Interlúdio

- persistência -

Imagem: hodgescompany.com.

*

Enfio a mão no lago e dedilho como se tocasse piano, logo se espalham as ondas da agitação na água como se tudo fosse mudar. Ilusão. Páro e em pouco tempo tudo estaciona. Abro o dique do mar e a corrente entra de rompante e descontrola.

Se quiser desaprender, deixo a barreira levantada, entro na onda dos inconscientes e perco a noção da realidade convencendo-me que domino e sei explicar as correntes. O mundo todo ali à mão de semear, com meia dúzia de certezas de algibeira.

Canso-me da evidência. Do óbvio artifício ruidoso.

Viro-me para dentro e para o que conheço. As sensações. O que sinto e posso contar.

O dia caiu a destoar do Verão. Familiar. Fresco e esbranquiçado. Traz memória de dias autênticos de há muitos anos, cercados de árvores e antiguidade de gente, bichos e haveres. Quando tudo era mais certo e real. Nem mais feliz, nem menos triste. Fiel à bruma que suspende o tempo.

Condensa o movimento. Só adivinha no pensamento e não no palpável.

Continua.

O nevoeiro é cerrado. Não permite que os olhos vejam. Sei por conjectura que os outros vivem alegrias e desventuras, não por batimento cardíaco que possa auscultar com presença atenta. A poucos pergunto como estão. De poucos sei. Poucos dizem de si. E vou rasgando a neblina da distância. A medir a longura, a saudade tranquila dos dias antigos parecidos com o dia de hoje.

Encostada à parede, a mesa de madeira rugosa, sulcada pelos veios de carvalho, dá-me a dimensão do real. Do que foi. Os pratos fundos de cobre. E as vozes ao longe, modeladas pelas paredes de pedra.

O céu embaciado traz a memória do que foi e continua. Na quase certeza de que num dia futuro outra neblina acrescentará mais um cacho de uvas rosadas na ramada e a esperança de entendimento.

Como se tudo pousasse no intermezzo antes do próximo andamento.

*

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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