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As notícias


Israel continua a bombardear o Líbano para eliminar o Hezbollah. E os EUA continuam a atacar o Irão sem que haja qualquer garantia de substituição do regime e estabilização. Antes pelo contrário, internamente, pode avizinhar-se a desintegração atenta a extensão do território e diversidade étnica. E, externamente, o conflito alastrou com a retaliação do Irão contra bases militares norte-americanas e áreas civis em oito países da região.


Conforme post publicado anteriormente, o benefício que os EUA retiram desta intervenção pode ser de curto prazo, apesar do prejuízo causado à China, rival comercial, que perde o acesso ao principal fornecedor de energia depois de já o ter perdido na Venezuela, e vê-se obrigada a abastecer-se no mercado global a preços mais altos e em dólares. Negociante, Donald Trump está habituado às jogadas com apostas de alto risco para os norte-americanos e o resto do mundo. E, em abono da verdade, não há notícia de grande consternação interna nos EUA pela orientação da actual Administração em matéria de política internacional.


A Europa (para gáudio de Trump) sofre com a instabilidade no Golfo e abastecimento energético dos mercados globais. A subida do preço do petróleo e gás faz aumentar a inflação na Europa. Além do que terá em braços os migrantes de mais um conflito armado. Um déjà vu: os EUA, com todo o seu espírito abnegado, vão salvar um povo martirizado, desestabilizam toda uma região e a Europa recebe os refugiados. O belíssimo negócio norte-americano.


Com o conflito no Irão, a ocupação da Ucrânia perdeu a prioridade sob o ponto de vista dos EUA. As negociações de paz foram adiadas. Uma espiral de estragos sem fim à vista. Rússia aproveita o conflito no Médio Oriente para tirar vantagem. E a Ucrânia oferece experiência com drones aos EUA em troca de apoio militar.


Marcelo Rebelo de Sousa


Em pequena, a Eca dizia-me muitas vezes: atrás de mim virá quem de mim bom fará. Não votei em MRS para o segundo mandato e votei em Seguro na segunda volta das últimas presidenciais, mas não há sombra de dúvida que MRS teve um papel mais positivo para o país, do que terá Seguro. Vamos ter saudades de um homem despojado. Voltaremos ao tempo dos encostos e intrigas. Da conversa fiada para encher enredos dos jornais e espaço público com frivolidades. MRS para o bem e para o mal foi eleito por uma população que o apreciava. Seguro foi eleito por uma grande maioria de eleitores entre a espada e a parede, temerosa de um aspirante a ditador. Nos últimos anos com o pano de fundo internacional da ascensão dos radicais de direita, a elite fajuta portuguesa aproveitou para favorecer o discurso ultra-conservador (e com isso engordar o Chega de Ventura) e demonizar a esquerda. E abriu espaço à sombra da moderação, não a real, a que vai do socialismo à social-democracia, mas à dos mercados, dos interesses, do establishment, e da mera aparência de preocupação com a justiça social. A escolha nas presidenciais foi entre o mau e o péssimo e, claro, há uma franja importante dos iluminados radiante a perorar no espaço público. Voltaram ao seu elemento.


Pensamentos dispersos


Hoje ouvi uma música que há 20 anos me fazia mossa e dei por mim a senti-la como poeira. As certezas, as angústias, as alegrias de um tempo desfazem-se em quase nada, em sensações difusas sem peso. Tão distantes da carga de chumbo do futuro que à época não antecipávamos. O futuro pode pesar chumbo e o passado ser leve como uma pena. Como se tratasse da inversão do sonho. Tudo pesa mais no presente (o futuro depois de antecipado). Mesmo sabendo que daqui a 20 anos se converterá em poeira.


Gosto de alguns termos brasileiros. Por exemplo, a verdade é brega. Não há melhor palavra para definir a presunção com que alguns desdenham o verdadeiro. A ideia de que a lealdade ao recto e genuíno é popularucha, simplória, ignorante. De mau gosto, sem qualidade. Sem sofisticação. O rebusque da intriga, o requinte da distorção e manipulação sugere a muitos iluminados o sentimento de preparação intelectual e rigor de conhecimento. Elevam-nas a sabedoria. São as borbulhinhas da excitação. Pélam-se pelo cinismo. Dá-lhes ser. É a inversão total dos princípios de rectidão e carácter.


É impressionante a credulidade de gente que cai na esparrela da aparência de liberdade de expressão e defesa da democracia. Insurgem-se berrando contra quem de facto defende a liberdade que só pode existir quando há consciência e não mera aparência de bem. Os manipuladores estão em grande, jogando com as palavras sem correspondência prática, isto é, usando a retórica mais básica, têm cada vez mais seguidores dos lugares-comuns, incapazes de perceberem quem de facto defende a democracia em prejuízo dos jogos de interesse.


Dia-a-dia, Margem Sul e manuscrita


No fim-de-semana estive em Almada. Correu tudo bem salvo a travessia do Tejo de regresso. A Ponte 25 de Abril estava fechada para mais uma maratona. Desta vez esqueci-me de consultar esses eventos que nos deixam em maus lençóis nas idas ao sul. Chamei o Uber, estranhei o preço, e só depois vi que teríamos de seguir caminho pela Ponte Vasco da Gama. Foi um regresso àquela paisagem, depois da última vez em Novembro no regresso do Alentejo. Sempre que passo por terras como Seixal, Barreiro, Moita, Montijo, lembro-me das pessoas que fui conhecendo social e profissionalmente desses lugares. Umas de quem guardo boas memórias, outras que mantenho contacto, algumas que não apreciei nem um pouco. São fragmentos de conhecimentos, na maioria dos casos superficiais, que nos fazem compor as zonas do país como uma espécie de puzzle que só faz sentido quando integralmente completado. Talvez por isso seja tão estúpido e provinciano o desamor a certas zonas do país por ressabiamento próprio da mesquinhez.


No Sábado (re)comecei a escrever em cadernos. Um A4 florido para os desabafos nocturnos. Outro A5 preto para alinhavar postais. Este pequeno é um aproveitamento. Andei nas gavetas a procurar e vi que não tinha deitado fora no grande desbaste de 2007 (quando rasguei todo o conteúdo escrito em papel de uma caixa de plástico grande) um caderno usado, em 2002, na viagem de avião para a Austrália na Singapore Airlines. Experimentei no comboio escrever primeiro em papel para me sentir menos agarrada ao smartphone e menos tentada nas consultas. A ver vamos o que se seguirá. No caderno dos desabafos acho graça à despreocupação de escrever ainda mais sem freio. Não creio que vá adiantar muito como forma de dosear a publicação da escrita do umbigo, mas faço um esforço de refrear o destempero da dopamina em público. Quanto aos cadernos pretos que tenciono comprar, a intenção é reabituar-me à manuscrita. Talvez seja uma busca de liberdade. De não estar condicionada ao manancial de informação que voluntaria ou involuntariamente me sujeito ao escrever no computador e no telemóvel.




 

 

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.


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