Do delírio ao real em três tempos

Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.

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Hoje de manhã alguém, que me conhece há 15 anos, pediu a minha participação num projecto comunitário por me considerar um caso muito positivo de superação de um problema de saúde grave, cujo relato pode ser útil para ajudar quem enfrenta situações difíceis e quebrar estigmas da sociedade. Já me tinha sugerido o mesmo o ano passado, mas fiz ouvidos de mercador. Desta vez decidi participar.

Finda a conversa, pensei em escrever um post dando o meu testemunho de vida de forma mais directa e objectiva do que tenho feito ao longo destes seis anos de escrita no blog Comezinhas. Chamando os bois pelos nomes, como muitos gostam de afirmar, sendo uma expressão que não aprecio. No que interessa: a ideia seria escrever qualquer coisa fiel aos factos e com o objectivo de dar ânimo a quem se sente em fim de linha, por quem sabe exactamente o que isso é e como isso pode deixar de ser. Concretizando, relatando os factos de forma detalhada.

Resolvi não o fazer. Por um lado, assumir uma história de superação num estilo de heroína não me agrada. Percebo a utilidade, mas não é o meu género. Penso demais, esmiúço demais. Não tenho vaidade em doenças nem em superações. Não sou de tirar conclusões fáceis e rápidas que ajudam a definir metas. Por outro lado, conheço demasiado bem o mundo digital para saber como é cruel e cobarde e como me poria a jeito de juízos levianos e de agressões dissimuladas.

Desço ao real e à minha dimensão. Quem posso ajudar? Onde posso ajudar? Não no mundo digital, onde se fala muito e sabe-se pouco, mas no terreno. Na minha cidade, num projecto associado a uma instituição que conheço há quase vinte anos e à qual estou grata e à qual devo retribuir auxílio. E, diga-se em abono da verdade, continuando-me a ajudar porque isto do altruísmo, sendo genuíno, é fonte da própria felicidade.

Faz muito mais sentido o testemunho presencial do que devassar as fragilidades online, sem efeito útil relevante. Além do que a concretização dos pormenores dá mais azo à bisbilhotice do que ao real combate ao estigma. É a superficialidade, quando não o oportunismo das audiências e vendas, que cria a ideia muito em voga de que o despudor é a cura de todos os males da sociedade. É sabido o aproveitamento maledicente que sempre é feito nestas matérias.

Então, porquê escrever este post? As Comezinhas têm sido um diário. E gosto que o sejam, mas com critério. Cada um tem o seu. Este é o meu.

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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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