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Vou fazendo uma ideia do que me foi dado e reconheço notável. Não me farei íntima, não procurarei espiolhar a vida nem tirar conclusões fáceis e injuriosas ou difamatórias pelo bel-prazer de me mostrar ilustrada, próxima e julgadora. Devo-lhes respeito e fui educada por uma geração em que a consideração pelos demais tinha valor.
O fogo
A charada da escrita, a devoção aos mestres e perpéctua conversa com os pensadores ancestrais, sem perda de lucidez nem dignidade. Revelando-lhes as pechas sem perda do respeito que impõe a inteligência aliada à sensibilidade. Desnudava, contradizia-se levada pela mão superior que escreve por nós, se nos deixarmos tomar pela autenticidade. Ambígua e eterna aprendiza incompreendida por bárbaros literatos dos salões pires. Com a compreensão profunda da natureza humana despia as personagens com aparente malvadez; era afinal lucidez pura. A diferença entre a maledicência e a clarividência. A coragem de olhar o ser humano sem ilusões assusta. Espanta preconceitos e tibiezas das consciências acomodadas. Repele espíritos mesquinhos.
Sábia, luz guia que me fez chorar à sua morte. Fez-me chorar contida, discreta, com a distância da admiração genuína.
A terra
A aspereza e o humor da maturidade. Uma escrita despida de adornos e sofisticações inúteis. Não cheguei a desvendar as elaborações da juventude, impenetráveis quando se é novo e procuram-se mais as respostas do que as perguntas. Mas mais velha conheci-lhe os suspiros de amor à vida de um descrente. A beleza na busca de salvação terrena. Límpido, claro, objectivo a romper o caminho estreito que o viu nascer. Lerei uma importante obra sua no decorrer deste ano. Continuarei a descobrir a reacção amor-ódio com pensadores que o antecederam, nesta rede emaranhada que é o pensamento português e universal.
A água
Deslumbrava aos vinte, entedia aos cinquenta. Formalmente irrepreensível no uso do fluxo de consciência, inteligência inegável, mas o que fascinava a leitora de espírito jovem convencida de que sofisticação é maestria, aborrece a alma madura que já não procura enredo psicológico nem retratos pitorescos de artificial afeição pelo comum contemporâneo. Muito menos uso frívolo da erudição. Soa a fado, e é como as bandas rock: congrega grupos de fãs, faz escola. Todavia sobressai da obra a exploração à saciedade da dor e o snobismo pueril.
O ar
Revela o que as consciências acomodadas não querem ver nem aceitar. É o papel de quem pensa e está cada vez mais nas mãos das escritoras. Meticulosa e disciplinada no uso dos instrumentos literários; utiliza as figuras de estilo de forma estudada e precisa e com forte carga simbólica. Não é um vulcão, é a geóloga que observa paciente e procura retratar os caminhos da lava. A geóloga dos comportamentos humanos, mais do que da natureza humana.
O éter
Travesso, pleno de perspicácia e ironia. Escreve curto, pensa longe. Escreve lógico, imagina absurdo. É em quase tudo original. Conseguirá fugir aos chavões da erudição em que caiu, qual Obélix no caldeirão da poção mágica? Conseguirá seguir a luz guia? Pedir emprestado os suspiros de amor à vida? Manter a forma irrepreensível e pautar-se pela disciplina e consciência incómoda? Ainda não o li o suficiente; apenas três livros nos últimos anos. Ao contrário dos quatro acima que conheço desde a adolescência. Logo veremos; é o vulto maior das letras actuais em Portugal. Ainda me encontro em estado de surpresa.
O texto tinha uma pequena conclusão na qual explicava o salto de gerações. Originaria comoção desnecessária. Optei por omitir e publicar num próximo post, por respeito à experiência de leitura destes cinco vultos da literatura portuguesa.
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.