Pintura Como sempre podem ler o artigo que deu origem ao breve resumo-comentário sobre pintura no separador Activity. Desta vez, um dos quadros em análise pelo autor, que leio com apreço e agradecida por aprender, é O Quarto Azul, de 1923, de Suzanne Valadon. Uma espécie de resposta subversiva à tela A Odalisca, de 1814, de Ingres e, em geral, ao tema popular na arte que tradicionalmente representava uma criada ou concubina coquete nua. Exótica, reclinada em divãs de harém; em suma: disponível (o autor do post não faz este comentário). Vanguardista, Suzanne Valadon pintou a sua odalisca gorda estirada de modo negligente no canapé dos aposentos privados em tons de azul ultramarino. Vestida com um pijama informal, confiante e descontraída a fumar um cigarro. Sem a pose dos cachimbos exóticos. Sem jóias e leque de pavão aos pés. Substituídos por livros. É o retrato de uma mulher no seu espaço, e não um objecto sexual passivo. Além de narrar sucintamente a vida da artista e descrever outras telas, o autor conta como a pintora pós-impressionista nos deu, através dos seus retratos, uma perspectiva feminina directa, não idealizada, e como teve influência em pintoras subsequentes. A asfixia no espaço público Quem tem interesses próprios e vive à margem das tricas do espaço mediático estranha quem argumenta com base no diz-que-disse das figuras em palco. Percebe que é pura perda de tempo por quase tudo se resumir a negócio e feira de vaidades. O drama está nisto: sem pensamento próprio por falta de reflexão e hábitos de exame de consciência, muitos dos que peroram no espaço público replicam ou reagem às teorias da treta com iguais teorias da treta, não evoluindo. É um círculo fechado e bafiento apesar da aparência de sofisticação dada pela visibilidade das figuras do mundo da informação, do espectáculo e da cultura. Feito de vultos que nunca chegam a ter estatura, dada a falta de grandeza de carácter, e de aspirantes a vedetas, na maioria dos casos medíocres, viciados no bolor das referências e elogios e condenações oportunistas. E de uma massa anónima consumidora destes fungos tóxicos. Todos a replicarem os mesmos clichés e contra-clichés, as mesmas conversas e críticas da treta, por estarem sempre sintonizados na mediatização, sem arejo. O ar puro só se encontra com distância das tricas do espaço público. Sensibilidade e bom gosto Conheço alguém que prima pelo bom gosto. Nos versos que escreve, nas mais simples e banais mensagens e e-mails que envia, nas imagens que escolhe, na delicadeza com que ouve, na atitude receptiva e respeitosa do trato daqueles com quem trabalha. Conheço-o há vinte anos e foi sempre uma presença discreta, nunca invasiva. Tem traços de artista no melhor dos sentidos. A sensibilidade não nasce da condição económica ou social. Vem com a índole. Não se exibe, respira-se. Está na forma como se conversa, como se está à mesa, como se sorri. Como se vive e respeita os outros. Como se está atento e receptivo ao mundo. E no modo natural de se expressar devolvendo a beleza que o universo dá. Por contraste, e desculpem estragar este momento de alívio e bem-estar, defino o mau gosto como o acinte gratuito e não sentido, a ofensa com graçolas venenosas, a falsidade em geral e um pingente pejado de diamantes de fancaria, um cachucho no dedo, uma chapola dourada assinalar uma qualquer efeméride como uma passagem de ano, um laçarote dourado a prender uma ramalhoça de rosas vermelhas para assinalar um aniversário — quando fiz 15 anos um amigo deu-me uma rosa, e foi o cabo dos trabalhos disfarçar que não era flor que eu estimasse por a achar pretensiosa. A história da Rainha Santa Isabel, e do então muito vulgarizado nas famílias reais europeias milagre das rosas, nunca me convenceu. Só em adulta fiz as pazes com as rosas, tratando-as como flores comuns. Apesar de continuar a preferir, como a minha avó, cestas de flores campestres. Ontem, hoje e as rolas-da-Índia Ontem foi dia de almoçar em casa da minha mãe. Como sou mimada, tive direito a um pequeno tacho de arroz de polvo, enquanto a minha mãe e o Nuno comeram um estufado de carne de vaca com batatas assadas. E fiz qualquer coisa de útil, o que sempre me espanta. Ajudei a minha mãe a entregar o IRS. Haja oportunidade de fazer qualquer coisa que valha a pena. Antes do almoço fomos ao Froiz comprar o gel de banho Confiança, desta vez de alfazema, para experimentar, um pacote de gengibre em cubos e os ingredientes para o jantar de Domingo. Fizemos parte do percurso de regresso a pé para esticar as pernas e apanhar sol, e hoje à tarde também já demos um giro pelas redondezas. A manhã de hoje foi doce. Acordámos bem-dispostos e imaginem que ao levantar olhei pela janela e lembrei-me do casal de rolas que costumava aparecer. Não é que passada meia hora surgem barulhentas? A cantar primeiro de um modo não característico (o que me fez duvidar), antes de começarem com o canto trissilábico. Desta vez não tive dúvidas de que eram rolas-da-Índia. Aproximaram-se dos ramos mais próximos da varanda e pude ver o traço escuro que têm na base de trás do pescoço. Fiquei com vontade de marcar mais um par de dias no parque de campismo, onde há muitas destas rolas-turcas. Ainda a propósito dos bicharocos, confesso que estou convencida que os pássaros me respondem, isto é, falam comigo. Sei, parece tolice. Será, mas o certo é que comungo bem o mundo com os bichos. De manhã tinha-me proposto escrever, mas só fiz cera. À hora de almoço o Nuno pôs música animada e não resisti a dançarmos Rumba e Cancã. Nada como perder a vergonha da falta de coordenação e, ao menos na intimidade, dançar com alegria. O Nuno está feliz e isso é meio caminho para eu também estar contente. E o mais sadio disto é que sei que a inversa é também verdadeira. À tarde, depois de chegarmos do pequeno passeio, dormimos. Só ao fim da tarde vim escrever. Ontem e hoje a carta do Tarot que me saiu para o dia foi o nove de copas, que é carta dos desejos concretizados. Para a escrita saíram cartas menos positivas, que já não me lembro. É normal, talvez não tivesse que descrever os meus dias. Talvez devesse limitar-me a vivê-los em pleno. Mas contar a vida não fez parte da arte, desde que o mundo é mundo? 

