Diário 15 de Março de 2026

Reli duas publicações sobre pintura e conto-vos sumariamente o que aprendi. Como sempre podem ler os textos originais na Reading List.


No primeiro post a pintora narra como explicou a uma aluna a forma de captar pessoas em movimento e dá três exemplos de pinturas suas. A primeira, uma aguarela que retrata o movimento acelerado de três executivos retendo o ângulo das pernas e cabeça e balanço das pastas. Na segunda mais contemplativa de uma criança concentrada em acertar nos pedais da bicicleta para manter o equilíbrio, onde os olhos baixos nos pedais definem o movimento. Ao mesmo tempo que um adulto se dobra pelas ancas com a coluna curvada para ajudar outra criança mais pequena a começar a rodar na sua bicicleta. A postura curvada e as pernas um pouco flectidas dão o movimento. Por fim, na terceira pintura, um casal sentado no murete de um lago do jardim indica um movimento de comunicação. O rapaz está de olhos postos no telemóvel e a rapariga recosta-se descontraída nos braços. A autora ensina que captar os pormenores da postura e definir o tipo de movimento são essenciais para a segurança com que se arrisca o esboço ou desenho.


Comento apenas que ontem arrepiei-me ao contar esta leitura acerca de captar o movimento a uma pessoa próxima. É o tipo de pequenas coisas que me comove, me motiva e entusiasma. Aqui há verdade. Tudo o que é frívolo fica distante.


No segundo artigo o autor fala-nos da pintura Provérbios Flamengos, de 1559, de Pieter Bruegel. Ensina que se trata de um divertido e nada moralista cortejo de peculiaridades humanas e como o pintor se afastou do registo da época saboreando o cómico. Ao compilar na tela a recriação de 126 expressões idiomáticas da tradição flamenga. À semelhança de Shakespeare que usou frases antigas, como o nem tudo o que brilha é ouro na peça Mercador de Veneza, de 1596. Entre muitas outras, chama a atenção para a cena que capta um letreiro vermelho com a lua crescente, a placa da típica taberna pendurada numa rua principal, representando o centro da vila, o ponto de encontro de todos. E um homem acima que está a urinar no letreiro: a mijar para a lua. Um provérbio holandês que significa: perder tempo com algo fútil. Noutra cena está representada a expressão lançar rosas aos porcos. Assinala também o pormenor de uma figura curvada que desliza no globo já da tradição da pintura holandesa, para evocar o provérbio: ter de se curvar para seguir em frente no mundo, ou seja, recorrer à desonestidade. Uma tela que é uma verdadeira enciclopédia da sabedoria popular.


Fui apresentada a Bruegel em criança nos puzzles das grandes obras dos mestres. E chamaram-me a atenção para o cómico dos pormenores das múltiplas cenas muito povoadas das suas pinturas. Não imaginaria que quarenta anos depois ainda estivesse a aprender o significado de muitas delas. A vida a construir-se paulatinamente. Aquilo a que chamo uma vida rica, com sentido, longe da superficialidade.


Há momentos em que penso a razão da tendência e do gosto pelas artes plásticas, a música e a dedicação à escrita. Cresci numa casa onde havia quadros pintados pelos meus avós maternos. Da avó apenas os quadros pintados no colégio, do avô pinturas e desenhos vários. Numa casa com um velhíssimo piano que ambos tocavam. Tal como um dos meus tios. Esclareceram-me novita que antigamente a formação nos colégios passava pela educação artística. Percebi cedo que era uma sorte que tocava a poucos. Aprendi que ser educada era também possuir sensibilidade. E compreendo este legado como uma bênção que devo agradecer e respeitar. Não sabendo desenhar, pintar ou tocar um instrumento, limito-me a escrever por várias razões e a mais nobre delas como forma de reconhecimento pela herança genética. E de admiração.


Quanto à imagem que associo ao presente post, digo apenas que não me fico pelas expectáveis referências às obras mencionadas, essas podem ser apreciadas nos posts originais dos autores que tive o prazer de ler. Limito-me a juntar uma gerada pelo ChatGPT a meu pedido e que representa a simplicidade do dia de ontem.


 



Imagem gerada pelo ChatGPT a meu pedido.


 


Hoje fico-me por aqui, sem crónica do dia-a-dia nem pensamentos casuais.


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.

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