Protejam a vossa certeza e iluminação, os próximos parágrafos são feitos de hesitações e banalidades

As mochilas


Nos últimos dias tenho reparado na profusão de mochilas às costas dos transeuntes. Talvez o aumento resulte dos dias soalheiros. Os homens deixaram de poder contar com os bolsos dos casacos. Mas é generalizado, notei-as aos ombros de mulheres e homens. E com volume que indica estarem carregadas. Pergunto-me: o que transportam? Trajes e apetrechos para a prática de algum desporto? O almoço? Livros? Computadores portáteis? Se fosse uma dondoca, idealizaria vestidinhos sedosos dobrados com esmero, maquilhagem variada ou pares de sapatos com salto agulha. Se fosse uma impostora ou ladra, logo imaginaria objectos de valor furtados. No imaginário antigo: jóias e notas de euro. Nas fantasias modernas: talvez chips que dêem acesso à clonagem de cartões, o USB e adaptadores usados por criminosos cibernéticos, documentos digitais com identidades falsas. Sei lá, objectos que preenchem o imaginário de quem cobiça e aprecia o mundo do crime e dos policiais.


Há pouco menos de vinte anos ainda associava as mochilas aos terroristas. Aquela conversa de largar mochilas em aeroportos e estações ferroviárias impressionara-me. E aliava à mochila a música Encosta-te a mim do Jorge Palma, numa altura em que ainda tinha pachorra para o ouvir, por reminiscências da infância afloradas mais tarde na casa dos vinte.


Hoje ao ver mochilas penso na natação e em viagens. Voltei ao que toda a vida fui. Sem delírios que não sejam o banal uso dos objectos.


O dia-a-dia


Ontem o fim de tarde foi simpático. Há quem ache descrever uma realidade como simpática, ou um sorriso ao simples, uma sensaboria. Preferem um esgar desdenhoso disfarçado de sorriso e elogio forçado, ou escárnios muito produzidos, ou adjectivos mais sumarentos. Todavia, já sabem do que esta casa gasta: singeleza. Se gostam de caracteres e atitudes presumidas e de maquiavelismo laparoto, têm muito por onde espraiar as vossas leituras. O espaço digital é um viveiro de aspirantes a vedeta. Esta casa é fora de moda, sem pingo de glamour de trepadeira de plástico. Os tons da escrita aqui são os da terra. São os naturais. A escrita não se faz de comunicação eficaz para vender mais. Aqui não se cavalgam as palavras a eito para encher espaço. Talvez haja ritmo, pausa e silêncio inatos. E espaço para respirar e voltar a pensar e sentir.


Em que se traduz o encanto da tarde de ontem? Recebi mensagem do meu primo M., a dar-me razão por ter dito que sentia mais afinidade com o museu D’Orsay do que com o Louvre. O M., que foi passar esta semana com a mulher e o filho a Paris, também se enfeitiçou com a pintura do século XIX. Comentei que nos era mais próxima. A impressionista e pós-impressionista.


Pouco depois liguei à minha amiga T. a perguntar se amanhã quer vir connosco e com o filho a uma exposição de fotografia na Relação. O programa incluirá uma ida à gelataria nos Clérigos para experimentar sabores novos. A T. estava na biblioteca da faculdade, embrenhada na tese de mestrado sobre o ensino técnico na Primeira República, e depois de vinte minutos de conversa, deu-me a resposta que me faz acreditar que o mundo ainda é como era. Anda com dor na anca provocada por má posição a conduzir, pelo que dá 20% de hipótese de vir connosco. Com a T. é assim: numa hora de almoço há 38 anos, fez um quilómetro em quase corrida para me avisar que ia chegar às 16h35 e não às 16h30, e agora responde-me que está muito tentada, mas só há 20% de hipótese.


Entretanto no local de trabalho vai haver alterações. O Z. vai deixar de trabalhar connosco e vem um irmão de uma colega para o lugar dele. É engraçado como ao longo de muitos anos a trabalhar na mesma empresa vou dando pelas diferentes peculiaridades de cada colega. Os que ficam e os que passam. Com todos aprendo. O Z. trouxe-me o mundo das trotinetes, do segundo trabalho à noite nos bares, da vida social intensa, dos gostos musicais, da vida amorosa. Conheço as histórias e conversas com muitos ex-colegas, amigos e namoradas. Parece uma banalidade, mas o facto é que enriqueci. Ontem brinquei com ele: e agora quem é que me vai dizer que tenho e-mails por ler no lixo? A E. esteve de licença de luto pela morte do pai. Já regressou ao trabalho, ainda muito abatida. Vai começar a trabalhar parte dos dias em teletrabalho para acompanhar a mãe. São dois mundos que povoam as minhas oito horas de trabalho.


O almoço e a pechincha


Hoje voltei a almoçar perto do local de trabalho. Em vez do Orfeuzinho, fui ao Orfeu. Imaginem a desenxabidez dos poisos sem originalidade e pedigree. Falo convosco, iluminados. Vós os proclamadores exuberantes das convicções. Vós que não falais nem conversais em tom de dúvida ou incerteza. Vós que sempre asseverais. Vós que sois poços de escárnio e desdém, cobiçosos da simplicidade. Vós imaculados do erro.


Quando cheguei, a mesa do lado estava ocupada por um homem mais velho e uma mulher mais nova. Faziam as palavras cruzadas do jornal com despacho. Hesitaram nos serviços secretos norte-americanos. É SIA ou CIA? Saíram e veio outro casal com um amigo; tomaram apenas café. Estiveram ao telefone com o funcionário da casa, o senhor C., que está de baixa. Como ouvi a conversa, fiquei a saber do estado de saúde dos quatro e também do ponto de situação do negócio do Café. Fiquei também a saber onde se pode fazer hidroginástica em Lordelo do Ouro e conheci ao pormenor a planta descrita do Centro de Dia da mesma freguesia. Apreciei uma espécie de elo solidário que corre bem apertado entre amigos de Café do Porto. Em frente sentou-se uma senhora mais velha que comeu filetes de pescada e bebeu um copo de vinho tinto. Noutra mesa estavam duas colegas de trabalho na casa dos quarenta. Reparei que uma almoçou sem bebida, coisa que sempre me faz confusão, pela simples razão de ser incapaz de deglutir uma refeição sem líquido. A companheira bebeu água com gás.


Quantos livros poderia escrever com a informação reunida até esta frase? Muitos. É escusado inventar identidades falsas para catrapiscar meninas online que contem histórias de molde a criar personagens e enredos. É desnecessário forçar intimidade com elogios falsos aproximando-se de gente talentosa e vida própria para arranjar inspiração e com afinco militante escrever borradas pretensiosas desprovidas de cunho próprio. Mas o português e a portuguesa pelintras e embusteiros gostam mais do fruto do vizinho do que de trabalhar e dar de mãos vazias. Basta observar e ser capaz de gostar com autenticidade do que o rodeia em vez de apreciar lugares-comuns negociáveis. Talvez seja isso que distingue um escritor de um merceeiro de livros e uma banal blogger de uma impostora com necessidade de afirmação.


Comi uns sensaborões filetes de pescada com salada russa. O peixe estava insosso. E lembrei-me do tio F., padre jesuíta, primo e grande amigo da minha avó. A quem recebíamos sempre com filetes de pescada, por ser o seu prato predilecto. À época achávamos um desperdício. Prato tão desconsolado. Tonterias. Depois lembrei-me da guia da agência de viagens Pinto Lopes e da sua zombaria com a mesmice dos pratos tradicionais servidos pelos portugueses há trinta anos. E segui para uma loja barateira comprar a minha pechincha. Uma carteira azul para acompanhar os usuais jeans.


 



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