Mudança para melhor

Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.

Em todas as gerações houve perplexidades. O novo irrompe sem pedir licença e impõe dissonâncias na vida comunitária. Para lá das ancestrais diferenças de carácter que criam fricção na coabitação, os avanços tecnológicos trazem consigo enigmas de difícil resolução.

Como cada um acomoda o novo diz muito da elasticidade mental e da honestidade.

Há ano e meio comecei a escrever no Medium e este mês iniciei actividade numa plataforma portuguesa de blogs — o Blix.

Numa pequena amostra das leituras desta semana deparei-me com artigos de análise séria, rigorosa e revigorante das artes plásticas feita por humanos, com arejadas dicas sobre criação e ficção, com vídeos de música gerada por Inteligência Artificial, tal como posts com imagens e textos gerados por IA, com profissionais, competentes e despretensiosas observações literárias escritas por humanos, com dicas de estilo de vida e de desenvolvimento pessoal ao estilo das revistas femininas de há duas ou três décadas, com teorias esforçadas que misturam a moda da neurociência e a arte de fotografar. E muito mais.

Nas últimas três décadas, com o advento da utilização da Internet, o espaço público transformou-se num palco de sabichões. Os dados, a informação, o conhecimento estão acessíveis, à mão de quase todos e parte substancial da população mundial convenceu-se que é sábia. As modas da psicologia de algibeira das últimas décadas ajudam a insuflar a auto-estima. São muitos os que se acham cabalmente informados e conhecedores, assim se autointitulam e acham-se capazes de ensinar os demais, e capazes de produzir opinião, literatura, música, pintura, fotografia com a ajuda preciosa desta sabedoria infusa acessível democraticamente.

Os músicos do Conservatório e os especialmente dotados de talento conviveram com os dos loops e agora com a criação da IA. Faça-se o paralelo aos escritores, pintores, fotógrafos.

Entre uns e outros há um tertium genus — o único que causa verdadeira repulsa. Os dissimulados. Os impostores. Os que usam e abusam das ferramentas da tecnologia de forma ardilosa, mas fazem de conta que não e através dos métodos tradicionais das referências, das trocas de favor, fazem crer que têm competências e méritos de todo inexistentes. Uns de tão ridículos gabam-se das boas relações, outras estão constantemente a chamar a atenção para o apreço que os demais mostram por si, apesar desse apreço ser forjado. São os mesmos e as mesmas que estão habituados ao embuste para obter inspiração, quando não mesmo ao plágio e roubo. Os mesmos que apreciam o assédio e, à primeira oportunidade, defendem os agressores. Os bullies que defendem o direito à agressão. É a podridão do mundo digital que fede a metros de distância quando apuramos o olfacto. De início enganam na aparência de seriedade e funcionam como vampiros do saudável. O verdadeiro parasitismo que caracteriza parte destes aspirantes à elite fajuta portuguesa — falo destes porque são os que tenho o desprazer de conhecer.

Afastar-me deste lodo foi o que fiz de melhor nos últimos tempos. E em boa hora subscrevi o Medium e o Blix. São amostras de um mundo novo e diverso: onde cabe o conhecimento tradicional, a cultura despretensiosa, o entretenimento, o humor, o desenvolvimento pessoal, as teorias da treta que todos temos e as facilidades da Inteligência Artificial, mas nem num nem noutro notei ainda aquele fedor ao embuste, ao assédio e à agressão. Respira-se bem. O que mais posso desejar é que assim continue.

                                                *

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

0