As leituras no Medium, pintura e escrita, o dia-a-dia, família, gel de banho e temperamentos, e os amigos e projectos de leitura.
Ao fim de meses de suspensão, volto aos longos diários de fim-de-semana no mesmo registo de 2024/2025. Com separadores dada a extensão previsível dos apontamentos. Poderia não insistir num formato que nunca teve muitos leitores, mas já conhecem a minha teimosia em escrever o que me dá prazer.
Leituras no Medium
Esta semana escolho quatro leituras aqui na plataforma Medium. Como sempre sem referir o nome dos autores das “stories” pelas razões que já apontei diversas vezes. Não é minha intenção andar à boleia, através das referências, do conhecimento e talento alheio. Interessa-me o conteúdo. Já sabem que podem consultar os artigos que deram origem a estas notas na Reading List. Não ilustro esta secção do post. Já está enobrecida nos artigos lidos e aqui me limito a resumir.
No primeiro post eleito foi apresentada a Lee Ufan, que define o processo criativo — a arte - como poesia, crítica e transcendência. A expressão de sentimentos, visões, sonhos; a relação tensa entre interioridade e mundo exterior; a reprodução da realidade como ela é. Não considera arte esta última versão. O texto explora os conceitos de cada uma das visões e a tradução mais fiel para arte da ressonância, mas não vou entrar por aí. Se estiverem interessados, podem ler. Acrescento apenas que fui ver quem era Lee Ufan. É um pintor, escultor e filósofo sul-coreano. Há muito de interesse para descobrir, levanto apenas uma ponta para a curiosidade. O artista considera que a obra de arte não impõe uma ideia, é sim um ponto de encontro que se concretiza na relação com o espectador e o espaço. Suponho que daí advenha a necessidade de espaço em branco.
A segunda entrada versa a pintura No Café, de 1875, de Edgar Degas. O autor contextualiza a obra: no momento das grandes reformas urbanas de Paris, com a deslocação de milhares de pessoas das velhas ruelas, o pintor quis representar o desalento dos que ficaram à margem das modernas avenidas, numa mesa na qual repousa um copo de absinto.
O terceiro post trata da Vista de Delft, de 1661, de Johannes Vermeer, pintura que encanta o autor da entrada e também Marcel Proust, que a considerou a mais bela do mundo. O pintor holandês retratou a cidade natal a partir de um piso elevado no sul, olhando para norte com a luz vinda de leste, com a amplitude dada pelo grande espaço ocupado pelo céu enublado. Representou a calma e a beleza a cidade, com uma presença emocional, ao invés do movimento comercial.
Na quarta entrada escolhida o autor reflecte de modo esquemático acerca dos benefícios da escrita diária. Lembra-nos que escrever todos os dias estrutura o pensamento, evitando a dispersão, reforça o questionamento, ajuda a processar emoções, melhora a tomada de decisão, pondo à prova argumentos e preconceitos, reduz a ansiedade, disciplina o pensamento profundo, reforça a consciência ao identificar medos e valores fundamentais.
O dia-a-dia
Comecei o Sábado cedo acompanhando o Nuno ao laboratório de análises clínicas. Seguiu-se a ida aos supermercados. Ao Mercadona para comprar o jantar: pernas de frango com batata assada, fruta e as vitaminas gerais e para a memória.
Ao Froiz, à subida da rua da Constituição, para comprar o gel de banho de leite de burra da Confiança. Brincamos como de costume por implicar com o Nuno por gastar imenso gel. Sou pela contenção do uso de químicos seja em produtos de higiene seja nos de limpeza. Considero que o que lava é a água com pouco “sabão” e não o contrário. Fico abismada com o uso excessivo desses produtos. Parece-me contranatura. A título de exemplo faz-me impressão que num simples chuveiro numa piscina municipal, no fim da sessão de natação, se vá munida de cinco ou seis frascos de gel, champô e cremes. Em criança a minha mãe, toda a vida muito cuidada, tentou-me educar nesses esmeros mais femininos, reagi sempre mal a alguns cremes e não suporto óleos na pele. Para ser franca, repelem-me. Para mim chuveiro diário significa: água, pequena dose de gel de banho, pequena dose de champô e no fim creme hidratante de rosto, e escovagem dos dentes com pequena dose de pasta dentífrica. Tudo o mais é um mundo que me ultrapassa.

Ao almoço ouvi na televisão as notícias. Especialmente as do Irão. Ainda não li nada senão as gordas dos jornais, pelo que me vou abster de impressões. Aliás, nos diários de fim-de-semana vou tentar abster-me de falar da informação e da actualidade para não confundir mais os posts que já têm dimensão alargada. Amanhã tentarei situar-me com leituras e a revistas internacionais televisivas e se conseguir, escreverei uma entrada alusiva.
Hoje foi como se nesta casa houvesse uma reconfiguração dos astros. O Nuno voltou a dedicar-se ao piano e teclados e suas potencialidades. Vai espiolhando todas as funções e esse é um processo que o motiva. Pelo meu lado, voltei ao formato de diário de fim-de-semana, contendo-me ao não escrever logo de manhã o que me passava pela cabeça. Foi uma espécie de regresso ao tempo em que o M. vinha cá a casa ter lições de piano. Por falar nisso, fui sabendo da nova vida dele, mas já há dois meses que não tenho notícias. Os outros dois miúdos, que poderiam ter interesse no piano, têm outros compromissos ao Sábado de manhã: um está na equitação o outro vai a casa, mantendo o contacto com a família.
A minha mãe está com uma constipação forte, mas lá continua a tratar dos aborrecimentos alheios, ajudando quem precisa. E vai tentando ter disponibilidade para ler Os Romanov, de Montefiore.
Com o meu pai falei há pouco uns minutos. Estava embrulhado nas notícias do Irão e rimos por causa do futebol, o que mais o emociona. Nós, os quatro filhos, sabemos que é péssima ideia ligar ao meu pai à hora do jogo. Ora, o meu irmão N., que não liga peva a futebol, ao passar no Dragão e ver as luzes acesas resolveu ligar ao pai naquele tom calmo e displicente que enerva quem está em ansiedade total. Levou uma corrida, claro. Ao contar-me, disse que me fez lembrar o Nuno ao interromper-me quando estou a escrever. Ele que é muito mais delicado comigo quando o interrompo no piano ou computadores e cede dando-me atenção. O meu pai concluiu: o Nuno é seda, tu nessas alturas és, como eu, arame farpado.
Conto ainda que nos últimos dias comecei a usar a Inteligência Artificial chinesa: DeepSeek. Tem ligeiras diferenças do ChatGPT.
Projectos
O segundo mês do ano está a terminar e hoje foi o momento de pensar que leitura se seguiria. Depois de três curtos romances no feminino, lidos a solo, vou abalançar-me na famosa autobiografia de Lawrence da Arábia: Os Sete Pilares da Sabedoria. Com oitocentas páginas é um desafio para quem lê tão pausadamente como eu. Acresce que lerei em voz alta para o Nuno, pelo que demorarei ainda mais. Além de ser preciso o encontro de duas vontades para cada momento de leitura, a dita é sempre conversada. Resumindo, vai ser empreitada para um ano inteiro. No entremeio, como é habitual, lerei a solo.
O livro foi-me dado o ano passado pelo amigo R., que me ligou no último fim-de-semana. Na Primavera se tudo correr bem, teremos a sua visita. E também a do J.A. sempre envolto no ofício da escrita. Nem contei nos diários anteriores, mas em Janeiro fomos no meio de muita chuva com o J.A. a Ançã conhecer a terra de uma das suas costelas, a propósito da qual vai editar agora novo livro. Um dia simpático quase a abrir o ano.
E foi o telefonema do R. — apesar de não termos falado em livros, mas sim do país e das diferenças de temperamento nas diferentes regiões — que me despertou para a aventura literária da revolta árabe.


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Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.
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O que escrevo está a ser publicado na plataforma Medium.