Aveiro.
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Podia ser preâmbulo, mas saiu deambulação.
Na expressão muito usada pelo nosso antigo Primeiro-Ministro: “vamo lá ver”. Nem pensem que escapam ao relato de fim-de-semana.
Bem vistas as coisas, o enfado que provoco aos enjoados, que não suportam relatos autobiográficos a menos que se encaixem em padrõezitos e catálogos, pode revelar singularidades mais óbvias como a cobiça dissimulada ou a demonstração de interesse falsa, por ser superficial.
As pessoas cinzentas, tais quais são, maçam. É mais excitante inventar um mexerico para dar à língua e dividir um mundo entre brancos e pretos ou simular cambiantes forçadas. Na boa linha da ladainha literária de que a felicidade, ou bom carácter, ou tão só a banalidade, não dão boas histórias nem personagens.
Quem sabe não devesse inventar ou escarafunchar um traço de pimenta de vida. Um defeito escabroso. Uma ambição recôndita. Uma traição. Uma paixão escondida. Um ódio de morte. Esses sentimentos de que todos padecemos e supostamente dão boas e vendáveis histórias. Tornam-nos humanos, dizem os lugares-comuns dos tratados de sapiência.
Já o esforço por ser uma pessoa normal para driblar a loucura é risível. Coisa a banir para ser levado a sério pelos espertos literatos que pululam o espaço público. Peritos que são em psicologia de algibeira.
Mas que é isto? Onde já vamos? Ia só anunciar que este não vai ser um diário em formato normal. Normal, isto é, nos termos em que o faço habitualmente, que não são muito exemplares. Mas hoje decaio um pouco mais. Sempre na vanguarda da decadência. Já sabem que para isso podem contar comigo. Firme e hirta. Sem pestanejar. Avante, camaradas.
Fugir da rotina digital
Li um post aqui do Medium com sugestões para nos afastarmos da obsessão digital. Desenhar, montar diários com colagens de objectos do dia-a-dia, ou ler livros, ou enfiar missangas, tudo serve para manter a sanidade mental. Nos últimos anos reparei na necessidade de refúgio em actividades sãs para repor a normalidade de várias pessoas com quem me cruzo no mundo digital, escapando da compulsão pelo consumo voraz da (des)informação e entretenimento dos meios de comunicação social e das redes sociais.
A necessidade de fuga da realidade adversa não é nova. Reconheço-a de períodos anteriores à era digital. Sempre houve pessoas autónomas, com interesses próprios, que não ficavam presas bovinamente a comentar a actualidade política e futebolística ou enredadas nas tricas e polémicas do espaço público. Ou a aderir a diversões da moda, quaisquer que sejam: seguir as recomendações gastronómicas, literárias ou de viagens.
Na verdade, algumas das sugestões de distracção do mundo digital correspondem elas mesmas a tendências de época. Em regra, recrudescem e desaparecem como as marés. Género de terapia psiquiátrica ou de ocupação da terceira idade.
São benignas. Correspondem ao barracão das ferramentas e da jardinagem do casal de meia-idade instalado ou adormecido numa vida sem sobressaltos. Se quisesse ser má diria: é uma espécie de mendicidade de “toma lá o antidepressivo e enfia umas missangas ou lê o romance que anunciaram no jornal ou rede social de referência, e não digas que vais daqui”. Sente-te irmanado com os teus pares. Normalizado.
Em suma: ou estupidificamos no ritmo insano da actualidade dos meios de comunicação social e redes sociais, ou aparvalhamos com os trabalhos manuais e intelectuais terapêuticos ou de ocupação dos tempos livres.
O fim-de-semana
Na sexta à noite fui jantar ao restaurante Destino que fica a menos de cem metros de casa. Comi robalo grelhado. Ah, e agora me lembro que já tinha feito um diário rápido de Sábado. O que não desenvolvi?
O perfume que comprámos para o Nuno foi o Baldessarini. Está a acabar o frasco que lhe dei há dois anos. Usa perfume diariamente e eu, ao fim de anos a fio de esquisitice, aderi ao hábito e, nos últimos anos, também ponho perfume todas as manhãs, depois do chuveiro e de me vestir. A escolha do meu pingente de lápis-lazúli deveu-se a ter descoberto através das leituras dos diários de há dois anos que tinha dado essa pedra à S. e à T. Achei que também me devia mimar. E, afinal, havia confundido com a ametista que comprei há dois meses.
Terminei o primeiro tomo do romance passado no dia 18 de Novembro, que se repete todos os dias para Tara, mas não para o marido Thomas. Como sempre acontece quando estou impressionável, fiz uma associação entre ideias que racionalmente reconheço diferentes.
A narradora, a páginas tantas, diz que o marido é um fantasma que se acha pessoa — passa leve pelo tempo por não ter consciência de que o dia é sempre o mesmo -, e ela um monstro que consome o dia. A ilustrar uma bela passagem com um alho-porro que arranca da terra e deixa de lá estar no dia seguinte: a prova. E o esvaziar das prateleiras dos supermercados dos itens por si consumidos nos dias anteriores, apesar de ser sempre dia 18 de Novembro para os demais.
É um engenho muito bem construído o de Solvej Balle, ainda que não o tomemos como metáfora para a disrupção do tempo e das questões ambientais, vale por si.
A associação que fiz prende-se com a ideia que me ocorreu na véspera de terminar a leitura. Por vezes, sinto que em vez de criar, demulo. Ao longo da vida senti muitas vezes que não queria destruir as certezas e segurança dos outros, quando me era evidente que estavam errados, desconhecendo a verdade. É muito provável que por isso escreva com paninhos quentes. Sabendo que uso expressões inesperadas e ideias que põem em causa o conservadorismo, sem o afrontar. Não os quero assustar.
A escolha de Italo Calvino para leitura da próxima semana deve-se à associação ao que vou escrevendo. É-me natural reflectir sobre o acto de escrever. Assim, além da tríade feminina Virginia Woolf, Natalia Ginzburg e Clarice Lispector, cada uma por razões diferentes — fluidez, contenção e coragem -, interessa-me Italo Calvino, pródigo na metalinguagem.
Curiosamente, na sequência de movimentos de Sábado, nas actividades domésticas, nas leituras digitais e na escolha do livro, dei por mim a esbarrar, qual epifania, com O Deus das Pequenas Coisas. Senti a coincidência como revelação de um sentido maior. O que me acontece muito: unir pontos desligados e dar-lhes uma lógica absurda.
O que vale é que cada uma destas sensações dura segundos ou fracções de segundo. Porém, subsiste o problema: são involuntárias, diversas, sucessivas e prolongam-se por horas ou dias. A estafa do espírito criativo. O juízo manda-me esperar que passe, como uma série interminável de vagões de um comboio de mercadorias, e espere pelo conforto das carruagens estofadas de passageiros. Uma coisa menos apelativa em termos de aventura, mas socialmente conveniente. Parecendo que não, cá tenho de sobreviver no mundo convencional.
E Domingo?
Fomos a Aveiro. Foi a meio da manhã de Sábado que, um tanto incomodada com o facto de estar sem plano para o dia, me voltei a lembrar dos passeios ferroviários. Já era tarde para sairmos para almoçar, por isso adiámos para Domingo. Liguei à minha sobrinha para que o namorado me indicasse um restaurante. Tendo vivido cinco anos em Aveiro, por lá ter estudado, indicou um restaurante, mas estava fechado. A minha sobrinha lembrou-se de me aconselhar um Alfarrabista com um nome castiço: Ror de Livros. Naturalmente fechado ao Domingo.
O Nuno ficou animado. Um dos desgostos que tem por não ver é não sairmos mais vezes ao fim-de-semana. E se há alguém que aproveita bem estes passeios, é ele. À primeira oportunidade vejo-o muito solto na amena cavaqueira. Assim foi no Observatório Astronómico do Alqueva. Assim foi no cruzeiro de Moliceiro pela Ria de Aveiro, onde aprendemos: dois apitos de buzina a estibordo, três apitos de buzina a bombordo, um apito prolongado em frente. Dicas boas para quem escreve romances; pena não ter nenhum em mãos.
Deslizamos nas águas da ria comigo meia absorta nos pensamentos, meia sintonizada: ouvia o Nuno conversar com o marinheiro, com duas raparigas novas da Trofa, que se sentaram ao nosso lado: uma simpática brasileira há vinte anos em Portugal e uma bem-disposta ucraniana que, ao descobrir o Nuno alentejano, mostrou-se interessada em saber onde era a Capela dos Ossos. À nossa frente um casal de homens brasileiros atentos ao pormenor de um peixe suicida que saltava na água à vista das gaivotas. E um casal português com um filho de um ano. Focados a tempo inteiro no bebé, no cachorro de peluche, na chupeta, no sumo biberão, no carro com luzes, nas bolachas.
À saída o Nuno magoou-se por distracção minha. Como à entrada pareceu-me que tinha sido demasiado cuidadosa, relaxei à saída do barco. Erro crasso, o Nuno enfiou a perna onde não devia e magoou-se. Dada a discrição dele e minha vontade de não fazer cenas só me apercebi do golpe quando já estávamos afastados do ancoradouro. O curativo foi feito no fraldário do Fórum Aveiro.
E antes do passeio, não posso dizer que o almoço tenha corrido bem. O Nuno teve mais sorte do que eu. Escolheu um bife ao alho que disse estar bom. Mas eu resolvi pedir cabrito num restaurante onde não o sabem preparar. Não tiraram a gordura, cuidado imprescindível neste bicho. Resultado: um travo horrível a bedum. Valeu a banalíssima baba de camelo.
Ao fim da tarde, face ao frio e ao aviso de atraso do comboio de quase uma hora, o dissipador de património e a fonas decidiram regressar a casa de Bolt. Um conforto que fez o Nuno lamentar não ver para sairmos de carro aos fins-de-semana. Já não digo nada acerca de eu não conduzir; é assunto fechado. Curiosamente quando comecei a escrever as Comezinhas ainda pensava nisso. E noutra decisão mais relevante: ter um filho adoptivo. O tempo passa e há assuntos que ficam encerrados em definitivo. Assim se faz do presente, passado. E as Comezinhas testemunham. Mais adiante haveremos de ir a Viana do Castelo.
O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.
Obrigada por terem lido. Boa semana.