
Chegado o Verão na meninice partia com os meus pais e irmãos para a praia e ao regressar a Valinhas encontrava a avó nas minhas tílias, como dizia. Depois de uma vida cheia, de partidas e chegadas, de muitos próximos e afastados, estava sentada na cadeira de estopa do cantinho de pedra ou em casa ou no terreiro a tratar da sua vida. Ocupada no mundo de onde deixara de partir e chegar. Era ali que tudo confluía.
Talvez tenha envelhecido precocemente. Talvez seja apenas uma fase. Mas sinto o Porto e, em especial, a zona do Porto onde vivo, como a minha âncora. Não é a primeira vez que me assenta esta sensação de pertença definitiva. Como fado quase feliz. Nem sei bem porquê quase. Afinal a eterna vontade de partir esbateu-se ao ponto de quando vejo num qualquer anúncio “ganhe uma viagem a Roma”, pensar: por que voltaria a Roma?
Quem sabe mantenha a ideia de Marrocos por ser desejo dos 18 anos. E é possível que mantenha os planos da China, de Angola e da América do Sul. São planos para o resto da vida. Mas o ímpeto de ir, de voar, de descobrir é muito ténue. Forte é este elo que me segura e me faz gozar a simplicidade de acordar num bungalow no parque de Angeiras. Sentir o cheiro a terra quente e molhada, ao detergente dos lençóis bem lavados. Sorrir ao ver borboletas para as quais a presença humana não é ameaçadora. Viver na comunhão com os pássaros e demais bichos, como o gato pardo e amistoso que subiu ao nosso alpendre a pedir atenção.
O mundo que procurava como Forasteira bateu-me à porta da rua onde vivo. No prédio em frente, jovens africanos secam os boxers no parapeito da varanda, presos por um frasco de creme hidratante. No pátio, na porta em frente ao nosso apartamento, vive um casal brasileiro com um bebé. Não são únicos no prédio, que ainda é predominantemente português. Na esquina de lá, a padaria do ex-emigrante na Venezuela, tal como os donos do restaurante. Na esquina em frente, um cafezito de indiano. Mais adiante a mercearia de um bangladeshiano, antes da loja chinesa. Numa zona da cidade ainda portuguesa, são vários os residentes anglófonos, italianos, hispânicos.
Mas essa é a boa vizinhança. Nefasta é alguma vizinhança digital portuguesa de abutres. Daquela que em vez de criar, consome a vida alheia para medrar. Negritude de mau agouro. Veneno e vulgaridade a tentar consumir a luminosidade alheia. Presumo que o Chega aprecie essa comunidade. Faz o género. Adiante, convém abstrair do que não mudará nunca. O que nasce torto tarde ou nunca se endireita.
O que interessa é o porto de abrigo e a ideia de poder dele usufruir. Se possível pontualmente partilhar o ninho com os mais queridos. Ainda que não haja novidades palpitantes para compartilhar nem itens comerciais e culturais em voga para consumir e exibir.