Aqui ficam as ligações para um punhado de postais do primeiro trimestre de 2023 com excertos.
Janeiro
- Diário, de 15.01.23
Lembrei-me agora do que faltava falar. Há uns dias pareceu-me que alguém sugeria que tendo eu nascido numa família muito conservadora não o era. O Nuno diz que sim, que isso define o meu percurso ou movimento. Pelo que percebi acha que não sou carne nem peixe, ou seja, tendo para o liberal que aprecio, mas trago o conservadorismo do meio agarrado à pele. É certo que nasci numa família muito conservadora, mas nunca senti necessidade de rebelião. Agrada-me o conservadorismo, dou-lhe é umas valentes facadas quando não faz sentido.
- O que somos, de 26.01.23
E não somos. Tudo quanto nos parece evidente, tudo quanto nos é repelente num ápice pode mudar. As circunstâncias baralham os gostos e aquilo que dá ideia ser traço de personalidade, de carácter até, esfuma-se nas contradições mais saborosas da vida.
O dogmatismo diz mais das nossas fraquezas do que do conhecimento e valor que achamos possuir. Serve-nos de escudo para o desconhecido, que teimamos em catalogar de ignorância ou deseducação.
E agora passemos a gatos e à beijoquice.
- A (des)propósito do ChatGPT, de 18.02.23
É verdade que a falta de juízo crítico e a notória falta de conhecimentos de História (às vezes, em supostos estudiosos da área) de vasta percentagem da população não augura nada de bom, mas não sei se isto por si só explica a decadência. Afinal o mundo nunca deixou de ser assim: uma elite com acesso ao conhecimento e ao poder face a populações manipuláveis. Apesar de hoje compostas de cada vez maiores camadas de gente mais “informada”, com mais licenciaturas, mestrados e doutoramentos do que nunca - e mais convencidas da sua ciência do que nunca.
- Umbigo, de 19.02.23
Desde criança não consegues ficar-te por uma ideia isolada. Ao pensamento acorre-te sempre pelo menos a afirmação e a negação, a luz e a sombra. Desde criança à ideia vem-te sempre um novelo. Nunca foste pragmática, senão por obrigação de sã convivência. Tinhas de viver, tinhas de decidir, por isso andaste para a frente indo e decidindo às vezes com grande desembaraço outras de modo mais desajeitado, mas sempre na dúvida. Na dúvida se tinhas feito bem, escolhido bem, dito bem, escrito bem, respondido bem. E a dificuldade não estava necessariamente entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Não há aqui perfeccionismo. Nem o problema é o de agradar. Está além disso: sempre foi uma monumental dúvida íntima. Eterna dúvida e eterna insatisfação com que aprendeste a viver, começando a entender que o teu maior medo é o de fugires ao que acreditas, ao que consideras verdade, ao que és. Se estiveres enganada, estás tramada. Cai tudo por terra: cais tu própria. Uma aposta furada. Ou não. Uma mão cheia de nada. Ou não. É um risco viver.
- Hiatos, de 21.02.23
Hoje discursou, a besta. E claro o mundo parou para o ouvir. Há uma coisa que te assusta na atitude pensante de muitos comentadores. Chamas: estupidez de menina tonta. Parece misógino e talvez seja, mas se não admitisses que assim apelidas não estarias a ser honesta, e não gostas de fugir à franqueza. Mas onde está a estupidez, afinal? No constante desacreditar da inteligência de Putin. E a menina tonta de onde vem? No facto de conheceres entre muitas meninas este tipo de argumento: ah, é racista porque é ignorante, é machista porque é ignorante, é xenófobo porque é ignorante. A menina tonta pensa erroneamente que o conhecimento é garantia de bondade. Não é. As meninas e os meninos tontos julgam que a informação, a leitura afastam os homens da barbárie. Não afastam. Era bom que assim fosse. Os jornais e as livrarias ocupariam as farmácias, os jornais e os livros substituiriam os ansiolíticos, os antidepressivos e antipsicóticos. Era muito bom que assim fosse, mas infelizmente a realidade é um pouco diferente. Isto a propósito das análises aos discursos de Putin, que menorizam a inteligência do facínora ou a sua falta de conhecimentos históricos, militares ou de qualquer outra natureza. Subvalorizar o inimigo não é muito inteligente. E bem sabes que se vive na sociedade de informação e imagem veloz, na qual se pode destruir um perfil através da montagem artificial de retrato pejorativo. É claro que pode haver uma estratégia de desacreditação para enfraquecer o criminoso. Isso faz sentido, o que não faz é acreditar em fraquezas do inimigo que não existem. O perigo não está em exteriorizar a fraqueza de Putin, expondo-a, mas interiorizá-la, acreditando nela. Voltemos à bondade do conhecimento. Dizem-me que há qualquer coisa de Platão nisto. Há, mas não vou explorar. Obrigar-me-ia a ler e quero continuar o presente texto. Procurem a coincidência entre o bem e a sabedoria por contraposição da correspondência entre o mal e a ignorância. Tudo isto para dizer que se este facínora suspendeu o mundo não é com certeza burro. É um criminoso, mas não um imbecil. Tal como o Ocidente não é a entidade virtuosa impoluta propalada na comunicação social, pelo que conviria ouvir como Putin a demoniza.
- Sonho, de 21.02.23
Março
- Roda livre, de 02.03.23
- A Guerra, de 15.03.23
- A Guerra, de 16.03.23