-nos com os pés no chão e respeitadores. A vida é muito frágil.








Posfácio


Quase nada do que escrevi nos parágrafos anteriores foi o que pensei nas últimas duas semanas e que tencionava registar. Escapuliu-se. Não consegui lembrar-me. Tudo isto flui ao sabor do momento. Acabou por ficar diário dos últimos dois dias. Da forma que sempre fiz, descrevendo a minha vida e a dos que estão à volta, sem sobrancerias e efeitos literários especiais para dar credibilidade.




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