Colcha de retalhos a completar madrugada fora

- amor, amizade, férias, casa, política -

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Prólogo

Fotografo o estado. Jantada e após um par de horas de sono, já passa da meia-noite, o Nuno pede que oiça Danielle Licari. Oiço e anuncio que vou estar nas minhas coisas a escrever. Ligo a Smooth FM. Sirvo o licor irlandês Carolans. Preparo-me para a primeira madrugada das férias de duas semanas. Minha. Inteira.

Escrevo estas linhas como prólogo da mexerufada que aí vem. Mais estados de alma e inutilidades que não interessam a ninguém. Não pseudo-romantizadas, não pseudo-intelectualizadas. Uma maçada. Sofro tanto.

Publicarei em acrescento a estas linhas quando os dedos pararem e o corpo pedir que troque o sofá pela cama.

Até mais logo.

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A pessoa de mais cerimónia nesta casa sou eu

Assim respondia a minha avó materna a algum deslize nos primores que achava essenciais em casa. Lembrei-me disto a propósito dos espaços onde escrevo. A pessoa de maior cerimónia nas Comezinhas sou eu. Escrevo em primeira linha para me agradar e para cumprir o dever que me incumbi. Não faz sentido a quem passa? Não atrai leituras? Não seduz? Que maçada. Como oito mil milhões de outras pessoas para prestarem atenção, por que carga de água isso seria relevante?

Ao fim de cada embate, ao fim de cada vida, é comigo mesma que me vou encontrar. É comigo que vou contar. É a mim que vou pedir contas. Pelas injustiças que cometi com os outros e comigo própria. No fim é a mim que vou pedir satisfações pelo que fiz da vida.

Do lado de lá nunca fui especialmente compreendida e quão mais recta e amiga fui, mais ingratidões, invejas camufladas de elogios e deslealdades sofri. Há excepções, sem sombra de dúvida. Boas surpresas. Corações genuínos. Inteligências sensíveis. Cerco-me desses pequenos tesouros. E tento abstrair do egoísmo e da leviandade muito generalizados.

Como não aprendo, apesar do faro, continuo a mostrar-me confiante e de espírito aberto a quem aparece de novo, sem querer saber dos sinais que denunciam falhas de carácter como a falsidade e o oportunismo. Ou tão só a frivolidade. E mesmo com quem demonstra não ser muito certo das ideias arranjo desculpas que expliquem comportamentos desrespeitosos. Afinal também há quem compreenda os meus humores e a minha brutalidade.

Do lado de cá também não sou fácil. Intransigente. Julgadora inflexível. Pouco apetecível para conversa e estares ligeiros ou superficiais. Em suma: pouco dada ao social. Em minha defesa digo que prefiro despir-me da carapaça e revelar a doçura a poucos. A quem é leal. A ideia de comprar simpatias e amizades repugna-me. Fartinha de gente encantadora de fachada, que só aparece para figurar ou tirar proveito e nunca para o essencial, para os bons e maus momentos.

Como aproveitar as férias?

Não tenho planos, senão as quatro noites no bungalow de Angeiras. Não tenho compromissos. Tínhamos um com um amigo para este fim-de-semana, que ficou sem efeito. Gozaremos da sua companhia mais adiante, em Julho. E tenho uma consulta médica que implica decisões; optarei pelo que me ocorrer no momento. Ah, e as tais Conversas ao fim da tarde que incidirão sobre a solidão nos jovens e nos mais velhos. E por essa altura lancharemos com a F..

De resto é saborear os dias sem a rotina do trabalho. Deixar os dias rolar sem imposições. Indisciplinar-me. Apanhar sol, se der. Nadar, se der. Descansar, descansar. Estar com o Nuno. Festinhar o Ritz. E escrever. Sem qualquer preocupação com o que está pendurado. Abstrair do estado paradíssimo da escrita fora de antena. Poupar-me às obrigações. Poupar-me às auto-recriminações. Desperdiçar os quinze dias a meu bel-prazer.

Devia fazer caixinha

A nossa casa continua à venda e tudo quanto podia correr mal, correu. Parece praga. Na mesma semana que a pusemos à venda, apareceram quatro casas da mesma tipologia à venda aqui na rua. O elevador avariou, a tampa da caixa das operadoras de comunicação estava caída. E a placa de venda, que relutei em pôr e acedi anteontem, caiu da fachada duas vezes com o vento.

Surgiram todos os enguiços para que não consigamos vender a casa. Omito o único aspecto positivo para não azarar.

Se de facto acreditasse em sinais sobrenaturais, diria que era uma evidência que não devíamos vender. Contudo, sou teimosa como uma mula até levar a minha avante. Se não fosse a determinação, não tinha conseguido nada na vida. Posso perder, mas perco a batalhar pelo que quero e acredito.

O barulho das certezas e talentos de algibeira

Vivemos tempos em que tudo se questiona e quem for consciencioso tem a vida particularmente dificultada. Se for dar mais ouvidos ao ruído exterior do que ao próprio entendimento, viverá como um badalo ao sabor dos apetites de cada iluminado que resolva descobrir a pólvora a troco de atenção.

A paz de espírito é cada vez mais difícil de encontrar no meio de tantos sábios de algibeira.

A amizade e o amor genuínos são cada vez mais raros com tantos talentos e sentimentos de fancaria.

É preciso saber e fabricar menos artifício e viver e amar mais.

Epílogo

Às quatro da manhã está quase tudo na mesma. Tirando o copo no fim e o Ritz mais aconchegado. O que acrescentar?

De dia deu-me um certo prazer ver o paspalho do líder parlamentar do PSD engolir as palavras que disse no dia anterior. Não é que seja relevante, mas previ que o Chega chumbasse o “pacote laboral”, que seria um faz-de-conta de reforma à custa de quem trabalha e não de quem faz de conta que trabalha. A vida tem destas incongruências. Às vezes a justiça é feita pelos menos confiáveis. Pouco na política é linear. Entretanto, as sondagens continuam a dizer o que os portugueses vão sentindo.

Outra alegria do dia? Ver uma vip presumida tomar o caminho contrário (ao meu) numa bifurcação que se anuncia para outros do mesmo calibre. Vão com Deus. Com maldade pura, digo aquilo que me custava muito ouvir quando era mais nova: Deus te guie contra uma árvore.

Outra maldade? Tropeçar em declarações de amor que o desvirtuam completamente. Manifestações esconsas, mentirosas, traiçoeiras, múltiplas, falsas. Deus te guie contra uma árvore.

A Smooth FM diz-me que já não sorrio como antigamente. Mente. Sorrio, sim. Quando me apetece e a quem merece.

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O que escrevo está a ser publicado em Isabel Paulos – Medium.

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