Seis mulheres e o serviço público

- trabalho invisível -

Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.

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Não sei fazer comentário nos cânones tidos por desejáveis pelo pensamento dominante no espaço público. Limito-me ao que os iluminados chamam conversa de café. Quero falar-vos de mulheres que admiro. Pode parecer um panegírico, atento o facto de omitir os defeitos que também conheço nas profissionais de quem vou falar.

Quis realçar o que raramente vejo destacado num mundo cheio de fogo-de-artifício a ocupar o lugar do valor. E como é habitual omito a identidade das pessoas que elogio. Não precisam de escaparate; o seu mérito existe por si só. Valem por si mesmas.

Serviço social

A mais velha não terá ainda sessenta anos, a mais nova ronda os quarenta. Dirigem duas casas de acolhimento de adolescentes e crianças. Vivem para o trabalho e para as crianças. Não têm horário das nove às cinco. Depois de toda a semana de trabalho, à noite e aos fins-semana fazem de motorista e de bombeiras de qualquer necessidade das casas pelas quais são responsáveis. É difícil distinguir a relação profissional da maternal: os jovens são tratados como filhos que se levam aos treinos de futebol, de natação ou ao médico. A qualquer hora da semana ou fim-de-semana.

Vêem chegar as crianças em más condições, vítimas de maus-tratos, abusos ou negligência. Lidam com problemas mentais. No caso dos adolescentes com o consumo de drogas. Lidam com indisciplina e agressividade. Quem as vê na relação com os menores e jovens e a forma como tratam dos seus problemas compreende-as como mães, mais do que como directoras de casas de acolhimento.

Ninguém dirá que lhes sobra tempo para administrar, representar e gerir as instituições que dirigem, desde as idas aos tribunais, ao financiamento passando pelo pacote de arroz ou detergente da roupa que se acabam.

Não sobra tempo para debates esmiuçados na comunicação social e redes digitais sobre pobreza, violência doméstica, maus-tratos infantis, política e apoios sociais, adopção e tantas outras matérias em que são experts. Estão onde são precisas, a fazer o que é preciso e com o foco nos mais desprotegidos.

Saúde

A mais velha tem sessenta e cinco anos, a mais nova rondará os quarenta e cinco. São psiquiatras em hospitais públicos. Atendem os pacientes com atenção, ouvindo-os. Não se dizem peritas em farmacologia ou em terapia nem rotulam os doentes ao primeiro contacto com uma etiqueta chapa cinco da moda dos círculos pseudo-académicos e pseudo-científicos para justificar a presença e salário ao fim do mês.

Não se portam como mercenárias da saúde. As horas extra que fazem justificam-se pelo efectivo excesso de trabalho e não pela avidez de mais vencimento.

Reparam nos traços de personalidade e comportamentos dos pacientes, interessam-se, procuram saber o seu percurso, não por curiosidade leviana, mas por ser relevante para o diagnóstico e o ajuste do tratamento. Não estão esclerosadas no saber de catálogo para distribuírem respostas prontas e tratamentos errados por falta de discernimento. Nem entram em experimentalismos perigosos para satisfazer curiosidades quanto à eficácia das substâncias químicas medicinais. Isto é, não usam os doentes de cobaias sem sequer querer ouvi-los ou prestar a menor atenção.

Não teorizam sobre psicoterapia, não romantizam, nem fantasiam. Olham para os pacientes como eles são: doentes a precisar de apoio, de ajuda médica e farmacológica segura e criteriosa. Praticam medicina, não teorias vãs.

Ensino

A mais velha já se reformou, a mais nova rondará os cinquenta anos. Trabalham com estudantes. A educação é a vocação das suas vidas. Fazem o que gostam e empenham-se em fazer bem.

Parte dos tempos livres são passados a pensar na forma de cativar os alunos: de os fazer interessar pelo plano de aula ou estudo. Procuram conseguir fazer chegar o conhecimento da forma mais racional e apelativa possível para que aprendam.

As horas de trabalho fora das salas de aula ou de estudo são passadas a pesquisar e a criar material de estudo, fichas de trabalho. Ou a corrigir as já realizadas com cuidado e critério, tentando perceber as falhas e tirando conclusões dos padrões de erros e acertos para melhorar as próximas aulas e fichas de trabalho. Um labor que exige empenho contínuo e foco nos alunos.

Dedicam-se a tentar enriquecer a visão do mundo dos aprendizes, saindo quando necessário do programa do sistema nacional de ensino. Procuram preparar gente curiosa e com pensamento crítico. Ajudam a formar adultos mais preparados e com abertura de espírito.

Não creio que nenhuma das duas tenha perdido muito tempo das suas vidas a reivindicar melhores condições de trabalho e dignificação da carreira. De tão ocupadas estão a trabalhar, não sobra tempo. A dignidade está na forma como trabalham a bem dos estudantes, da educação e do conhecimento.

Reconhecer o mérito individual e o sentido de responsabilidade destas seis mulheres não diminui a questão das condições de trabalho de quem serve a sociedade, mas hierarquiza prioridades e sobretudo homenageia quem longe dos holofotes trabalha com enorme dedicação.

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