Diário 5 de Abril de 2026







 







Leituras a versar pintura


Começo o diário deste fim-de-semana, como habitual, com as minhas leituras sobre pintura. Os textos originais estão disponíveis no separador Activity. É boa ideia lê-los e observar as obras sobre as quais incidem, sempre se aprende mais do que lendo o meu modesto resumo e comentário. Este decifrar das análises alheias sobre pintura funciona como o substituto moderno e viável do meu desejo antigo de voltar à universidade para estudar Arte e História da Arte. No mundo digital também se aprende.


O primeiro autor que li esta semana debruça-se na obra Madonna do Chanceler Rolin, de Jan van Eyck. Uma obra com seiscentos anos, que retrata a audiência privada do rico e plebeu Chanceler de Borgonha, Nicolas Rolin, ajoelhado diante da Virgem e o Menino Jesus. Os cronistas da época descreviam o patrono da obra — encomendada para adornar a capela de família na igreja cuja ampliação financiou -, como implacável e ganancioso. Razão pela qual a pintura precisava de equilibrar o estatuto (e riqueza) com a devoção religiosa necessária à sua salvação. Na análise que o autor do artigo faz à obra, destaca vários pormenores de extrema importância: o incomum da audiência ser directa e não intermediada por um santo padroeiro e representada por duas figuras (Virgem e Chanceler) da mesma estatura; as vestes ricas como elementos de ostentação; os pavões no jardim como símbolo da ressurreição de Cristo e as pegas como mau agouro; as esculturas alusivas aos Sete Pecados Mortais, como o caso da luxúria representado pelos coelhos esmagados pela base das colunas; e o saco de dinheiro ao cinto que o pintor chegou a retratar, mas optou por pintar por cima por considerar ostentação excessiva. A pintura desenvolve-se na ambivalência entre a riqueza de Rolin e a sua condenação, dando a entender que todo o seu poder terreno — tratados, doações e igrejas, representados na paisagem que se vê do palácio -, haveria de contar como piedade, como tributo a Deus. Numa passagem o autor chama a atenção para a forma como o pintor nos dá a sensação do brilho terreno. Através da abundância do sensorial: quase podemos tocar nas rugas dos tecidos. Aquilo a que o autor chama com felicidade: “enciclopédia de superfícies tácteis: macias, duras, metálicas, pedregosas, frescas, sombrias, banhadas pelo sol.” O mundo sensorial que me toca particularmente. É o que define a vida, o presente, o testemunho.


O segundo post sobre pintura que li é muito diferente. A autora e pintora conta como deu vida às suas telas de flores pincelando abelhas, borboletas e carpas. Ao contrário do que é habitual na pintura de botânica não optou pelos detalhes hiper-realistas, mas sim pelo elemento surpresa. Em cinco minutos, com três tons de tinta, um pincel fino, redondo e pontiagudo e uma espátula delineou num visual expressivo, quase abstracto uma pequena abelha para simbolizar o sentido de comunidade, para que os observadores se sintam acompanhados numa realidade vívida.


Dia-a-dia


Outubro próximo marcará a passagem de vinte anos desde o começo da minha prestação de serviços para o parceiro de negócios da empresa onde trabalho. Na quinta-feira recebi um e-mail com teor semelhante ao dos anos precedentes: o reconhecimento pelo trabalho e bons resultados alcançados. É um gesto que me alegra e agradeço reconhecida por saber que ainda há entidades e pessoas no mundo capazes de justiça. É evidente que nem tudo é perfeito e haverá sempre o que corrigir de parte a parte, mas quando a postura é de lisura, apetece trabalhar com brio.


Na sexta-feira de manhã, antes das dez, tocou o telefone. Era a dona da ourivesaria, onde costumamos comprar as pulseiras e pilhas para os relógios do Nuno, a avisar-me que a medalha estava pronta. Há talvez dez anos no regresso de uma reunião profissional em Sintra, o meu irmão F. e eu olhámos a partir da auto-estrada para Fátima. Atenta a negritude do céu, o meu irmão disse que caso desanuviasse, sairia em direcção ao Santuário. Assim foi, visitámos pela primeira vez a Capela nova. Há muito que não ia a Fátima. Depois disso já regressei. Nesse dia comprei uma medalhinha de Nossa Senhora de Fátima para trazer ao Nuno e assim que cheguei a casa pendurou-a no fio que traz ao pescoço. Sente grande ligação a ela. Chamei a atenção para o facto de não ser de ouro nem prata, mas de mero latão. Ele disse que a ia mandar dourar. Passados estes anos lá foi a Virgem a banhos. E nada de ilusões, trata-se de dourar, e não de um verdadeiro banho de ouro, como compete a quem se quer humilde.


Almoço de Páscoa


O almoço de hoje foi em casa da minha mãe. Lá estivemos bem iluminados pelo sol da varanda florida. A azália raiada que dei na sexta-feira perde o brilho no conjunto, mas vista de perto é bem bonita. Hoje levámos o pão-de-ló tradicional e outro a imitar o de Ovar. Para sobremesa havia também brigadeiro, bolo de bolacha, cavacas (bolo de gema), framboesas e mirtilos, e mais fruta no aparador. O prato principal foi cozido à portuguesa, que a minha mãe disse como é costume estar péssimo. Por acaso, a metade de que me servi e consegui comer não me caiu bem, mas isso sou eu que estou um pisco que não tolera quase nada. O meu irmão N. serviu-me vinho como se eu ainda fosse capaz de beber meio copo; quem lucrou foi o Nuno.


Falou-se de Trump e do Irão. Das greves, do Governo e dos partidos políticos. Do Chega e dos comentários televisivos. Procurei desaparecer de circulação nesses momentos porque os temas são mais indigestos do que o cozido. Vimos os aviões passar e os meus irmãos iam conversando sobre companhias de aviação e pormenores da aterragem. A minha cunhada C. estava bonita; usava um conjunto de blusa e casaco com vinte anos cor-de-rosa desvanecido. Afinidades. Hoje a mim deu-me para o preto. Estava com calças e blusa pretas e sapatos, casaco e relógio grená.


Contei do meu último devaneio sobre casas. Os meus irmãos ameaçaram ambos que telefonariam ao meu pai se voltasse a falar do assunto — o meu pai sempre que falo em casas leva a mão a coração como se estivesse a sentir mal. O N. quando lhe disse o preço da casa, perguntou-me: isso é num bairro, não é? Claro que sim, é o que sempre quis. A minha famelga não sabe muito bem lidar com as peculiaridades da tresmalhada. Contei-lhes também do meu ânimo com o estudo de meia hora nocturna das últimas semanas.


O F. mostrou fotografia de casa — anda a lavar as fachadas a jacto de água. O N. falou dos projectos de reforma. A C. pegou num dos últimos livros da papeleira e aproveitou para dar uma leitura. A minha mãe, vestida de azul-marinho, contou a vida trabalhosa com os cuidados com a irmã. Mostrou-nos, a meu pedido, o diário de viagem da minha trisavó Natividade. Os meus sobrinhos apanharam sol na varanda, fizeram partidas ao pai e desenfiaram-se para os quartos para deslizarem os dedos nos telemóveis. Distribuí em caixas os restos das sobremesas.


À saída apanhei a minha mãe a despedir-se dos netos com os versos de A Despedida, de António Correia de Oliveira, «Três modos de despedida Tem o meu bem para mim/Até logo; até à vista/Ou adeus — É sempre assim.». Ao voltar à sala o meu irmão F. inquiriu-a sobre os ditos e ficou a saber que era um dos poemas que a minha avó dizia aos filhos em tom de brincadeira e foi buscar um papel onde tinha os versos transcritos numa das tardes de conversa com a minha avó em Valinhas. O F. leu o singelo poema integralmente. E ficaram as despedidas feitas até à próxima reunião familiar.


De Valinhas chegou mensagem dos meus primos com fotografia a receberem o Compasso. E Aleluias. Enviei mensagem de Boa Páscoa ao grupo de tios e primos. O Nuno telefonou à mãe e enviou mensagem à filha. Falámos com a amiga do Nuno F., que nos havia tentado ligar e enviado mensagem logo cedo. Acordei o meu pai às onze da manhã, o que é bom sinal.


Este ano ainda houve laivos de Páscoa. E fico de coração reconfortado.


Sonhos


Nos últimos dias sonhei mais do que uma vez com camiões. Diferentes: uns cisterna, outros de transporte de mercadorias. A razão real e palpável? Na semana passada ia no passeio junto a uma residência sénior que existe aqui na zona, e aproximou-se veloz um camião cisterna que, com o seu volume majestoso, me ensombrou e assustou levemente. Estacionou mesmo ao lado do passeio que eu calcorreava. Não fosse a racionalidade e podia acreditar que estes sonhos simbolizam força de vontade, oportunidades e prosperidade. Curiosamente há muitos anos, durante uma temporada difícil, sonhei com gigantes. Nesse caso não eram benéficos, revelavam inseguranças e medos. Foi uma fase de fragilidade. É curioso avaliar estas coisas à distância, fico sempre hesitante em saber se vejo com clareza o passado ou se é uma projecção do presente. É com certeza uma miscelânea das duas realidades.


Como nota quanto às minhas hesitações e travões em seguir o impulso que me leva de modo inato às respostas certas, deixo só um apontamento. Uma visão precipitada pode incorrer na ideia de que sou mais insegura do que é facto. Cada hesitação pode representar conhecimento e ponderação de realidades conflituantes, mas não ignoradas. É este o equívoco da presunção que leva tantos a expressarem-se com muita convicção e em ponto final, sempre prontos a ensinar até a quem sabe mais, como se detentores da verdade absoluta. Quanto mais peremptórios, mais patacoadas e gracejos fáceis. Quanto mais próximo se está do conhecimento, menos certezas se tem. Sim, saber-me nesta atitude perante a vida é uma vaidade. Posso tê-la. Não faço número de palco. Gosto verdadeiramente mais de aprender do que ensinar. E de contar o que aprendo com as imperfeições e fragilidades inerentes. Estou genuinamente hesitante e convencida da minha ignorância; não sou uma jumenta.


 




























 

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O que escrevo está a ser publicado no Isabel Paulos – Medium.


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