Diário 24 de Maio de 2026

A leitura no Medium

O artigo que deu origem ao resumo do parágrafo seguinte está disponível, como costume, no separador Activity. Não esperem excitação e historinha com intriga palpitante, não as vão ter.

Esta semana debruço-me no Romantismo, que o autor do post lido diz ter ainda fortes reflexos na cultura dos dias de hoje. O movimento artístico que põe a ênfase na imaginação e na experiência emocional do artista como fontes de criação. O autor exemplifica com várias obras, entre elas: o retrato do desespero humano em A Balsa da Medusa, de Théodore Géricault, a vulnerabilidade humana diante de uma tempestade natural furiosa, em Aníbal e Seus Homens Cruzando os Alpes, de J. M. W. Turner, o fulgor e os efeitos mutáveis do clima em A Carroça de Feno, de John Constable, e o muito na moda O Caminhante sobre o Mar de Névoa, de Caspar David Friedrich, com a sua paisagem solitária e sombria de quem busca na natureza significado pessoal. É a valorização da individualidade e da emoção em vez da razão do Neoclassicismo e do Iluminismo (e também do Realismo). A arte como espelho da mente humana, da consciência.

O que me ocupa a mente

Os dias e os momentos são variáveis mas é recorrente a sensação de que a injustiça prevalece face à cegueira generalizada. Se é verdade que o peso do nosso olhar e daquilo que valorizamos é determinante no estado de espírito, não é menos certo que há factos concretos não passíveis de subjectivação.

A mentira e a falsidade não deixam de existir porque condescendemos com traições. O embuste e o uso abusivo de palavras como amor e amizade não deixam de ser imundos por querermos paz de espírito. Os mortos e estropiados de uma guerra não ressuscitam nem se curam por abstrairmos dos horrores do mundo enquanto por vaidade debitamos vacuidades a propósito de uma citação literária ou exibimos uma fotografia a fazer de conta que nos exercitamos no ginásio. Nem quando peroramos na televisão ou nas redes sociais sobre tricas políticas enchendo os ecrãs de soberba informativa. Ou enchemos páginas de jornais, revistas e redes sociais com erudição da treta como forma de masturbação cultural balofa, desconhecendo o significado concreto das palavras enunciadas.

A razão

Não tenho complacência pelo culto do obscurantismo. Não suporto a pose. Andar à cata de densidade fictícia para inchar o ego é de um ridículo atroz. Revela não raras vezes pobreza de espírito e necessidade de afirmação. Daí o culto e defesa dos abusos e perversidade ainda que disfarçado de boas palavras e falsos elogios. Daí a defesa do direito à ofensa. Próprio de quem considera a simplicidade e os bons sentimentos mentiras boas para entrar em jogos sujos de poder com a saída airosa do cinismo. Com a justificação básica de que a sombra é própria da condição humana. Justificação perfeita para quem despreza por cobiça a beleza e a simplicidade. Quando verdadeiras, testemunhos de alegria. Quando artificiais, provas de mau carácter.

Se ao belo repulsa a fealdade, ao reles repulsa a beleza verdadeira dos bons sentimentos. Considera-a sinal de falsidade. É a inversão total da realidade do ponto de vista de quem tem uma visão corrupta do mundo. E considera a real falsidade suprema inteligência ou mesmo sinceridade. É a distorção total da verdade a pretexto da liberdade de expressão e da liberdade artística. A razão e a clarividência estão nos antípodas desta perversidade.

São escolhas. Cada um faz a sua. Não pode é escolher explorar o prostíbulo, ao mesmo tempo que espera ser acolhido pela ternura genuína.

O dia-a-dia

Na sexta-feira tivemos a visita de um potencial comprador do apartamento. Eu estava a trabalhar, foi o Nuno que o recebeu. Um homem só de perguntas objectivas. Alguém comentou comigo: às tantas um daqueles maridos que decide o importante sozinho. Contrapus: ainda existe disso? Não me passa pela cabeça que ainda existam casais em que a decisão de compra de casa seja tomada apenas por um deles, no caso o homem. Supus coisa diferente: talvez um investidor, atento o pragmatismo das perguntas.

À noite o Nuno surpreendeu-me. Estávamos na sala a conversar, depois do jantar. E foi, como há meses não acontecia, buscar a guitarra. Tocou e cantou. Cantámos. O reportório não é vasto, mas é quanto baste para me alegrar. As mesmas de sempre. Começou com a brincadeira, que adorámos, da Cinderela de Carlos Paião. Depois a Paixão, de Rui Veloso, o Hotel Califórnia, o Everybody Hurts, a Pedra Filosofal. Por aí. Desta vez pedi, como antigamente, que improvisasse uns blues. Gosto de o ver solto, a fazer palhaçada, e deliro vê-lo perder a noção do ridículo. Soltar-se completamente e divertir-se com gosto pleno. Inventa umas letras alusivas ao dia e a gozar connosco. E há lá coisa melhor do que rirmos das nossas pequenas misérias. Recuei no tempo e na paixão. Acho que isto do amor é como uma cana de pesca: um sentimento que vamos pescar à memória dos momentos mais felizes e fazemos renascer a cada alegria cúmplice. Um afecto que se replica uma e outra vez pela vida fora e acrescenta camadas de instantes plenos de prazer no vasto tempo das rotinas mais áridas.

Se recuar mais, à mais tenra infância, lembro-me do meu tio G., e como cantávamos juntos a Canção do Beijinho, do Herman José, e o Sobe, Sobe Balão Sobe, da Manuela Bravo. Às vezes penso que escolhi o Nuno por ter parecenças com o tio G., que fez as vezes de meu pai e de quem guardo as mais ternas memórias de criança pequena pelo imenso mimo que me deu. A inteligência lógica, técnica e pragmática, o estar presente e valorizar a vida familiar, o saber tocar piano, o modo terno de ser, a boa-disposição e riso solto. Em tudo isto se assemelham.

O meu percurso de vida e as memórias têm um lado sombra? Claro que tem. Conheço-o. Estou consciente dele, simplesmente não o valorizo. Se quisesse contar uma história triste ou mais complexa também poderia contar. Simplesmente não a anuncio nem exploro a psicanálise e o falso romantismo para me mostrar sofisticada e intelectualmente estimulante. Para me fazer produto vendável e obter audiência. Nem consumo itens culturais para satisfazer caprichos de ego doentio e vaidoso. Hoje a obscuridade vende mais do que os sorrisos felizes e artificiais das princesas das casas reais. O engodo e falsidade são os mesmos. Seria tão estúpido e contraproducente cultivar a infelicidade ou a perversidade como exibir falso júbilo e simpatia postiça.

Prefiro o cru e singelo, o contentamento trivial do dia-a-dia. Mantenho-me uma criança aos 52 anos e sabe-me pela vida viver com um homem de mente e coração sãos. Vê-lo sorrir é como uma borracha que apaga a maldade e a falsidade do mundo exterior. Um milagre. A alegria sem necessidade de pose.

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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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