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(actualizado)
Como tirar partido das balelas do desenvolvimento pessoal que povoam a escrita nas redes digitais, replicadas de modo autómato sem real reflexão? Questionando-as em vez de as impingir como conselhos e verdades irrefutáveis até ao aparecimento da próxima moda.
Dizem-me que devo parar e celebrar as conquistas e vitórias. Contrariar a tendência de estar focada na próxima meta, reconhecer os progressos feitos e estar grata. Nada disto faz muito sentido para quem não vive de objectivos, mas de sonhos. Nada disto compreende quem encara a vida como caminho desconhecido cheio de planos tecidos de imaginação. Reconhecer a graça do universo está na própria forma de viver um pouco ao sabor do vento e do tempo. É uma prática comezinha, não um ritual e colheita de louros.
Celebro intimamente o que corre bem na minha vida e a forma de agradecer é cuidar e dar atenção a quem é leal. Conservar o espírito aberto a quem vem de novo. Manter a jovialidade e a vontade de conhecer e aprender. Sem calcular de forma meticulosa as fontes de conhecimento. Deixar que elas surjam e jorrem a surpresa e a mudança que me fazem feliz.
As grandes tomadas de decisão e planos saem sempre ao lado.
Lembro-me de no meu trigésimo sexto aniversário começar a sair de uma fase de reconstrução, após um embate duro aos trinta e três. Ainda na idade da morte e ressurreição de Cristo dei a volta por cima, tomando decisões que me impulsionavam na vida, mas precisava de me tranquilizar e começar a concretizar sonhos.
Recordo que tomei a decisão de, pela primeira vez na vida, passar esse aniversário sozinha em vez de rodeada de muita gente como era habitual. Fiquei a saber como era e, sinceramente, não fiquei convencida.
Não me encontrei comigo mesma, nem com a felicidade ou a paz de espírito de estar só. Havia outros 364 dias para experimentar a sensação. Aliás, toda uma vida, por sempre me ter sentido só no meu mundo e na maioria do tempo muito tranquila com isso, sem prescindir de quem gosto. Apesar de me sentir incompreendida como já muitas vezes admiti. Não alinho na vaidade da solidão nem da solitude. Em muitos casos são mentiras que se contam a nós mesmos, até vir outra moda no espaço público.
O território de independência de cada um não precisa ser feito do afastamento e isolamento. Até porque isso representa em muitos casos uma forma utilitária e um tanto egoísta de viver. Prescindir dos outros quando convém, usá-los quando são úteis. Uma forma de estar no mundo muito própria de um tempo de deterioração dos laços de amor e de amizade, cada vez mais utilitários e menos recíprocos de modo genuíno. Com o uso artificial do pronome pessoal "nós".
Esta realidade está associada à superficialidade e ao oportunismo das interacções sociais, e contribui para a erosão das relações humanas.
Salvaguardo os casos em que o afastamento e o silêncio são para poupar os demais às nossas amarguras. Fases de vida a ultrapassar.
E não perco tempo com a solidão existencial. Sou a autora das Comezinhas e não uma presumida literata.
Celebro o caminho no gerúndio: independente, mas caminhando e gostando da companhia de gente leal. Sabendo-me carunchosa tenho a aspiração de estar à altura do amor, da amizade e da simples delicadeza desconhecida que recebo. No gerúndio porque a vida é uma acção em curso e não uma competição destinada a alcançar troféus.
A fotografia é da piscina do parque. Um dos meus grandes prazeres é nadar. No último ano por preguiça parei de o fazer, mas a partir de Setembro retomarei a natação livre. Por agora aproveito aqui no parque o sol e a piscina. Esta é também uma forma de mimar-me e celebrar a liberdade.