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Leitura no Medium
Esta semana a leitura sobre pintura é um pouco diferente. O post escolhido é uma defesa da arte naïf. Já sabem que o podem ler no separador Activity.
O autor conta de modo singelo um episódio em que foi considerado ingénuo, vendo subestimada a sua inteligência. Reflecte sobre o poder do puro em surpreender quem o subestima contrariando as primeiras impressões. E transpõe esta ideia para a arte naïf, tradicionalmente desvalorizada por parecer infantil, simples ou pouco sofisticada; por não seguir os padrões académicos e o realismo para ter valor. O autor apresenta a sua tela Um cão chamado Fred como símbolo da libertação do perfeccionismo e da aceitação da estética espontânea - a própria voz artística. Afasta-se das exigências de produtividade, desempenho e perfeição impostas pela sociedade actual para se focar na expressão humana, na alegria e no percurso de quem cria.
As pedras no caminho
Até o caminho do triunfo efémero é feito de pedras. É costume notar que todas as vitórias são construídas a partir de disputas, dificuldades e contrariedades. Não trago nada de novo. Registo apenas o ridículo e os desaforos a que se sujeita quem busca protagonismo de forma desenfreada, mas também de quem procura trabalhar em prol da comunidade. Quanto maior a exposição pública, maior a zombaria e descrédito. E não há objectividade nem justiça nos ataques. Quem poderia fazer a diferença ao pôr-se ao serviço da sociedade com trabalho honesto e de valor pode ser tão engolido pela desqualificação imerecida mascarada de escrutínio quanto o aspirante a vedeta de reality show, o analista político, ou o artista. Vai tudo a eito na voragem do muito democrático direito de ofender, defendido por fanáticos agressivos, cuja retórica distorce o carácter benigno da liberdade de expressão, transformando-a numa bandeira de claque de futebol acompanhada de arremesso de very light contra o adversário. Vale tudo.
Vem isto a propósito de dar por mim a observar gente caluniada e desprezada, num momento de fragilidade, e predestinar uma futura vitória, como se a adversidade fosse um passo prévio imprescindível ao sucesso.
Dia-a-dia
A fotografia é do pequeno-almoço de hoje, melhorado por ser Domingo. Mas a imagem mente, como é muito costume nas fotografias. Foi tirada por volta das oito e meia antes de nos sentarmos, mas a minha parte foi comida em dois momentos. Deixei a melancia e o doce de amêndoa — a telha -, para duas horas mais tarde. Desde que fiz a cirurgia bariátrica em Dezembro de 2021 nunca mais fiquei bem do sistema digestivo. Além de ter de comer porções pequenas, o que não é indesejável, noto em mim nova característica que vai contra a minha natureza e educação: passei a ter intolerâncias alimentares. Sempre me fez confusão deitar alimentos ao lixo; o que nos últimos anos me faz guardar os restos para a refeição seguinte. Comecei a ganhar aversões, como é o caso das bananas que foram durante alguns anos o meu pequeno-almoço e agora não tolero. Reduzi muito os prazeres da mesa. Sabe-me bem peixe, ovos, pão com queijo, bolachas e alguma fruta.
A propósito, na quinta-feira estive mais de meia hora a espalhar o almoço no prato para no fim compensar com uma maçã assada. Estava no habitual almoço semanal com a minha mãe perto do local de trabalho. Ao fim da tarde passei em casa do meu pai para ver como se sentia e levei uma bengala, comprada numa loja de produtos ortopédicos, no intuito de o incentivar a caminhadas regulares. Vaidoso como é, respondeu-me que tem mais duas no armário e a usará quando fizer cem anos. O certo é que anda lesto nos primeiros cem ou duzentos metros, mas se esticar o percurso começa a ressentir-se do fémur partido há um par de anos. A bengala daria um apoio, se não fosse teimoso.
E para concluir confesso um resquício da meninice: fico muito contente quando termino um livro e começo outro. Todos falam do prazer da leitura em si, dos mundos que se abrem durante o dia ou dias em que lemos. Refiro-me a outra coisa: o prazer do dever cumprido, a pequena vitória. A que engata naquele momento de entusiasmo inicial em que se elege o próximo livro a ler e o momento em que se termina a leitura, ao dobrar a última página. Fim. Passou na peneira da mioleira e, se fizer sentido permanecer, ficará o que é de ficar. Os restos mortais serão depositados na estante, por onde os olhos passarão num qualquer dia futuro como memória. Em princípio, porque a própria leitura pode ser esquecida. Além do prazer de ler, há um ritual associado que identifica cada um. Pode ser mais pretensioso. Do estilo: que magnífico sou por ter abocanhado estas centenas de páginas, agora minhas e passíveis de ser abusadas. Já me posso exibir. Ou, pelo contrário, sem peneiras. Do género: ponto final, dever cumprido.
Terminei a candura de Valter Hugo Mãe e entrei na profundidade de Gonçalo M. Tavares, como Um Homem: Klaus Klump. Há quem não encaixe a possibilidade de ler com gosto registos tão diferentes. Em regra, gente obtusa, que se orienta mais por etiqueta do que pela substância. Adiante. Valter Hugo Mãe é um apaixonado por bibliotecas, Gonçalo M. Tavares é a biblioteca em si. A obra que já criou e está a criar é a ambição do aspirante a escritor sério. Entrar no romance que comecei a ler hoje é ser cortada pela lâmina da crueza. Economiza nas palavras, em registo que na música chamaríamos experimental, mas não na lucidez das ideias. Quando terminar este, vou comprar o romance Jerusalém, que tenciono ler nos próximos meses.

Obrigada por terem lido. Boa semana.
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.