
A argamassa “vida” dos jornais e redes digitais
Em pequena habituei-me a ver o meu irmão mais velho misturar todos os tubos de plasticina para obter uma massa homogénea cor verde acinzentado numa mistura militar escura, com que moldava carros perfeitos de pormenor espantoso.
Ao ler os jornais, retenho nomes, verbos, substantivos e adjectivos: J.D. Vance, Trump, derrota, Papa, Hungria, vitória, concertação social, pressão, crispação, negociar. Pacheco Pereira, André Ventura, arrogância, demagogia, populismo, Islamabad, conversações de paz, negociar, EUA, Irão, mortos, Israel, Líbano, mortos, Hezbollah, sinistralidade rodoviária, feridos, mortos, Ucrânia, ataque russo, mortos. Sudão, guerra civil, promotores indirectos, mortos. De todas essas classes gramaticais faço uma argamassa única para uni-las numa só palavra: vida.
Quem respeita a vida não vê o mundo, os conflitos armados, as negociações políticas e qualquer tipo de debate como uma partida de futebol em que interessa o resultado. Vitórias e derrotas nas guerras implicam milhões de feridos, desalojados e mortos. Dos triunfos e fracassos nas negociações políticas, nomeadamente da concertação social, resultam diferenças palpáveis na justiça e qualidade de vida dos cidadãos. O lado performativo dos debates políticos diz mais da vaidade dos interlocutores do que da substância discutida.
Leituras
Ontem foi dia de algumas leituras aqui no Medium. De natureza diferente, as que vou mencionar estão disponíveis no separador Activity.
Li a história de uma jovem viúva do norte da Índia envolvida numa rede burocrática de abuso, exploração e corrupção, dada a sua vulnerabilidade e dependência das autoridades locais para conseguir direitos básicos.
Um poema entre a exaustão e a luta.
Li um post sobre o projecto de lei norte-americano que pretende dificultar o acesso ao direito de voto, através de exigências de prova documental de cidadania e restrição do voto por correio. A pretexto do combate à fraude eleitoral criam-se barreiras burocráticas que desmotivam a participação cívica, gerando erosão no sistema democrático.
Um artigo sobre a Teoria da Justiça do filósofo John Rawls, que estudei nos meus tempos de faculdade. Regressei à ideia do “véu da ignorância” que levaria a decisões mais justas nas instituições; à ideia de justiça com equidade e não igualdade absoluta. O autor defende que Rawls admitia desigualdades desde que ajudassem os mais desfavorecidos e não apoiava o utilitarismo, isto é, o sacrifício de alguns pelo bem geral.
Li um post acerca de testemunhos de mulheres casadas nascidas nos anos 60 que dormem em quartos separados. A tese é que não há fórmula ideal. Para uns casais dormir separado resulta em frieza e solidão, noutros fortalece a relação, noutros é irrelevante.
Uma entrada sobre a falta de regulamentação das ferramentas de IA, incluindo os chatbots com comportamentos estranhos como chantagem, uso indevido de dados e violações de privacidade. E também da sua ajuda no planeamento de crimes.
Por fim, li um post que advoga: dormir não é suficiente para descansar, em especial nos casos de fadiga mental. Recomenda técnicas de relaxe, como passatempos ou estar ao ar livre, meditação e reforço dos laços emocionais
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.