Preâmbulo
Com a idade vamos gostando de rotinas. Segue-se o diário de fim-de-semana que, como usual, inicia com leituras que fiz aqui no Medium. Os textos originais que me limito a resumir estão disponíveis no separador Activity.
Quem me lê regularmente já sabe a razão para não mencionar no texto os autores e títulos dos posts: não gosto do chamariz. Nem de andar à boleia das referências. Mas, como é óbvio, não iria fazer aquilo que tanto critiquei nos últimos seis anos de escrita nos meios digitais: fazer de conta que o conhecimento nasceu do nada, esconder a origem das afirmações que faço, só revelando as que me dariam estatuto ou vantagens, numa espécie de paga de favores.
Explico: não gostaria nem um pouco de exibir-me com informação e conhecimento adquiridos em leitura dos mais diversos suportes digitais e fazer de conta que decorrem de sabedoria acumulada ao longo de uma vida de leituras mais profundas ou de vivências pessoais. Isto é, de forma mais escancarada ou dissimulada, tomar o alheio como próprio.
Esse é um hábito antigo e enraizado, o de aparentar experiência e erudição. Associado tantas vezes às redes de trocas de favores. Felizmente, tenho vindo a ser surpreendida pela positiva por gente mais nova, capaz de ao escrever revelar que está a descobrir com o leitor o tema que aborda, ao invés de fingir que conhece tudo quanto elenca e enuncia em catálogos de vitrina. Espero que se mantenham fiéis à autenticidade e não se estraguem. Viva a discreta revolução.
Leituras no Medium
Começo pela pintura. No post que li na semana passada, o autor debruça-se sobre a célebre tela A Leiteira, de Johannes Vermeer. Para lá de outros pormenores, conta-nos como o artista consegue conduzir o olhar do observador através do uso da luz que entra pela janela e das sombras, a distribuição e forma dos objectos e a textura do pão. Ensina também que os historiadores dividem-se entre os que vêem o quadro como representação do trabalho doméstico humilde e honesto e os que, valorizando a tradicional conotação amorosa das leiteiras, encontram sugestões sensuais em detalhes como a imagem do Cupido e o aquecedor dos pés, associado no século XVII na Holanda ao desejo feminino.
No segundo artigo escolhido o tema é a política internacional. O autor diz-nos que não é previsível uma invasão militar de Taiwan. A China, atentos os custos para a economia global e os próprios interesses, tem uma estratégia de pressão paulatina política, diplomática e económica. Gradualmente vai impondo a submissão económica de Taiwan. Ao mesmo tempo que aumenta a dependência do Ocidente da China, com as suas terras raras e componentes para drones. O autor expõe também a fraqueza de carácter de Trump que estaria disposto a enfraquecer o apoio ao aliado, o maior produtor mundial de semicondutores, em troca de favores económicos.
Os quatro últimos textos lidos versam assuntos vários que se prendem com factores que considero relevantes ao equilíbrio entre aquisição de conhecimento e boa gestão do desenvolvimento pessoal e das relações humanas.
Na primeira entrada a autora reflecte sobre a desconfiança da traição de quem tem mais responsabilidade ou está numa posição de liderança. E explica como pode ser contraproducente sentir-se permanentemente ameaçado, sugerindo a necessidade de estrutura, limites e estabilidade emocional. No segundo post o autor alerta para a forma como orientadores desorganizados, incompetentes e que desrespeitam os jovens investigadores são nocivos seja para os estudantes, seja para a própria ciência. Recorda um aspecto essencial: o desrespeito leva os estudantes a esconderem erros, o que é muito grave em ciência. Na terceira entrada o autor demonstra, a propósito de um quebra-cabeças, como provar a impossibilidade de algo pode ser tão importante quanto encontrar uma resposta, e como questionar as premissas, deixando de acreditar nelas, nos conduz ao avanço científico. No quarto e último post o autor defende que as dificuldades por que todos atravessamos formam o carácter e a atitude que adoptamos ao enfrentar as adversidades pode ser uma bênção que nos fortalece.
Memória solta
Há cinco anos alguém demonstrou muita admiração nas conversas comigo por duas razões. Por confiar nele, falando como se falasse com uma amiga, apesar de ser alguém que por mero acaso tinha estudado no mesmo liceu mas que conhecia francamente mal. E por assumir que todos nós procuramos atenção, sendo ridículo dissimulá-lo atrás das lengas-lengas da psicologia barata acerca do erro da procura de validação alheia. Tratava-se de uma pessoa pouco confiável, com uma mentalidade pejada de lugares-comuns e talvez por isso estranhasse tanto a abertura de espírito. Apesar dos defeitos, tinha um leque de interesses com que aprendi e não tenho o menor arrependimento de ter confiado.
Dia-a-dia
O ambiente familiar deste fim-de-semana é distendido. Na sexta-feira ligou-me o meu irmão N. contente por começar a usufruir do seu novo porto de abrigo no Minho. Além de que soube que a minha cunhada, ao fim de dois anos no Alentejo, concorreu para mais perto e conseguiu colocação numa escola mais próxima de casa. A vida a restabelecer-se. Com os outros meus dois irmãos vou estando à semana, em ambiente de trabalho, e está tudo sereno. E também soube da tranquilidade dos meus sobrinhos. Falei ontem com o meu pai, que estava bem-disposto e disse gostar de todas as minhas novidades, uma forma de dizer que gosta de falar comigo, sem nunca o dizer. Meteu-se comigo quando disse que estivemos a ver com gosto desenhos animados: pois, tu e o Nuno já estão a entrar na segunda infância; vais ver que daqui em diante vais gostar ainda mais. Quase levava tão a mal, quanto me ofendeu aos 38 anos uma tia, que adorava e já morreu, ao incluir-me na meia-idade. Com a minha mãe falei ontem e hoje. Rimos com o facto de ter decidido ver à tarde uma Revista do La Féria na televisão. Foi de peito aberto, mas continua a não ser nada fã. Estava sim regalada com a sensibilidade e delicadeza de um filme japonês, que viu à noite. Onde pautava um piano, um violoncelo e um violino. O Nuno falou com a mãe nas manhãs de ontem e hoje. Estava contente: este Domingo ia dar um passeio a pé com uma amiga e lanchariam juntas.
Hoje de manhã pus a lavar e secar as nossas roupas, preenchi os dois organizadores semanais da minha medicação e do Nuno e fui à farmácia em busca do que estava a terminar. De tarde, tratei das roupas de casa. Lavei as cortinas da cozinha. O Nuno ajudou pacientemente com os esticadores, e lembrei-me da Eca quando fui à caixa de ferramentas buscar uma das verrumas que herdei. Os meus verdadeiros tesouros. Os evangelhos atrás da porta.
Depois dos afazeres domésticos e de dormir uma horinha, demos um giro pelas redondezas e fomos ao supermercado. Trouxemos o jantar, fruta e vinho, e tostas e queijo com especiarias para entrada. No fim do jantar vim escrever o diário e amanhã é segunda-feira e recomeça tudo de novo.
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A fotografia não é deste fim-de-semana, mas de quarta-feira, véspera de feriado. O jantar semanal aqui no restaurante da rua.
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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.
Obrigada por terem lido. Boa semana.