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Longe de exemplar, escreves sem ter nada de relevante a declarar. Pior, sem aprimorares o que vês, ouves e lês antes de divulgar o resultado da observação. Na voz dos sábios que ignoram leituras sem o badalo da presunção: hoje há mais quem escreva do que quem leia.
Se tivesses tempo e oportunidade, darias conta das tuas impressões acerca da leitura dos jornais no último par de dias: as especiais características da imigração angolana em Portugal, a conversa entre um filósofo e um poeta-psicólogo cego e os incêndios no sul da Europa. Quem sabe amanhã.
Se tivesses tempo e oportunidade roubada por quem usufrui de tempo a mais e má índole q.b. para destruir a serenidade de quem trabalha demais, falarias dos absurdos da gestão e organização do trabalho e das prioridades na actualidade.
Se tivesses tempo e oportunidade, adiantarias uma ideia que daqui a dez anos soará banal: a pouca capacidade de concentração moderna não decorre apenas do definhamento das habilidades intelectuais, é resultado também da acumulação de informação e da natural e desejável seriação dos dados inúteis.
Se tivesses tempo e oportunidade, falarias da obsessão pelo mental e da desvalorização dos sentidos e do corpo, que comentaste há dez anos e começa a entrar no discurso dos iluminados.
Como não tens tempo nem oportunidade, vais dormir cansada. Não sem antes voltar a referir Um Homem, Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares. Fere como uma faca. Impressiona: sem drama, com absoluta crueza. Como pensam, sentem e agem os homens, mulheres, crianças, animais e máquinas em tempo de guerra?
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.