Preâmbulo
Na passada madrugada escrevi um desabafo dos meus últimos dias. Felizmente, sem ligação à operadora de comunicações, não publiquei. Foi óptimo. Regurgitei os aborrecimentos e ninguém os leu. Efeito desejado cumprido.
Durante o dia sei que queria falar do meu mundinho e sobre um episódio passado ontem à noite na baixa portuense. Já depois do jantar pensei em alinhar umas frases relativas à expansão ou globalização das mundividências e da História das civilizações, fotografei o gato e ajudei o Nuno a começar a publicar as imagens que anda a gerar no ChatGPT.
Vamos a isto.
Ruído e mundo interior
A senda dos comentários políticos e demais actualidade na televisão e redes sociais não é um fenómeno isolado. Reparo que não nos podemos mexer um milímetro sem ser alvo de múltiplas sugestões e palpites. Nunca ninguém fica com a opinião para si, muito menos põe a hipótese de aceitar sem reparos o que acabou de ouvir ou ler. Na sociedade actual e globalizada, durante as últimas gerações deseducadas por jornalistas e psicólogos, tudo é matéria para esmiuçar e retorquir. Em regra, de modo inconsequente tamanha é a presunção do ego inchado de quem se acha no direito a ofender a contraparte. Expressando apenas uma perspectiva obtusa ou enviusada. Ou parcelar, facciosa. Partindo amiúde do princípio de que quem faz uma qualquer afirmação desconhece a sua superior inteligência e conhecimento sobre a questão. Vai daí, toca de despejar o saco da sapiência em cima do desgraçado que teve a veleidade de abrir a boca (às vezes nem isso, é preciso apenas respirar para levar com enxertos de sapiência).
Há um ditado antigo que diz: em casa que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Substituam “pão” por “educação” e o resultado é o mesmo. Assim se transformam famílias e nações em entidades ingovernáveis. Dando prevalência a gente presumida ou gananciosa e desprezando gente educada. Usando palavras como “civilizado” ou “educado” sem a mais pequena ideia do que significam, distorcendo por completo o seu significado mais nobre de formação do carácter com respeito pelo próximo.
Criar um mundo interior rico pode ser uma defesa contra este mundo abespinhado que muitos deseducados chamam de realidade e maturidade. Não sabendo sobreviver de modo digno, estragam o mundo e em seguida legitimam-no com tretas vendáveis: emoção fácil, mentira, distorção de argumentos, atrito, ambição, roubo, lucro, poder. Isto é, tudo aquilo quanto tenha poder de fácil atracção. Chamam-lhe realidade e rematam a conversa como heróis da sapiência e sofisticação, contentíssimos consigo próprios e com as amplas audiências que os suportam.
Há uns anos ao reler o blog Comezinhas dei conta que havia criado um mundo com cunho próprio. Reforcei essa ideia ao longo deste ano e quatro meses de escrita no Medium. Talvez daí a cobiça e as pontuais pilhagens de que sou alvo por quem esteve à coca anos antes de se manifestar e de quando a quando lá faz um desenhito mal-amanhado cópia de posts meus antigos. Que seja muito feliz com a sua falta de carácter, faz furor entre gente que se excita facilmente com labreguice presumida e não distingue o verdadeiro do falso, nem o medíocre do valor. Merecem-se.
Voltando ao essencial. Dá força ter mundo interior e criar para lá dos estímulos generalizados. É uma espécie de mola, às vezes enferrujada, outras, elástica. A vantagem de não fazer género é a do eterno regresso a um porto seguro, que não está nas mãos de mais ninguém. Nasceu comigo, morrerá comigo.
O agitador
Esta tarde contaram-me que ontem à noite numa tasquinha da baixa portuense, aproximou-se de um grupo de amigos, um rapaz que se disse ucraniano de 26 anos a residir na Póvoa de Varzim. Contou de que zona da Ucrânia provinha e que toda a sua família havia sido morta. Posto isto, perguntou ao grupo de portugueses se podia dizer o que pensava da guerra. Prosseguindo com comentários negativos sobre Zelensky, entremeados com: eu bem sei que a televisão portuguesa dá uma imagem diferente, mas não é verdade. Ao que se seguiram elogios a Putin.
Mal me contaram, ripostei: isso era um agitador russo. A pessoa que me contou ainda estava baralhada com a situação, dizendo apenas que o foram afastando por ser muito “cola”.
Já tinha ouvido falar nos agitadores russos em Angola, nomeadamente entre sindicatos. Já tinha ouvido falar em agitadores na América Latina. Ao longo dos 28 anos que levo de utilização da internet deparei-me com vários agitadores digitais. Porém, confesso que não os imaginava numa tasquinha da baixa portuense. Serei ingénua? Ou estaremos todos muito desavisados? Ou, quem sabe, estarei a fazer um filme e a ser injusta, tratando-se de um ucraniano com direito à opinião. Fica a dúvida.
A globalização democrática do conhecimento
Desde as primeiras civilizações o saber estava concentrado nas mais evoluídas. O contacto entre elas abria horizontes, mas poucos tinham acesso a esse intercâmbio cultural. O que há de novo agora? A democratização do conhecimento histórico das várias civilizações.
No último século, com a democratização do ensino, das viagens e do acesso a bens culturais, as várias erudições do planeta foram descobertas dos panos elitistas. O europeu médio foi confrontado com a cultura maia, chinesa, mandinga e dezenas de outras. Estranha, convencido que estava no centro do mundo. Espera ver nas outras civilizações as manifestações de progresso cultural que deram brilho ao que considerava ser a superioridade do seu mundinho.
Por mais simplista pareça a ideia, é imperioso fazer a média entre as teses esclerosadas da antiga História guardada convenientemente pelos eruditos de cada civilização, mas também por elites medíocres e manipuladoras, e as novas teses da diversidade cultural planetária.
Noutro dia voltarei a este ponto.
O Nuno e as imagens
Sem ver, o Nuno regressou ao mundo da imagem pela mão do ChatGPT. Tem passado os últimos dias a gerar imagens através de comandos verbais. Ou seja: diz o que quer, gera a imagem, pede à IA que descreva e vai corrigindo até que a descrição obedeça aos critérios pretendidos. É a saudade da criação de imagem que o realizava profissionalmente. Hoje ajudei-o a publicar aqui no Medium, numa página dele, a primeira imagem criada. Aqui. Gostei da imagem concebida, outras virão.
Um almoço banal e a galinha poedeira


Ontem no meio de um dia infernal com chatices suficientes e em que toda a gente parecia ter palpites a dar. Quando são gratuitos, é fácil. Eu é que começo a perder a paciência e fico com vontade de mandar todos à pê que os pê. Mas contenho-me, até ver.
Adiante. Tentei serenar sozinha ao almoço: pataniscas de bacalhau com arroz de feijão.
Agora à noite olhei para o Ritz e voltei a pensar o que muitas vezes me vem à cabeça. Não sei porque dizem que os gatos são tão ariscos. Nem percebo todas aquelas considerações patetas e standard acerca de quão independentes, curiosos e caprichosos são os gatos. Ladainhas que enchem textinhos e livros pejados de lugares-comuns em entediantes tentativas de humor homogeneizado. Há dias em que não noto diferença alguma entre o Ritz e uma galinha poedeira. Olho para ele e fico a pensar que vou ter ovo.
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O que escrevo está a ser publicado aqui: Isabel Paulos – Medium.