É bem possível que tenha encontrado uma pequena maravilha




 


Foi dia de almoçar perto do local de trabalho; logo, dia da habitual visita à Bertrand. Entrei na livraria e dei de caras com um dos livreiros antigos da casa. Admiti: costumo andar por aí a deambular sozinha, mas hoje preciso da sua ajuda.


Ao almoço tinha deslizado os dedos pelo telemóvel e procurado no mundo digital contos e nomes de autoras contemporâneas que rompessem com os dogmas da literatura clássica. Lá vieram as sugestões pouco apetecíveis que integram em antologias portuguesas, lado a lado com nomes maiores, quem vive à sombra do talento alheio. Ou autoras estrangeiras que exploram temas fracturantes e guerras culturais. Rejeitei o rol aconselhado. Nem estuchas reacionárias que replicam argumentos standard no tempo e no modo, nem excitações reivindicativas.


Disse que procurava literatura universal com cunho inovador e no feminino. O simpático livreiro percebeu que pretendia uma estrutura que fugisse à narrativa tradicional e passou os vinte minutos seguintes a trazer-me oito hipóteses de leitura. Sete mulheres e um homem. Ele, o alemão Heinrich Böll com Retrato de Grupo com Senhora, que ficou marcado para deleite futuro. Elas, norte-americanas, escocesas, sul-coreana e dinamarquesa.


Depois de os folhear e ler um pouco, escolhi sem hesitação Solvej Balle e Sobre o Cálculo do Volume I. Entretanto passei os olhos superficialmente por uma entrevista do jornal Público à escritora e percebi que o impulso foi certeiro. É o primeiro volume de uma septologia que lerei com franca expectativa e com a intuição de que darei mais um passo no encontro com o talento fora do quadro mental esclerosado, perito em proclamar respeitabilidade onde ela não existe e desconfiar da verdadeira excelência. A inteligência e a originalidade sempre assustaram a mediania, por mais que esta se auto-proclame ou se insinue plena de predicados.


O ano de 2026, depois de Han Kang, Natalia Ginzburg e Clarice Lispector, continuará especialmente dedicado à literatura no feminino. Não porque sim. Não por serem mulheres. Mas por serem mulheres corajosas e talentosas. Por acrescentarem qualquer coisa ao mundo. Por sacudirem o pó e aliviarem o bolor da paisagem humana em vez de perpectuarem lugares-comuns pseudo-literários para caírem nas graças das elites fajutas. Desagradando tantas vezes aos círculos da mediania intelectual, habituados a enaltecer o facilitismo, as seitas e a intrujice.


Perdoem-me a franqueza cansada de quem já aturou pretensiosismo a mais nesta vida, mas não esperem encontrar nos meus comentários linguagem psico-jornalística e conversa de chacha supostamente sofisticada para tentar passar o ar de literata. É-me repelente a pirosa afectação de quem precisa de se afirmar à custa da aparência.


Ler é um prazer vivido; não um mostruário de fancaria a concurso de audiências com o pódio destinado à retórica oca dos chicos-espertos.


E agora respiro. Sorrio para libertar a dopamina e a serotonina. Respiro fundo três vezes. Cheiro a caneca do café e o perfume quase imperceptível da blusa. Endireito-me e estendo o olhar por um minuto no mar cor de chumbo. Sinto a superfície fria da garrafa de água. Concentro-me uns segundos no som do dedilhar do teclado e da tosse de alguém ao longe. Feitos os exercícios para activar o bem-estar, ficaram longe as implicações com a intrujice dos intelectualóides das redes digitais.


Repito os exercícios. Decido deixar o texto na íntegra, com as diatribes. No fundo, são a mais pura descrição da realidade. Apesar de saber que desagrado, limito-me a registar o espaço e o tempo.


Já relaxada, volto a lembrar a disponibilidade do livreiro e recordo as folhas do chá com que abre a ficção eleita. Recuo duas semanas; recordo a chegada a casa no regresso do fim-de-semana no parque, em que senti um forte aroma a chá preto à saída do elevador no átrio dos apartamentos. Lembro também a abertura da Ana Paula. Sorrio, agora espontaneamente. Contente com a ideia de acordar várias manhãs no mesmo dia. Prevejo horas bem passadas de leitura.


*


O que escrevo está a ser publicado no Isabel Paulos – Medium.

0