Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.
Não cabe tanta sabedoria e genialidade no mundo. Ah, por que o universo não reconhece tanto talento? Por procrastinarmos a obra-prima. Não, afinal o problema é outro: não temos auto-estima e não reconhecemos a própria qualidade. Não, não, afinal é porque os demais estão cegos, surdos e mudos e não reconhecem a evidência do valor do que já criámos. Há um complô de mediocridade.
Só não pomos a hipótese de sermos indivíduos banais com preocupações comezinhas, as quais tentamos abrilhantar com o embrulho retórico cada vez mais fácil de adquirir e replicar.
Só não pomos a hipótese de que estar de passagem seja o maior bem da humanidade. E a morte uma bênção: lição de humildade que desaconselha a acumulação e o orgulho. Verdade que o mais simples homem ou mulher compreende, mas não impressiona literatos.
Tropeçamos nos nossos pensamentos mais banais e fazemos deles teses estruturais da condição humana.
Trincamos uma maçã e descobrimos o sentido da vida.
Picamo-nos numa farpa e simulamos uma crise existencial para sentir que vivemos com consciência e intensidade.
Alguém nos toca no ombro chamando a atenção para uma casca de banana no chão e descobrimo-nos apaixonados para toda a eternidade. No segundo seguinte compreendemos pela Física e pela Psicanálise que a eternidade de uma sugestão amorosa tão intensa se esgota no momento e esfuma-se da consciência.
Lemos um trecho de um romance e ficamos nus, iludimo-nos ao apropriarmo-nos de uma ideia universal; tratamo-la como própria, faça ou não sentido.
Desejamos ser especiais. Queremos atenção. Queremos ser compreendidos. Para captar atenção ora fingimos solidão e infelicidade, ora forjamos cumplicidade e felicidade. Inventamos conhecimento e certezas para impressionar. Dissimulamos vulnerabilidade para atrair.
Mentimos a nós mesmos. Perdemos o pé. Confundimos o que pensamos e o que sentimos.
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.
Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.