Diário 18 de Junho de 2026

- a felicidade de desaprender -

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Leitura no Medium

Hoje o post escolhido para resumir é mais singelo do que habitual. E não há qualquer intenção de menorizar. Já devem conhecer o meu gosto pela simplicidade. Tal como já saberão que os artigos que dão origem ao início destes meus diários de fim-de-semana estão sempre afixados no separador Activity (e os do primeiro ano e meio estão na Reading List).

O autor do texto seleccionado propõe-se falar da diferença entre pintor e fotógrafo e a forma como o segundo pode aprender com o primeiro. Considera que o fotógrafo parte da realidade, subtraindo o que não é importante, enquanto o pintor cria a cena somando, decidindo a posição dos elementos, a iluminação e as cores. Segundo o autor, o fotógrafo estaria limitado, não podendo inventar a luz, precisaria antes de encontrá-la e aproveitá-la. O pintor poderia compor a atmosfera de iluminação da obra através do jogo de luz e sombras. Acrescenta: por inspiração, o que o fotógrafo pode aprender com o pintor? A usar a luz e sombra para criar drama — profundidade e impacto. A compor a imagem com geometria e equilíbrio. A utilizar conscientemente as cores de modo a criar uma atmosfera emocional. E a fazê-lo de uma forma prazerosa.

Desaprender o galope da soberba

Sinto regressão deliberada no que é suposto ter aprendido. De quantas opiniões ou mesmo convicções fui depositária, agora obtusas ao meu olhar mais atento? Inúmeras. Mais: vejo-as na moda, agora que não fazem sentido. Mesmo o meu modo de estar mudou. Ficou mais próximo da gentinha e bastante mais distante do pedigree balofo que tantos sustentam ou mimetizam uma vida inteira. Em vários apontamentos do dia-a-dia revejo-me mais na ralé do que nos privilegiados. Penso e sinto de um modo muito diferente do que cogitava e experimentava na adolescência ou na casa dos vinte. É como viver duas vidas numa. E apesar do muito que sofri só posso estar grata por ter atravessado importantes provações para me tornar consciente da realidade para lá da superficialidade trazida pelas facilidades e pela ambição e soberba galopantes.

Escolher uma posição no mundo que me afaste da colheita fácil de tagatés e benesses, e preferir ser desconsiderada e desprezada a ir contra o que acredito ser o mais correcto, dá-me uma força custosa de explicar. Não se percebe. Na maioria dos casos é tomada por deficiência, pura incapacidade de agir segundo os cânones por falta de inteligência ou juízo. Noutros casos mais injustos é tomada por mania e agressividade. E pior, por falso virtuosismo. É proibido tentar agir recto. O preconceito não permite que se perceba a dor inerente a tentar fazer o que é certo. A menos que seja o bem dos catálogos de exibição artificial. O preço que se paga por não exibir falsa bondade e falso valor não é de fácil compreensão.

É muito mais fácil desdenhar do que tentar entender. E continuar a ofender quem menos merece. Em nome do egoísmo e divertimento à custa do outro. E chamando humanidade ao prazer de fazer mal. A natural imperfeição humana passou de evidência a desejável prova de inteligência e sofisticação. É civilizadíssimo ser crápula. Sobretudo se acompanhado da arte da dissimulação para colher os louros do falso mérito. Viver de ofensas e farsas dá sainete. Tentar agir de forma correcta é deselegante, estraga o quadro atraente de requinte.

Dia-a-dia

A semana que passou foi marcada pela morte. E preocupa-me o meu pai pela perda que teve.

Ontem voltei a almoçar junto do local de trabalho e fui novamente à Bertrand. Trouxe comigo o livro de Valter Hugo Mãe, Contos de Cães e Maus Lobos, anunciado como um livro para todas as idades. Escolhi-o um pouco por revanche. Cercam-me várias pessoas que odeiam este autor e apesar de ter em casa Homens imprudentemente poéticos, creio que não o li. Não o afirmo com convicção por já me ter acontecido esquecer livros lidos em épocas de apagão da memória. A vingança é uma espécie de afirmação da sensibilidade. Não raro os ódios definem mais os limites de quem detesta do que dos alvos da antipatia. Esta manhã na cama li em voz alta ao Nuno os três primeiros contos do livro comprado e comovi-me com todos eles. Apela ao sentimento? Sim, é inegável. Pleno de metáforas e construído em imagens poéticas. Li com gosto. E vou continuar a ler os outros contos, tal como lerei ou relerei Os homens imprudentemente poéticos.

Esta tarde fomos à loja Ludimusic comprar um gravador áudio portátil profissional para o Nuno. Estou desejosa que recomece a conseguir gravar as composições e arranjos que faz. Por razões que nunca percebi bem nos últimos tempos deixou de o fazer e sei o quão importante é para ele conseguir produzir. Neste momento está a estudar o aparelho para aprender a funcionar com ele. Fico a torcer para que o presente de aniversário traga alegria a esta casa.

De resto, o que posso contar sobre os últimos dias? Ando em busca de ânimo, como tantas vezes acontece. Cada vez que espigo, aparece uma contrariedade a pôr-me para baixo. Ontem ao chegar a casa estive a arrumá-la para sentir o gosto de a percorrer com tudo harmonioso. Hoje dobrei o lençol da cama como já não fazia há meses. Preciso de mínimos de beleza e sintonia para encontrar alento.

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Obrigada por terem lido. Bom Domingo.

O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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