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Acordei cedo. A manhã passou a correr. Almoçámos em casa da minha mãe. O bacalhau espiritual do Natal estava tão bom, que hoje repetimos. O verdadeiro, o que conheço desde que tenho memória de mim. Bem feito. Nada a ver com o servido em restaurantes. Como o Nuno não é apreciador e é genro mimado, teve direito a bife de lombo com arroz de feijão.
Mal acabei de almoçar caiu sobre mim um sono inelutável. Estive uma hora no sofá a dormir. Acordei, conversámos. Reuni informação para me certificar de que estou inteirada de assuntos familiares, que outros resolvem e eu me limito a fazer relatório.
Li finalmente as últimas páginas do romance de Clarice Lispector, testemunho de um ser humano ignorado, mais do que desprezado. «Eu sou», é o que diz de mais importante a personagem que jamais poderia ser protagonista, apesar da sua vida ser o cerne da narrativa.
Encontrei mais uma vez elementos que se vão juntando como peças de um quebra-cabeças à ideia de transcendência. De sentido de vida. É como tropeçar no fio condutor tecido pela entidade criadora. Vestígios da suprema lucidez.
Aparece solta uma frase que não define a história, mas se aplica a boa porção dos que poluem o planeta, mais do que o enriquecem, infelizmente os que mais riscam no espaço público: «Tinha vergonha da verdade. A mentira era tão mais decente. Achava que boa educação é saber mentir.»
Ouvi duas tarólogas que, tal como ao descrever o real incómodo, fazem de mim atrasada mental ou desordeira aos olhos de certos círculos bafientos de iluminados. Os mesmos que de modo sapiente fazem vénias a balelas semelhantes, se ditas por amigos psicólogos ou pelo senso comum.
Quero escrever mais um post para a série Agenda moralista. Não sei se pense nisso agora, antes de me deitar, ou se deixe para depois de uma noite sono.