Notícias, ruído, música, escrita e cultivar a sobranceria



 



















Imagem definida pelo Deep Seek e executada pelo ChatGPT a meu pedido.


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Notícias


Li poucas parangonas dos jornais. Vou deixar para outro dia o Irão e o esmiuçar de todo o armamento norte-americano deslocado para o Médio Oriente, o uso da Base Militar das Lajes, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos e as tarifas, o chumbo da Hungria ao pacote de sanções à Rússia. No fim de semana ouvi poucas notícias. Vi uma reportagem sobre famílias ucranianas que passaram umas semanas no Centro de Portugal ao abrigo de um projecto solidário privado, um intervalo no sofrimento atroz. E vi muitas vezes a cara do antigo director da Polícia Judiciária. Não ouvi o que os comentadores disseram, mas pelo que percebi a alguém que comigo conversava: goza de uma imagem positiva entre comentadores. O que me apraz dizer: independentemente da competência, era patente ser um homem focado na sua própria imagem e com ambições políticas. Importa-me mais quem está à frente da PJ do que do Ministério da Administração Interna. Considero mais importante saber quem fica na PJ do que quem foi para o MAI. Atento o fardo trabalhoso e delicado que vai herdar, faço votos para que seja uma pessoa capaz, discreta, dedicada e honesta. Ainda nada li sobre quem fica; não procurei informação. Logo verei.


Ruído e música


Ouvi há pouco um vídeo acerca da sensibilidade ao ruído e a explicação da psicologia e da biologia: 20% da população ouve em alta definição e não no padrão normal, isto é, não filtra, processa todos os sons por estar em permanente vigília. Há quem precise de sossego para organizar-se, pensar e criar. Isto explica alguma coisa. Houve momentos em que os ruídos me destruíram, desde trabalhar em open space entre mais de vinte pessoas faladoras com dois rádios em simultâneo ligados, a corredores e lojas de centros comerciais, passando por estardalhaço a tirar a loiça da máquina de loiça.


Desde um ano de idade até muito tarde ouvi música no rádio até adormecer. Aos sete anos, quando tive um quarto só para mim, pedi que comprassem um rádio com o dinheiro dos presentes de Natal para continuar a ouvir música. Ainda hoje trabalho o dia todo embalada por música, e em casa à noite ligo a aparelhagem quase todos os dias. A menos que não goste, o que é silêncio para alguns, para mim é melodia. O ar silencioso que alguns precisam para respirar, para mim é a água dos sons harmoniosos para nadar. Gosto da calma, da suavidade, mas também das dissonâncias; daí a preferência pelo Jazz.


Apesar disso sou dura de ouvido, seria incapaz de compor, ou tocar um instrumento e não consigo reproduzir ou cantar com um mínimo de afinação.


Dizem que escrevo com musicalidade e atribuo isso a esta vida inteira a ouvir música. Um tesouro que me foi dado e é quase inato. Não sou capaz de rimar com intenção, não consigo descrever o que é métrica, muito menos escrever segundo ela. Não tenho noção do ritmo. Não escrevo com intenção de escrever bonito seja pela forma ou substância.


Por outro lado, ao contrário do que alguns pensam, não procuro as palavras para efeito, nem na maioria das vezes para precisão. Elas fluem. Como uma dádiva. Atribuo isso a uma herança oral rica via feminina, e ao facto de na minha família do lado materno haver gente letrada há muitíssimas gerações. Recebi esse caldo. Não há mérito nem esforço. Nem sequer tenho especial memória para guardar. Até nisso, o processo parece misterioso. A psicologia e a biologia — as neurociências — explicarão. Sai-me. Claro que ajuda ter lido sempre desde pequena. Apesar de não ser uma leitora ávida de livros, nem me penalizar por isso para fazer charme.


Cultivar a sobranceria


As últimas leituras despertaram-me a questão da sobranceria de alguns criadores, intelectuais e mimetizadores que consomem as suas teses. Uns por natural deformação de carácter, outros por reflexo de se sentirem incompreendidos pelo comum dos mortais, estabelecem uma barreira de comunicação intransponível entre a inteligência e o senso comum. Ao criarem personagens ou ao observarem gente comum têm necessidade de rotular de imbecil quem não adere à sofisticação intelectual, corresponda ela ou não ao razoável. E o passo seguinte, é fazer corresponder essa ignorância à felicidade inconsequente.


Vemos isso em muitos escritores, críticos e replicadores. Uma necessidade imperiosa e arrogante de justificarem a solidão ou infelicidade com a própria iluminação. O raciocínio é básico: sou sábio, logo infeliz. Aquele ignorante é feliz, exactamente porque é ignorante. Não dão o passo seguinte: estabelecer a ponte com o homem comum, sem a bengala justificativa da vaidade. Precisam sentir-se superiores como pão para a boca, essa é a atenuante do sofrimento que decorre da sua própria falta de discernimento sensível e do vazio. São ocos.


É por esta via que surge a veneração de personagens desprovidas de consciência de si: criminosos sem escrúpulos, néscios sem vontade de aprender, pobres viciados na miséria. É como se os criadores e críticos arrancassem ao homem a consciência no intuito de deixar tudo em águas paradas e justificar: o mundo é assim desde que é mundo, nunca mudará. Não há esperança. E assim se condenam o mundo e a si próprios ao suicídio, para gáudio das audiências que se pélam por um belo drama. O suicídio tem glamour. E se for o suicídio feminino e literário, é o delírio. A felicidade é brega ou sonsa, jamais tem pedigree. O sofrimento sim, é fascinante. Um dia voltarei a esta ideia.













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