Diário 26 de Abril de 2026

Mini preâmbulo
 

Estou com preguiça de escrever e hoje vou deixar seguir o rascunho como texto final. De que quero falar neste diário? Hoje não há resumo sobre pintura. Falarei do post de uma autora aqui do Medium acerca do poder efectivo dos multimilionários das tecnológicas, dos discursos das comemorações do 25 de Abril, da incompreensão do talento com génio ou inovação e do dia-a-dia deste fim-de-semana.

Poder global dos multimilionários

Uma autora que acompanho aqui no Medium, e como sempre podem ler no separador Activity, escreveu sobre o novo feudalismo assente num grupo restrito de multimilionários da área da tecnologia que detém o poder. O poder global deixou de ter base territorial, isto é, deixou o estado para passar ao domínio da esfera privada. O Pentágono, exércitos e, para sua segurança, as nações dependem de satélites privados, redes, firewalls e sistemas de comunicação, tornando-se inquilinas de multimilionários que controlam as comunicações e os sistemas de comando. Sem tanques nem autoritarismos tradicionais, as populações abrem mão das liberdades em troca de segurança e estabilidade financeira. A autora assinala com toda a razão o facto desta visão lúcida ser ridicularizada e conotada com as teorias da conspiração e, por isso, com a loucura.

As comemorações do 25 de Abril

Não me recordo da última vez que ouvi os discursos das cerimónias comemorativas da Revolução de 25 de Abril de 1974. Ontem ouvi-os com alguma distracção. Pude constatar o ponto de ebulição da nação política. Há 12 anos, quando comecei a escrever a Ana Paula, a direita portuguesa ainda não estava na moda. Disso dei nota no meu romance de estreia (e filho único). A direita precisava de aprender a afirmar-se. Aprendeu da pior forma. Tudo mudou em 12 anos. Hoje, o que era dito em surdina pelas pessoas de direita, com o temor do discurso de esquerda ainda dominante na comunicação social e redes digitais, hoje, repito, passou a discurso oficial e atraente para a maioria do eleitorado. As ondas das modas são assim. O país ondula da direita para a esquerda ao tom do canto da sereia e das influências globais. E isso reflecte-se desde os discursos no Parlamento até às conversas familiares e sociais, às escolhas editoriais. Tudo passa pelo crivo da moda.

Quanto às prelecções que ouvi digo apenas que à primeira vista pensei o mesmo que o Presidente de República, tal como quando ouvi os debates das últimas eleições para a Câmara Municipal do Porto: isto é a democracia a funcionar. Mas convém não nos distrairmos com banalidades. À esquerda gostei mais de ouvir Rui Tavares do Livre e Inês Sousa Real do PAN do que o Bloco de Esquerda e o PC. Simplesmente por erro de gatilho: acusar de agressividade sendo agressivo não é eficaz. O importante é fazer compreender que a actual direita portuguesa, desde a radical do Chega, até à aparentemente moderada do PSD, passando pela cínica e interesseira da Iniciativa Liberal, usa constantemente a desonestidade retórica. Convencidos que têm a faca e o queijo na mão e que Portugal voltou a ser a sua coutada. Não estão ao serviço dos portugueses, mas ao serviço dos interesses de poucos portugueses: dos mais espertalhaços.

A incompreensão do talento

São mais do que muitos os casos de inanidades que se foram dizendo acerca de grandes escritores antes da consagração. Para críticos e editores, John Le Carré “não tem futuro nenhum”, o prémio Nobel Kipling “não sabe usar a língua inglesa”, Proust era entediante, Orwell não venderia “histórias de animais”, a Melville perguntaram se Moby Dick “tem mesmo de ser uma baleia?”

Se passarmos para Portugal, desde as autoras malquistas com obras queimadas ou censuradas, tidas por “desavergonhadas” como Judith Teixeira e Natália Correia, a autores ignorados décadas a fio tomados por excêntricos e transgressores como Fernando Pessoa e José Saramago.

O mais curioso é continuarmos a ouvir e ler gente capaz de assinalar casos de injustiça de falta de reconhecimento quando passados muitos anos da consagração, mas a continuar a rotular com julgamentos primários de tão obtusos e absoluto preconceito escritores e escritoras de extraordinário talento. E ainda a dar conselhos, como se eles próprios fossem referência. Sem ponta, não digo de modéstia, mas da mais elementar capacidade de auto-crítica. Aliás, com franqueza: falta de vergonha na cara.

Faz-me sempre lembrar a minha adolescência. Na televisão havia um qualquer programa cujo nome não me lembro em que se escolhia entre talentos: Dulce Pontes e Isabel Campelo. A minha melhor amiga era fã de Isabel Campelo. Eu dizia-lhe qualquer coisa do género: é da água para o vinho. A Dulce Pontes é um monumento de voz, ela tem domínio sobre o que faz, a Isabel Campelo é só mais uma cantora. Sem desprimor para a cantora, há muito quem continue a apostar nas Isabéis Campelo e a não reconhecer o valor imenso das Dulces Pontes. É mais difícil compreender o brilho real. Ofusca. Assusta. Mete medo por não ser habitual. O erro não está com certeza nas Dulces Pontes por mais conselhos lhes dêem para se adequarem ao aceite e vendável.

Por tudo isto é para mim dado adquirido não valorizar rótulos de suposta qualidade na aparência e na audiência fácil, e condescender com quem não vê arte onde realmente existe. Mesmo fazendo de conta que não acuso o toque. As mágoas são combustível. Quanto mais incompreendida, mais certa do caminho.

Dia-a-dia

 
 
 

 

Hoje de manhã, logo pela fresca, fomos ao Parque da Cidade. Estava bastante povoado. O usual. É o eterno retorno ao lugar onde uns correm, outros aninham-se em grupos de confraternização, caminham lestos, empurram carros com bebés, pedalam triciclos e bicicletas, jogam à bola, correm atrás dos cães pela trela, conversam amenamente. Desta vez procurei no chão da zona dos eucaliptos ramos ainda verdes para trazer para casa. Encontrei o que queria.

 

 

À chegada a casa tirei algumas folhas e bagas de eucalipto, fervi-as na chaleira eléctrica e passei o vapor em toda a casa, que ficou a cheirar a vida fresca e alegre. Ao almoço pus a chaleira aberta na mesa para podermos gozar da maravilha do cheiro. A seguir levei-a para o quarto onde estivemos a ouvir o Leste/Oeste de Nuno Rogeiro.

Ontem foi dia de almoçarmos aqui na nossa rua, no restaurante Destino, com o meu primo J.A. Creio que o menu não convenceu nenhum dos três, mas esteve-se bem, em boa companhia e conversa, prolongada depois em casa. Falou-se do real: família, amigos, lugares, ideias, gostos, escrita e livros, e de passagem acerca do digital.

Ontem jantámos cabrito mandado vir pela primeira vez do restaurante O Pote Velho. Uma verdadeira delícia, a contrastar com o almoço. Fiquei com pena. Da próxima vez que o J.A. cá vier espero lembrar-me de encomendar. Ficaria muito melhor almoçado.

Enquanto corrijo os erros do presente post, o Nuno toca piano. Nem sei o quê. Creio que música tradicional portuguesa, mas sou péssima a identificar. Está a precisar de tocar mais. Está ali a dar umas fífias, próprias de quem tem tocado pouco. Agora que passou uma boa meia hora, está a atinar mais com as teclas. A terminar sinto o aroma a eucalipto e o Nuno dá-me o Porto Sentido e a Paixão (Segundo Nicolau da Viola), de Rui Veloso e Carlos Tê.

Respira-se bem nesta casa. Em paz e liberdade.

 

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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