Família inglesa na Praia de Angeiras.
*
Mais cedo frente ao mar dei-me em deambulações. Antes de mais, parar de fotografar e ver. Parar de registar e sentir. E sentindo só me vinha uma palavra: vastidão. Sem mais esclarecer.
Com meio século de vida era natural que me ocorressem espertezas acerca das encomendas e das epopeias portuguesas quinhentistas, as vidas trágicas dos pescadores, ou simples lembranças das alegrias que vivi dentro da água salgada. Visse os cardumes que acompanhei a nado, ou as brincadeiras partilhadas fora de pé. Confirmasse que a terra é redonda, ou perguntasse por vidas para lá da linha do horizonte, nas Américas. Recordasse os sonhos da meninice com ondas gigantes, ou a minha tela do mar revolto.
Mas a franqueza manda que diga apenas o que sinto sem adendas pensadas. O que sinto ao olhar o manto azul molhado e ondulante é simples vastidão. E mais nada.
Podia tentar aprimorar e dizer que a visão do mar suspende a existência. Desliga-me da humanidade terrena para me fazer comungar o universo. Como se servisse de porta imensa a pedir o mergulho no incompreensível.
Mas não quero procurar o sentido da vida. Muito menos compreender e explicar. Quero sentir e sinto vastidão. E mais nada.