Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.
Não escolhes a simplicidade por facilitismo numa busca de atalho. Mas é, de certa forma, um alívio. O descanso de um cérebro cansado que não suporta enredos de séries, filmes e romances com estrutura clássica.
Não procuras o diferente e o inusitado para marcar posição, mas por exaustão da falta de sentido e lógica da complexidade fabricada para criar excitação. Para persuadir.
O que te comove é a descoberta e a beleza.
Não queres ser convencida, queres ser surpreendida.
Sentes mais vida na bulha territorial entre o casal de melros e o casal de pegas, a que assististe hoje de manhã na varanda do quarto, do que nas teorias e doutrinas e nos interstícios das vidas de humanos notáveis.
O que te interessa na leitura é a vida e a surpresa, não o escaparate de protagonismos.
Enquanto te restar juízo e dignidade, não sucumbirás à tentação do elogio ou da crítica oportunista. E enquanto tiveres noção do ridículo, não te deixarás iludir pela bajulação da macaquice de imitação.
Cansa-te a actualidade política, cultural e de entretenimento, a que vais prestando inconstante atenção para não perder o pé. Entedia-te o que ocupa espaço e tempo maioritários na esfera pública.
Há tanto no mundo para descobrir para lá dos destaques e da produção massificada dos influentes em cada área. O universo é tão grande e a macaquice de imitação tão mesquinha. Todos na roda do hamster a replicar.
Há tantas perguntas para fazer acerca do universo e de nós próprios e dos demais anónimos. Há tanta curiosidade desinteressada para satisfazer. Catadupas de perguntas que não cabem em crónicas da moda, enredos de romances de ilustres e policiais empolgantes, nem em tratados de literatura de algibeira, todos anunciados com pompa e circunstância por circuitos viciados na frivolidade e falsa erudição.
Cultivar a simplicidade, os laços verdadeiros e a discrição não é uma estratégia de sedução; é o alívio possível face ao bombardeamento da ostentação, do fingimento e do oportunismo. Não é ladainha da gratidão bacoca pela dádiva divina; é a compreensão possível do espaço que te resta para respirares em paz.
É a escolha da saída digna, como a pomada balsâmica que se esfrega no joelho para continuar a caminhada na velhice.