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Leitura no Medium
Depois de quatro dias sem escrever retomo com um longo diário de fim-de-semana e começo pelo habitual resumo de um artigo sobre pintura lido aqui no Medium e, como sempre, disponível no separador Activity. É aconselhável a leitura, até porque assim poderão observar a obra escolhida.
A tela analisada pelo autor que li é O Ourives na sua oficina (1449), do pintor flamengo Petrus Christus. Como o nome da obra indica, representa um ourives na sua loja, onde estão expostos anéis, pérolas, pedras preciosas, como um pedaço de coral, e moedas, cristais e outros objectos não só com valor económico como também de cariz supersticioso. O artesão, a segurar uma balança com um anel pesado num dos pequenos pratos, recebe um casal elegantemente vestido, à espera da avaliação da jóia de casamento.
O autor enaltece a habilidade técnica da pintura a óleo, nova à época, a retratar a riqueza do ofício com pormenores, desde os tecidos luxuosos, passando pelos reflexos metálicos, até à delicadeza dos dedos das mãos. Destaca um elemento curioso: o espelho um pouco lascado, que reflecte duas figuras na rua, uma a segurar um falcão. O autor conta ainda que, durante muito tempo, acreditou-se que a figura central era Santo Elígio, padroeiro dos ourives, atenta a auréola sobre a cabeça. A pintura seria uma alegoria ao casamento cristão, confirmada pelo contraste entre o interior, da pureza do matrimónio, e as tentações do mundo exterior, reveladas pela ave de rapina reflectida no espelho ligeiramente rachado.
Todavia, nos anos 90 do século passado, descobriu-se que a auréola não fazia parte da pintura original, defendendo recentes historiadores e o próprio autor que a tela representa o ourives Willem van Vleuten, que terá encomendado a pintura a Petrus Christus, para celebrar o sucesso profissional e promover a sua reputação.
O absurdo
É um assunto recorrente do blog Comezinhas: o absurdo da complicação artificial do discurso e dos procedimentos. Em termos gerais, a massificação da informação trouxe a sensação de sapiência colectiva. Todos são doutos e estão aptos a ensinar e convencer os outros. Os conhecimentos e convicções individuais são argumentos de afirmação pessoal. Em termos específicos, em cada área profissional, os procedimentos multiplicaram-se exponencialmente até ao disparate.
Sem travões do bom senso cada trabalhador, do CEO até ao executante de tarefas administrativas ou manuais, passando pelos cargos de direcção superior, exerce as funções obedecendo a procedimentos irracionais impostos por legislação avulsa galopante tão contraditória quanto o desempenho das tarefas controladas por consultoria e auditoria insana.
Se Salomão atravessasse os três milénios que nos separam e visse o que eu vejo, esbugalharia os olhos e não sei se se sentiria capaz de reinar.
A justiça passou a ser uma obra do acaso, de sorte em encontrar o menor número possível de contradições prejudiciais entre as várias leis, que é suposto defenderem o interesse público, e todas as lacunas. A umas e outras superintende a insanidade da hiper-regulamentação e dos excessos interpretativos — da distorção e manipulação. As leis, lacunas e sua distorção premeiam quem tem mais lábia e é desonesto, tantas vezes cheio de argumentos atendíveis, sofisticados e de trato dócil ou sedutor, outras por mera imposição arrogante do lugar-comum. Basta isolar cada argumento, dócil ou rude, selá-lo hermeticamente no interesse individual, funcional ou tribal, para ganhar força de razão absoluta, apesar de desmentido pela mais elementar lógica integral do interesse comum e da verdade.
Acresce um dado importante: a inconsciência da maioria desta realidade e a necessidade de participação e aceitação colectiva levam ao movimento em espiral da ditadura do absurdo, cada vez mais normalizada. O caminho para quebrar a engrenagem viciada é o da resistência, ainda que inaudível ou desconsiderada. Com o tempo estas palavras singelas e discretas farão caminho. Infelizmente nunca a tempo de se fazer justiça com tantos que sofrem por imposição de arbitrariedades. É a vida como sempre foi.
Dia-a-dia
Profissão
Na empresa foi uma semana particularmente trabalhosa com a noção exacta de desperdício de tempo, de tarefas redundantes, contraproducentes e nocivas, resultantes de incongruências do tempo moderno e da insensatez de gente convencida de ser muito competente. Além da injustiça imposta por arbitrariedades.
Social
Na vida pessoal houve mais movimento do que habitual. Na sexta-feira almocei com a minha prima E., e as amigas B. e C., na Casa Agrícola, onde estive ocasionalmente, mas não ia há uns bons anos, apesar de ser a cem metros do local de trabalho. A distribuição do tempo por tema conversado a quatro deve andar à volta disto no essencial: 60% de peripécias em hospitais ou em consultas médicas e assuntos conexos, 15% de desventuras no contacto com serviços públicos, 15% de viagens, 10% de diversos, desde questões de trato humano a cinema e filhos, passando pela reforma — a B. obteve a reforma esta semana, a E. e a C., com mais três anos do que eu, estão a onze anos de a atingir. O último almoço conjunto tinha sido em Fevereiro. Desta vez veio também a C. Uma mesa com quatro meninas ressessas, formadas em Direito e quatro percursos profissionais diferentes — Ministério Público, advocacia por conta própria, consultoria jurídica em empresa e gestão de crédito. O menu: a B. e eu comemos folhado de alheira, acompanhado de salada sem tempero, a E. optou por ovos rotos, e a C. por bife da vazia com arroz. Bebeu-se sobretudo água. A B. uma coca-cola.
Família in loco
Ontem, Sábado, o Nuno e eu fomos tomar café a casa do meu pai, após o almoço. Serviu-nos o café — para mim Colômbia por ser menos intenso — numas canecas iguais às nossas. Quando comprei para nós, dei um par igual ao meu pai — preta e verde. Ouvi o relato pormenorizado da última semana de vida da F. pela quarta ou quinta vez. Apesar disso penso que o meu pai está a recompor-se. Tem a vida muito organizada, como sempre teve.
Deu-nos boleia até casa da minha mãe, aproveitando para fazer rolar o carro que agora anda menos. Não fomos longe, vivem a pouco mais de um quilómetro de distância. Em casa da minha mãe ajudei a tratar de uma pequena burocracia por via digital. E conversámos muito pouco tempo, já que eu tinha dormido apenas duas horas e o Nuno fez directa. Passámos a madrugada de Sábado na sala a conversar. Depois de uma pequena discussão entre mãe e filha, viemos para casa dormir.
Livros
Jantámos em paz e depois de acabarmos Um Homem: Klaus Klump, deitámo-nos e descansámos até à manhã de hoje. O romance relata a sobrevivência em tempo de guerra de um editor crescido numa família privilegiada. De forma crua, física e violenta descreve como resiste o protagonista e outras personagens. Ninguém se salva em humanidade. A guerra é cruel. Só os negócios e os oportunistas prosperam tanto em guerra como em paz. No romance ressalta a ausência total de amor e a prevalência do interesse. Impera o corpo, as leis da natureza e o lado animalesco do ser humano. É a absoluta desesperança seja no tempo em que a cidade é invadida e vive-se em guerra debaixo da tirania, seja já em democracia.
Tenciono ler Jerusalém e estou curiosa por O Fim dos Estados Unidos da América, também de Gonçalo M. Tavares. O interesse pelo segundo prende-se não só com o tema da decadência dos impérios, como também com a curiosidade de ver a evolução do autor. Tenho lido ficção de Gonçalo M. Tavares da primeira década deste século, quero ver se amadureceu, perdendo o pezito para estereótipos que só são superados pela experiência de vida. Daqueles que permanecem incrustados por mais lido e erudito se seja. E por mais pensado e talentoso se seja. Há sensibilidades que só entram na consciência pela vida vivida com inteireza. Digo isto sem qualquer intenção de diminuir o autor, cuja mestria na escrita é extraordinária.
Telefone
Antes de vir escrever a segunda parte deste diário — o resumo da pintura foi feito de manhã depois de libertar congelador e frigorífico de itens lá depositados há meses — liguei à T., que tinha sido acordada da sesta pelo filho P. e preparava-se para ir estudar, e ao meu irmão N. que, na companhia da S., estava tal como o Nuno no sofá a ver um programa sobre carros na CNN. Foram chamadas rápidas. Está tudo normal. O Nuno ligou à mãe. Eu vou ligar à minha um pouco mais tarde, mas já fiz uma chamada muito breve logo de manhã cedo para saber se estava tudo bem e já trocámos duas mensagens. São 18h34, acabámos de receber e arrumar as compras feitas no Continente online, e enquanto tomo café vou corrigir o post e publicá-lo. A meio da semana falei com o meu sobrinho K., que no fim-de-semana anterior tinha convidado o avô para almoçar uma massa guisada com carne de vaca feita pelo neto à moda antiga, com massa meada.
À mesa
As fotografias são dos jantares de quarta e sexta-feira e do almoço de hoje. Ovos mexidos com tomate cereja e cogumelos frescos a pedido do Nuno — preparados por mim -, amêijoas à Bulhão Pato e gambas ao alho, e espetada de chouriço e polvo com molho verde — encomendados. Bebemos água e numa das refeições um vulgar vinho verde branco da Cooperativa de Felgueiras. À noite vou assar um rolo de carne de porco já preparado, acompanhado de batata noisette e esparregado de espinafres — depois acrescento a fotografia. O rolo dá para vários dias; é uma forma de comer carne.



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Obrigada por terem lido. Bom semana.
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.