Maturidade emocional

(actualizado)


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Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.


 


Prezo muito a inocência intelectual. Em paradoxo, por a encontrar em pessoas de rara maturidade emocional.


O desenlaçar bem o que se sente e encontrar a paz trazida por encontros felizes permite um desafogo muito próprio, uma falta de precisão de fazer prova de preparo intelectual. Quão mais confusa e insatisfeita é a componente emocional, maior a necessidade de mostrar sofisticação. Corações emaranhados dão óptimos pseudo-intelectuais, mas não pensadores lúcidos e clarividentes. Ir além das evidências implica o risco e a coragem da inocência. O equilíbrio emocional e o discernimento exigem verdade e falta de vergonha.


E repare-se que não falo em satisfação ou insatisfação emocional por felicidade numa relação afectiva. Falo de conseguir gerir as emoções positivas ou negativas e expressá-las com verdade. De modo genuíno, sem construções fictícias nem falsidades para fabricar uma personagem. Não falo de aparentar, mas de ser.


Esconder a criança interior, que busca conhecer e mostra entusiasmo por descobrir o que ignora, não raro revela imaturidade emocional. Aos 8 ou aos 80 anos. Nada mais deprimente do que disfarçar com arrogância a vergonha de si próprio.


A fuga são as referências e os catálogos chavão. A mimetização dos comportamentos padrão do meio intelectual e replicação como ovelhinhas Dolly a balir mééé a cada evento da actualidade sob vénias e elogios — o logro da bagagem cultural clonada. O slogan “culta e adulta” é uma manifestação deste cliché do meio cultural.


Não colhe o argumento de que a falsidade é uma imposição social. Não vejo os mesmos paninhos quentes com a penalização social de quem age de forma autêntica, pelo contrário, não raro é rotulada de estúpida e básica, sem apelo nem agravo, pelos mesmos cúmplices de todos os atropelos da desonestidade. 


A demonstração mais patente dessa imaturidade emocional é o cinismo e, máxime, o deslumbre pela perversidade. É a face escondida da falta de amor e paz interior.


Manda a verdade que diga: somos todos luz e sombra, inocência e perversidade.


O que não é costume compreender é que, ao contrário do que dita o senso comum, o cinismo e a perversidade, que todos possuímos em diferente grau, não decorrem da falta de vergonha da verdade e da maturidade. Pelo contrário, o cinismo e a perversidade são prova de formação deficiente do carácter, do escondido por trauma emocional, das feridas e ressentimentos, das invejas. São vestígios de imaturidade.


Se é verdade que encontrámos a natureza humana na ambiguidade, fazer desta escudo de defesa, de máscara e arma de esbulho, não é a escolha das pessoas de real valor.


Bem sei que o tempo da profusão dos dados e a moda de arguir factos reclamam da falta de concretização destas ideias com exemplos práticos, o que desmotiva muitos. Todavia, a discussão dos casos concretos serve sobretudo a frivolidade, a maledicência e a relativização de toda a realidade. Mais uma vez, por paradoxo, arguir factos serve para debater ad nauseam casos e casinhos sem real proveito prático.  


A vida pode ser vista de pontos de vista muito fora dos padrões aceites como dogmas.


Mil vezes, infantil. Até morrer.

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