Diário 9 de Maio de 2026

Longo e maçador preâmbulo

Quem me lê há algum tempo sabe que tenho o péssimo hábito de fazer tudo ao contrário do que é suposto e não seguir conselhos sensatos. Os conselheiros sugerem que não devemos escrever posts longos. Contrariando, muitos dos meus são do tamanho do ano sem pão, como se diz popularmente em Portugal. Dizem para não escrever sobre mim própria e para contar histórias sobre o que vejo à volta. Temos pena. Sei que aborreço muito, especialmente quem é precipitado e leviano nos juízos. Não tenho especial prazer em fazer julgamentos sobre o que me cerca, a menos que me toque. Gosto que os demais vivam em liberdade e possam ser como são sem as minhas considerações pequeninas. Quando faço críticas, faço-as à descarada, mas em regra sem nomear para não andar à boleia das qualidades e defeitos alheios. Não gosto de viver à custa dos outros. Dão-se também muitos conselhos para atrair as massas. A eterna busca dos destaques e das grandes audiências. Em geral, são maus alvitres. Cada um faz como entende e correr para agradar não faz o meu género.

Vem isto a propósito de ser o primeiro post escrito aqui no Medium com consciência de que vai ser lido também na nova plataforma portuguesa de blogs Blix. Já escrevi alguns, mas fi-lo sem a percepção que fosse lido num espaço novo. Estou, como em Outubro de 2024 aqui no Medium, a começar no Blix.

No diário de hoje não vou fazer o costumeiro resumo de um artigo sobre pintura, nem fiz leituras aqui no Medium que me permitissem escrever sobre elas ou acerca de política ou filosofia. Vou antes falar num programa de rádio português. Depois darei conta do meu dia comezinho.

Terra Média

Ouvi na RTP2 o programa da rádio Antena 1 Terra Média. Foi a primeira vez e já o apanhei a meio, mas ouvi também o da semana passada. Andando com menos disponibilidade para leituras, não tinha ainda conhecimento da celeuma de há duas semanas: a publicação de Alex Karp, CEO da Palantir Technologies, com 22 pontos do livro The Technological Republic. Considerado pela imprensa livre como um manifesto tecno-fascista. Já aqui me havia referido ao novo feudalismo das empresas tecnológicas, mas o que choca nesta publicação é o desplante. O dono da empresa fornecedora de soluções tecnológicas para Governos, exércitos, serviços de inteligência e forças policiais, defende explicitamente armas autónomas com IA e o dever moral das empresas tecnológicas colaborarem com o poder militar. Em nome de quê? Da superioridade moral do Ocidente face a culturas inferiores ou retrógradas, e a necessidade de combater o enfraquecimento ocidental após a Segunda Guerra Mundial. O mundo vai lindo.

Para desanuviar, no mesmo programa de rádio, fiquei a conhecer as mini novelas de fruta brasileiras, disponíveis no YouTube. Se optasse pelo linguajar moderno diria a nova trend, mas como sou antiquada digo que é a nova moda de curtíssimas ficções animadas com IA, de caricatura dos enredos típicos das novelas brasileiras: amor, ciúme, traição, gravidez. Com muita cor e boa-disposição. Dizem que é viciante. Se quiserem pesquisar, procurem no YouTube Moranguete e Abacatudo.

Dia-a-dia

Hoje acordámos muito cedo e ficámos na converseta até às oito, quando me levantei para fazer o café. Tirei, como habitual, as duas cartas de Tarot do dia para mim e para o Nuno. E nas últimas semanas tiro também uma carta para cada um com os hexagramas do oráculo I Ching. As minhas do Tarot não podiam ser melhores: para o dia em geral o Dez de Copas, para a escrita o Quatro de Paus. Depois do chuveiro fomos à loja de produtos para animais tentar comprar sementes de erva de gato. Não havia. Ficou encomendada para o próximo Sábado. Enquanto isso o gato espera à porta da varanda.

De novo em casa pus mãos à obra. Resolvi desfazer-me de roupa que não uso acumulada ao longo de trinta anos. Abri os guarda-fatos e gavetas. Deitei quatro peças ao lixo. Juntei 25 blusas/t-shirts/camisolas, 12 pares de calças, uma saia e um vestido. Tudo para dar. Do Nuno reuni um pijama novo, cinco pares de calças, dois pólos e uma camisa. Para o mesmo destino. Na quarta-feira a dona L. levará o saco para distribuir por quem entender. Já ficou combinado. Entretanto fomos à costureira levar três pares de calças meus e dois do Nuno para que ela os ponha ao corpo. Emagrecemos ambos. Hoje, quando ele se pesou, perguntei: terás alguma coisa? Respondeu-me: tenho, fome.

Telefonei à minha mãe que me fez inveja porque acabara de cozinhar e estava a saborear um arrozinho bem feito. Liguei também ao meu pai, que me contou que fez duas pequenas cirurgias de remoção de sinais na cara e peito. Ainda anda a tirar os pontos. A T. mandou-me mensagem a perguntar pelas férias e novidades sobre a troca de casa. Antes de saber que já tinha destino, sugeriu que vendesse a roupa na Vinted.

Curto epílogo

Agora são quase oito da noite, preciso de ir fazer o jantar: massa concha com hambúrgueres. Uma trabalheira.

Hoje isto saiu tudo a seco. Senti-me a fazer relatório. Nada aqui seduz. Nem um requebro falso para atrair incautos. Uma maçada. Muito gosto eu de fazer sofrer.

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