Intempéries, leitura, mundo feminino e caminhos



(actualizado)

 

 

Intempéries

 














Registo a sequência de dias difíceis em Portugal com a ocorrência de intempéries entre 23 e 28 de Fevereiro. Três depressões sucessivas identificadas como Ingrid, Joseph e Kristin atingiram o país com chuva e rajadas de vento forte, com especial incidência no Centro, nos distritos de Leiria, Coimbra, Castelo Branco e Santarém. As depressões extratropicais causaram seis mortes confirmadas e quedas de árvores, inundações e danos generalizados em infra-estruturas de serviços públicos, habitações, linhas de energia e transportes. Centenas de milhares de habitações ficaram sem electricidade.


O Governo decretou o estado de calamidade para permitir às autoridades apoiarem as famílias das vítimas mortais, prestar auxílio de emergência aos que ficaram sem acesso a bens essenciais e na reconstrução das infra-estruturas e equipamentos danificados, permitir o acesso a apoios financeiros e simplificação dos procedimentos administrativos. A Protecção Civil antecipa cheias na próxima semana, com a continuação de chuvas intensas e o Governo anunciou hoje apoios que poderão atingir os 2,5 mil milhões de euros.








 


 




 


Leitura e mundo feminino


Li hoje a segunda parte do romance Foi Assim, de Natalia Ginzburg. Como contei aqui comecei a ler há 15 dias, tinha a intenção de acabar no último fim-de-semana, mas adiei para este. Foi hoje de manhã, na cama, depois de fotografar uma vez mais a japoneira da varanda. Já sabem, leio poucos livros e devagar. A tarde foi passada a dormir. Precisava refazer-me da semana exigente.


Se no início, apesar de gostar bastante do realismo e crueza da escrita, embirrei com a história, muito pelo desconforto de aceitar a austeridade a que as mulheres da geração da minha avó (e também da minha mãe) se condenavam (ou eram condenadas), acabei por fazer as pazes por completo e gostar seja do enredo, seja do modo detalhado e muito feminino de contar. Como sempre confesso, ao ler não consigo distância suficiente, fazendo paralelos. Apesar disso não me identifiquei com nenhuma personagem. Como é natural a ambiguidade faz-me sentir espelhada apenas em notas pontuais de cada mulher da história, e também nos homens. Na verdade, creio que desta vez consegui algum distanciamento. A história é em tudo verossímil. Cabem lá incontáveis vidas reais e a forma de contar apesar de crua e pormenorizada nunca é vulgar ou dramatizada, antes sensível e recta. Não esperem que conte o enredo para abrir o apetite; não me apetece. Limitei-me a contá-lo à minha mãe e ao Nuno.


Li este livro por não conhecer a autora e por uma associação feita ao que vou escrevendo. Em verdade, a associação não foi só a escritora italiana Natalia Ginzburg, mas também à inglesa Virginia Woolf e à brasileira Clarice Lispector. Uma tríade de peso que me deixa orgulhosa de ser mulher e poder à minha pequeníssima escala contribuir para desnudar o verdadeiro cariz feminino espartilhado pelas críticas obtusas de gente sem sensibilidade que só responde afirmativamente aos padrões masculinos tidos como cânones invioláveis de escrita, por mais primários e entediantes se revelem.


Sinto-me no meu território com o fluxo de consciência de Virginia Woolf. Gosto de deixar escorrer a intimidade do cérebro em golfadas de instantes sucessivos ou baralhados, sem me intrometer com espartilhos convencionais para caber no mundo ainda pequenino da historinha de enredo clássico — apesar de ter passado um século.


Tal como me sinto como peixe em água ao ser apresentada à sobriedade da linguagem de Natalia Ginzburg. Identifico-me com a contenção e desnecessidade de dramatização para convencer ou seduzir — essa tralha que inunda páginas de lugares-comuns da literatura apetecível e fácil tantas vezes imitada na escrita pretensiosa do meio digital. Gosto da moral sem moralidade bacoca e da lucidez. Gosto do pormenor do balde de lixo ora na cozinha ora na salinha do carvão ou do rabo couve-flor.


E, com Clarice Lispector, não me refugio na cobardia. Gosto da ideia de me descobrir enquanto escrevo. Percebo que Clarice Lispector não sirva pratos prontos, experimentados centenas de vezes antes, sem variações nem riscos. Não serve lições para leitores que em tudo busquem causalidade evidente e não aceitem a imperfeição do momento. Antes respeita a inteligência de quem lê para compreender o não-dito, o que fica suspenso nas entrelinhas.


Quem se atrai por balelas performativas jamais compreenderá uma escrita sem exibicionismo da interioridade, habituado que está à feita para impressionar e soar a profundidade. Nunca perceberá o ponto de vista feminino desnudado, sem os segredos artificiais de sedução fácil, sem a perpéctua cinta justa para agradar ao mundo masculino - os constrangimentos disfarçados por aspectos de fachada de modernidade que mantém a essência atávica. Nunca compreenderá nem Clarice Lispector, nem as outras autoras referidas. Quem reduz a emancipação feminina à aparência de independência e talento, à solidão e silêncio teatrais, ao biquíni ou às mamas ao léu, e aos clichés pseudo-intelectuais da música rock&roll e pop, dificilmente percebe o essencial do mundo feminino.


Estas autoras não se mostram, trabalham. Não fabricam emoção ou sapiência como prova de densidade. Ao escrever estão em processo de descoberta do mundo e de si mesmas. É uma diferença fundamental entre parecer e ser.






Caminhos


Ontem li uma série de histórias aqui no Medium. Quero apenas deixar uma breve nota acerca de duas delas e como influíram no pensamento. O facto de numa delas ter lido um percurso de um leitor e autor, com referência a um tempo passado em que estava muito entrosado numa rede de autores — situação alterada contra sua vontade por circunstâncias objectivas da vida -, fez com que eu reparasse que o leio com agrado para lá dessa particularidade que por tendência me faria repelir a leitura, ao contrário da maioria, para quem as referências em rede são apelativas.


Noutra história li a importância de perceber que diferentes valores aconselham diferentes caminhos. É uma consciência que devo tomar para mim. Não vale a pena insistir em amizades ou conhecidos que representam valores e interesses diametralmente diferentes dos meus. Por vezes, não há ponto de contacto possível. Apesar da curiosidade e tentação, nunca me compreenderão. E da minha parte já perdi há muito a curiosidade pela maioria e, como sempre, o caminho é para a frente e faz-se caminhando.








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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.












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