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Hoje o diário vai ser curto. Faço-o um pouco para me obrigar a cumprir a obrigação e deleite de fim-de-semana que encetei em Outubro de 2024. Já sabem que podem ler na íntegra, no separador Activity, o artigo original que me limitarei a resumir no início deste post.
A leitura no Medium
Escolhi um artigo de uma autora que leio com frequência. Minto: o texto escolheu-me a mim. Explico no final. A pintora leva-nos mais uma vez a um jardim público de Filadélfia para duas sessões de trabalho ao ar livre. Ao canto noroeste do Washington Square Park, onde foram plantadas hidranjas cor-de-rosa e azuis, e que tem como pano de fundo o edifício histórico de uma antiga editora, a Curtiss. Conta o que me ensinaram em pequena: as cores destas flores dependem da acidez ou alcalinidade do solo, e fala da escolha dos tons da tinta em função do enquadramento a partir do qual as pintou. Variando entre um magenta mais intenso e tons pastéis mais suaves, percebidos em função do ponto a partir do qual captava a beleza do seu canto favorito do parque. Usou espátula, o que prejudica os detalhes minuciosos, e privilegia o volume, a sensação de abundância e de balanço das flores ao vento.
As associações
Mais uma colher de sopa? Perguntava a minha mãe em criança, e continuava eu a perguntar na meninice. A brincadeira era a mesma: nos serviços de loiça e de plástico simular que cozinhávamos com água e folhas das hidranjas do Campo Grande, no Porto e de Valinhas, em Felgueiras, e levar a beber a sopa aos adultos. No Campo Grande as hidranjas ficavam em frente à janela da sala de jantar, em Valinhas em frente à copa.


O Parque das Angeiras está pejado de hortências, como chama a maioria dos portugueses às hidranjas. Esta manhã tirei duas fotografias antes do regresso a casa. Uma a um bungalow de proprietário particular adornado com cata-ventos, hidranjas rosa forte e duas cadeiras de descanso cor-de-rosa e azul. Outra ao bungalow onde ficámos instalados, cujo alpendre é cercado de hidranjas azul suave e agapantos lilás, pejados de abelhas e zangões.
Em São Miguel também fiquei encantada com a quantidade de hortências. Contribuem, como pormenor no todo da paisagem, belíssimo, para transformarem os Açores, lado a lado com o Alentejo, num dos pontos mais encantadores de Portugal.
Ao início da tarde, no momento em que dizia ao Nuno que tinha preguiça e possivelmente não escreveria o diário de fim-de-semana, caiu a notificação do artigo da pintora mencionada acima. Dupla associação: à importância das hidranjas na minha memória e laços afectivos, e às fotografias de hoje. Impressiona a forma como o algoritmo joga connosco.
Intolerância ou mundos redutores?
Há uns anos li uma crítica em que se demonstrava desprezo pelos diários do prémio Nobel português, José Saramago. Não os li, mas fiquei com a impressão de que se trata de mais uma manifestação de intolerância ao registo memorialista com toque íntimo caso não cumpra os catálogos de espíritos quadrados, que só sentem excitação na deformação humana convencional, não compreendendo nem sentindo estímulo nas imperfeições comezinhas. Nos defeitos sem encenação. Não estou certa do que acabei de escrever — crucifiquem-me, ó seres perfeitos e afirmativos, cheios de certezas. É um palpite que só confirmarei ou não depois de ler os ditos diários.
Mas certa é a costumeira acusação de narcisismo, que não é feita a outros diários pejados de lugares-comuns: prólogos de suicídios previsíveis, misérias e ascensões sociais e intelectuais protótipo, anti-heróis como álibis morais, confusão entre emancipação feminina e vulgaridade, conveniência a fingir vanguardismo e coragem, marialvismo básico.
Cada um de nós terá direito a falar do seu mundo íntimo, escolhendo não o lado estridente, atraente ou chocante, mas o mais corriqueiro? Por mais redutor possa parecer. Terá direito a fazê-lo sem ser enxovalhado e tido por narcisista patológico, ao mesmo tempo que vê vingar os clichés e contra-clichés da suposta sofisticação literária bisbilhoteira? Ou vencerá a intolerância vulgar das Casas dos Segredos dos círculos intelectuais de referência bafienta?
Afinal não foi um diário curto. Acabo sempre por me espraiar.
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Obrigada por terem lido. Boa semana.
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.