Ontem foi dia de visitar o Centro Português de Fotografia. Nas salas da Relação vi duas exposições. Uma da norte-americana Vivian Maier, outra dos holandeses Carol Alexander Schade e Ernest Schade, pai e filho.


Vivian Maier fotografou nos tempos livres a banalidade do dia-a-dia: rua, pessoas anónimas, objectos e paisagens. Nascida em 1926 em Nova Iorque, filha de pai austríaco e mãe francesa, trabalhou quarenta anos como ama. A venda da quinta que herdara em França, nos anos 40, e o trabalho como ama permitiram casa e algumas poupanças. No início dos anos 50 comprou uma Rolleiflex e com ela captou cenas espontâneas da vida urbana de Nova Iorque. Em 1951 viajou com a família para quem trabalhava rumo a Cuba. Entre 1956 e 1971 viveu com uma família abastada de Chicago que a empregou como ama residente. Nessa altura transformaram uma casa de banho em câmara escura para revelação das suas fotografias. Em 1959 fez uma viagem sozinha de seis meses pela Ásia, África, Europa e Médio Oriente. A partir dos anos 90 começou a viver precariamente com empregos de curta duração. A instabilidade financeira levou a que o arquivo fosse guardado em cacifos, enquanto a família Gensburg, para quem trabalhara 17 anos e mantinha contacto, a ajudou a sustentar-se. Em 2007 os cacifos foram leiloados por falta de pagamento, o que originou a descoberta do trabalho de uma vida. A fotógrafa morreu em 2009 antes de saber do reconhecimento internacional. Uma vida de valor. Sem fanfarronice, bajulações estéreis e trocas de favor para obter visibilidade.

A outra exposição — África vista por duas gerações — narra a travessia em 1938 do continente africano desde a Cidade do Cabo até ao Cairo, fotografada com uma Leica pelo oficial do exército e fotógrafo amador Carol Alexander Schade. E a continuação do legado pelo filho Ernest Schade, agrónomo que trabalhou no ministério da agricultura moçambicano e em várias ONG. Uma imagem desarmante destaca-se na exposição: a de uma criança amputada junto de um imponente embondeiro. A fotografia é de 1995, da província do Tete.
Gelado e recordações

Depois de vermos as fotografias descemos aos Clérigos. Eram quatro da tarde e o som electrónico vindo da torre imitava os sinos a entoar o Hino da Alegria. Atravessámos a Praça de Lisboa e fomos em direcção à Amorino, cadeia francesa de gelatarias, que anuncia confeccionar os gelados segundo a tradição artesanal italiana. Pedimos o mais modesto do catálogo, sem a forma de flor por que é conhecida a gelataria: copo piccolo com dois sabores. O Nuno comeu um gelado de café e maracujá. Eu experimentei o de lima-manjericão e chocolate orgânico. A sensação boa veio do lima-manjericão, gosto aberto e fresco. O bem-vivo paladar da lima com o pique do manjericão. O Nuno adorou a minha escolha. Na próxima vez, escolherá para si.
Dali seguimos para casa da minha tia. Parámos antes na confeitaria Primar para levarmos uma caixa de bolos miniatura. Chegados a casa da minha tia, instalámo-nos, cada um comeu um bolito e conversámos. Os dois conversaram serenamente. Como estava um pouco desalentada por não ter novidades para me contar, além de a pôr a par dos meus projectos de renovação de casa, puxei pelas memórias. Contei que nas minhas escrevinhações mais do que uma vez referi os puzzles de Bruegel da minha madrinha. Das suas cenas a representar expressões idiomáticas. A minha tia arrepelou-se como eu sabia que aconteceria. “Da minha madrinha?” Sim, tia, à moda dos parolos. Refiro-me à madrinha, tal como, em nova, me metia com a mãe e perguntar se “o comer” estava pronto. Nada como a boa-disposição e pôr em causa os dogmas da linguagem de bom gosto familiar.
Recordei depois como em criança o quarto e o escritório da tia N., em casa dos meus avós nas Antas, eram mundos a descobrir. No quarto o toucador com o espelho velho que não espelhava de tão picado de escuro, e supostamente perderia valor se fosse trocado por um que funcionasse, e as múltiplas pulseiras, que eu achava o símbolo máximo da feminilidade, a colecção de moedas e os livros de banda desenhada. Especialmente a Mafalda, foi ali que li as primeiras pranchas do Quino. No escritório o aquário redondo dos peixes, as muitas pedras de tamanhos irregulares e variadas cores. O sofá colorido improvisado com vários almofadões. Em criança muito pequena ainda lá estava o piano dos meus avós, que depois foi para Valinhas; um pouco mais tarde apenas a viola da minha tia.
Domingo de arrumações
Hoje acordei com vontade de desfazer-me do inútil. A ideia veio à mente ao olhar para a pilha de livros sobre a mesa do computador. Mas por que carga de água estão ali há ano e meio, ou mais? Sim, havia um projecto. Mas nem todos correm os termos iniciais e se concretizam. Aquele já representava estagnação e mofo. Desfiz a resma. Os livros voltaram à estante; precisando deles, é só ir buscá-los; afinal ao longo dos últimos tempos consultei-os poucas vezes. À mão de semear ficam apenas os livros no activo: Sobre o Cálculo do Volume I e Os Sete Pilares da Sabedoria. Ainda no meu mini escritório retirei da estante as luzes de Natal; na semana passada quando as tive acesas pela última vez, cheirou-me a plástico queimado. Foram para o lixo.
Na sala, na cadeira do canto ainda estava pousado o centro de mesa do Natal. Esquecido. Pu-lo na gaveta debaixo da cama, onde o costumo guardar. Demorei a fazê-lo por preguiça; por implicar arrastar a mesa de cabeceira para abrir a gaveta. Arrumei a gaveta de cima do aparador pequeno; não faz sentido guardar papéis e talões acumulados com mais de dez anos e foi preciso organizar quinquilharia.
Na cozinha desfiz-me de dois caixotes de electrodomésticos que há muito tinha em cima da máquina de lavar a roupa. Guardei duas caixas de plástico que não são minhas e ainda não tive oportunidade de devolver, por isso estavam de fora. E com uma pancada de alicate consegui descolar as sobras de um íman do par de pássaros da mesa da cozinha. Agora só sobrou um pássaro original que tive de fazer parelha com um bicho híbrido daqueles do imaginário das animações japonesas que os meus sobrinhos gostam.

Passei também os olhos nos quartos para ver se tinha alguma coisa para me desfazer. Finalmente, decidi deitar fora o conjunto de carregadores e três ou quatro telemóveis antigos que reunira em Outubro passado com essa intenção. E tratei de um aspecto essencial. A partir de terça-feira terei obras na varanda. Será levantado o chão, posta tela impermeabilizante e novas lajes. Por essa razão trouxe todas as plantas para dentro de casa. Pu-las no segundo quarto para deleite do Ritz.
Compras
Hoje de manhã, além das compras online do supermercado, usámos a AliExpress para mandar vir um cabo de dados universal para a pequena máquina fotográfica Fujifilm, um pedal de sustentação para o segundo teclado do Nuno e um oráculo I Ching para mim. Depois da hora de almoço fomos a pé ao Mercadona para esticarmos as pernas e abastecermo-nos de vitaminas. Além das habituais, desta vez trouxe também zinco para o cabelo e unhas.
Obrigada por terem lido. Boa semana.